“O homem como invenção de si mesmo”, de Ferreira Gullar

Matéria de Ubiratan Brasil para O Estado de S. Paulo de 31 de outubro de 2012:

É da razão e do acaso que se alimenta a inspiração do poeta Ferreira Gullar, de 82 anos – uma reflexão sobre a função do homem da Terra o incentivou a escrever, ao invés de um tratado filosófico e metafísico, uma peça de teatro, O Homem Como Invenção de Si Mesmo, lançado agora em livro pela José Olympio. E, a partir de uma inesperada desorganização provocada por seu gatinho nos recortes que formariam uma ilustração, Gullar partiu para uma nova forma de fazer colagens, trabalho que até lhe rendeu um prêmio Jabuti.

“Gosto de me reinventar, sempre”, comenta o poeta, que garante não correr atrás de suas ideias: elas é que o procuram. O talento está em transformá-las em arte. Foi assim que, em 2006, perseguido por um pensamento, decidiu voltar a escrever para o teatro, atividade que não exercia desde que lançou a peça Um Rubi no Umbigo, em 1979.

A origem de O Homem Como Invenção de Si Mesmo, que já figurou na antologia Poesia Completa, Teatro e Prosa (Nova Aguilar), é curiosa. Gullar conta que, em um determinado momento, observou que o homem se inventa e também o próprio mundo em que vive.

“A cidade, por exemplo, é algo criado pelo homem – não se trata de uma extensão da floresta. O mesmo acontece com nossos próprios valores, pois o ser humano criou Deus para que Este o criasse”, diverte-se o poeta. “Cada pessoa se inventa, seja poeta, pintor, músico ou jogador de futebol. Não somos ninguém quando nascemos, é a cultura que vai nos formando, são os valores que nos constituem.”

Com tal teoria martelando na cabeça, Gullar escolheu o teatro como forma de expressão, especificamente o monólogo. Assim, quando se acendem as luzes, o espectador conhece o bagunçado escritório de Vincenzo Mezatti, escritor à beira de um ataque de nervos porque, incapaz de dominar os recursos de um computador, teme perder o que já escreveu quando o aparelho trava. Assim, enquanto tenta encontrar por telefone a ex-namorada (expert em informática), ele se dirige ao público para revelar sua teoria sobre o homem como invenção de si mesmo.

Como exemplo, ele cita Arthur Bispo do Rosário, artista de rua que passou grande parte da vida internado na Colônia Juliano Moreira, no Rio, porque dizia ouvir vozes. Sua obra é homenageada na Bienal Internacional de São Paulo, em cartaz no Parque do Ibirapuera. “Ele vivia num universo de ideias, sonhos e realizações que são frutos de sua inventividade”, comenta o personagem Vincenzo, a respeito das orientações divinas que Bispo dizia receber para a confecção de suas peças maravilhosas.

A peça se revela um autêntico exercício de metalinguagem, reconhece Gullar, jurando, porém, não se tratar de um alter ego. “Pouco tenho em comum com Vicenzo, embora ainda preserve minha máquina de escrever Lettera 22 – uma relíquia, pois foi nela que escrevi Poema Sujo, quando estava exilado em Buenos Aires, nos anos 1970.”

O texto de Gullar empolgou o diretor e produtor Robson Phoenix, que saiu à caça de patrocinador. Conseguiu aprovação para captar recursos pela Lei Rouanet e, na semana passada, ligou ao poeta dizendo ter conseguido um sponsor. “Acredito que agora Robson consiga montar”, festeja o poeta, que aprova Osmar Prado no papel principal.

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