“Letras em números”, de Luís Augusto Fischer

Texto sobre a revista Granta dedicada a jovens autores brasileiros. Foi publicado no caderno Ilustríssima da Folha de S. Paulo de 2 de setembro de 2012:

RESUMO Numa análise quantitativa e comparativa com duas antologias publicadas na década passada, a seleção da “Granta” permite identificar mudanças no cenário literário brasileiro. Entre elas, mais autores nascidos nas metrópoles e mais enredos autorreferentes -terá o leitor mais interesse hoje na vida dos escritores?

Fez bastante barulho a antologia “Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros”, da revista britânica “Granta”, lançada em julho pelo selo Alfaguara. A repercussão foi pesada a ponto de Francisco Bosco, no jornal “O Globo”, ter armado uma defesa da existência de antologias. Aqui na Folha, Marcelo Coelho percebeu novidades num relance: saíram de cena os pobres e os desajustados, assim como a prosa regionalista viciosa, dando lugar a personagens requintados, vivendo experiências na Europa.

A recepção crítica demonstra a força da iniciativa, que merece ainda outra apreciação, que busque detectar tendências de conjunto.

O júri tinha só leitores hábeis: Beatriz Bracher, Cristovão Tezza, Samuel Titan Jr., Manuel da Costa Pinto, Italo Moriconi, Benjamin Moser e Marcelo Ferroni, editor. Vamos contar com o pressuposto elementar de que elegeram o melhor entre os possíveis, sem pressão de qualquer outra natureza.

Por isso, vamos tomar a seleção como representativa do quadro atual no Brasil. Foram 247 inscrições, das quais saíram os 20 publicados; apresentaram-se candidatos de 17 Estados brasileiros, além de quatro que vivem fora do país, mas aqui nascidos.

Pelos currículos, vê-se que os selecionados nasceram entre as classes confortáveis e vivem como escritores, editores, colunistas, críticos, tradutores, roteiristas -em suma, gente do meio letrado, em larguíssima maioria.

Pode-se perceber também uma outra similaridade: dos 20, apenas um não publicou por (nem trabalha para) editora carioca ou paulista, mesmo que alguns tenham estreado em editoras de outros Estados. Nada mais eloquente em matéria de concentração espacial: um filtro invisível opera o tempo todo na seleção.

Essa seleção brasileira sub-40 tem dominâncias. Muitos dos autores têm de fato sólida vivência do exterior, na condição de estudantes ou por laços familiares. Há três filhos de imigrantes que vieram ao Brasil no ciclo das ditaduras militares recentes, matéria explícita de três dos contos; isso é praticamente tudo que há de política no volume.

Aliás, em 60% dos contos da “Granta” há, no centro do enredo, relações entre filhos e pais, talvez uma marca de geração e de classe. Em 55%, aparecem citações ou alusões “cult” (a mais notória é a reiteração da palavra alemã “Weltanschauung”, visão de mundo, no texto de Luísa Geisler), a dar conta do registro letrado em que operam.

Na mão inversa, não há empenho em aproximar do escrito as modalidades de fala popular.

INTERNET Pela idade, é gente que na infância ou na adolescência passou a conviver com o computador e a internet; não estava ainda na universidade quando a URSS encerrou sua vida e Fernando Collor foi eleito, marcas ambas da enorme abertura de mercados experimentada mundo afora; aprendeu o sexo já com a sombra da Aids; terá sido assaltada uma ou mais vezes na rotina das cidades brasileiras.

Quanto à qualidade estética, bem: para este leitor aqui, dos 20, uns cinco ou seis pegariam titularidade pelo texto apresentado na antologia -pela ordem na publicação, Michel Laub, Daniel Galera, Antonio Prata, Julián Fuks, Leandro Sarmatz. Alguns não comprometem, mas não têm força.

E há contos com inconsistências mais e menos grosseiras, como anacronismos (Antônio Xerxenesky supõe consumo de maconha como comum no início dos anos 60), cosmopolitismo “à outrance” (Laura Erber, pelo exótico chique, e Luísa Geisler, pelo deslumbramento), erro factual puro e simples (Vinícius Jatobá, num texto verista, pôs pombas pousadas em fios de luz), além de clichês sobre a rotina da classe média trivial (Vanessa Barbara), sobre realismo mágico (Cristhiano Aguiar) e até sobre o Rio (Tatiana Levy, uma caricatura de si mesma).

A antologia rende mais. Como um exercício à moda de Franco Moretti, o criativo teórico italiano que tem posto em relevo modalidades de análise quantitativa da literatura (como em “A Literatura Vista de Longe”, ed. Arquipélago), comparamos três antologias de grande impacto na opinião pública, em anos recentes.

Além da “Granta”, com seus 20 autores, entraram na conta outras duas: “Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século”, organizada pelo mesmo Italo Moriconi (Objetiva, 2000), e “Geração 90: Manuscritos de Computador”, com organização de Nelson de Oliveira (Boitempo Editorial, 2001).

Da primeira, foi considerada a última seção, “Anos 90: Estranhos e Intrusos”, que contém um total de 17 contos, de 17 diferentes autores. A segunda compilou textos de 17 autores, em número desigual de contos para cada um.

Primeiro, vamos ver traços da vida dos autores. O grupo de escritores da “Granta” é o mais metropolitano dos três, com 90% de nascidos em capitais, enquanto o “Geração 90” é o mais marcado pela presença de gente nascida no interior (41%) -mas, ao mesmo tempo, é o único conjunto sem ninguém nascido fora do Brasil.

Em nenhuma das três antologias há alguém nascido no Centro-Oeste ou no Norte. A tendência notável é de concentração na região Sudeste (64% na antologia de “Os Cem Melhores”, 59% na “Geração 90”, 50% em “Granta”).

Chama a atenção, nesta última, a presença forte de gaúchos (25%, ou 30%, se considerarmos Daniel Galera, nascido em São Paulo, mas criado em Porto Alegre,) e a ausência de mineiros, um daqueles silêncios eloquentes, sabendo todos da longa tradição de Minas na revelação de levas de escritores.

A “Granta” dá mostras do avanço da luta feminista: há 30% de mulheres no grupo, contra 12% e 6%, respectivamente, nas duas antologias anteriores.

Contando pela idade dominante dos grupos, considerado o ano do lançamento de cada coletânea como critério, em “Os Cem Melhores” havia 63% com mais de 55 anos, plena maturidade, contra os 100% com até 45 anos no “Geração 90”, enquanto na “Granta” todos estão, pelas regras da publicação, abaixo dos 40 anos -mas, atenção, 65% deles acima dos 30.

PROCEDIMENTOS Agora vejamos o material mais interessante, os dados colhidos nos enredos e nos procedimentos narrativos.

Entre 20 contos da “Granta”, seis ou sete podem ser enquadrados no campo da autoficção, esta espécie de onda que se pode definir pelo aproveitamento ficcional de dados empíricos reais da vida do autor (o exemplo mais notável no país é o romance “O Filho Eterno”, de Cristovão Tezza).

Onze deles têm narradores em primeira pessoa, testemunhais, e em 15 contos predomina o tempo presente nas ações (mas há dois contos situados no futuro imediato, daqui a um par de anos).

Esses dados, que botam luz no “eu” mais do que em um “outro”, ficam realçados quando se constata que nada menos de 50% dos contos apresentam personagens escritores, marca clara deste tempo -na antologia de “Os Cem Melhores”, nenhum dos enredos era assim autorreferente, e, na “Geração 90”, apenas 18% das histórias envolviam personagens escritores.

O leitor terá de fato mais interesse hoje que há dez anos na vida dos escritores, nessa proporção?

Numa contagem de incidências do cenário rural em contraste com o urbano, acentua-se levemente na “Granta” uma tendência das outras duas antologias: agora, 95% dos enredos têm como cenário a cidade (em “Os Cem Melhores” esse número era de 88%, no “Geração 90”, de 94%).

Mas a “Granta” se afasta de outra curva regular: nela, 90% dos personagens relevantes se encontram nas classes confortáveis (da classe média-média para cima, gente que não passa por apertos significativos de vida). Na antologia de Moriconi, a divisão era bem outra: 59% de gente confortável; na antologia de Nelson de Oliveira, apenas e tão somente 35%, a maioria sendo de gente das classes carentes.

Em contrapartida, a “Granta” ostenta, em 55% dos contos, cenas passadas fora do Brasil. Isso representa uma mudança de impacto, na tradição local: em “Os Cem Melhores”, apenas 18% das histórias tratam do mundo não brasileiro, e no “Geração 90” simplesmente não aparece o exterior, sendo esta a mais rente à matéria direta da vida local, com autores empenhados na indagação sobre as mazelas sociais, como Luiz Ruffato, Rubens Figueiredo e Marçal Aquino.

COSMOPOLITIZANTE Na literatura brasileira, valerá lembrar que o maior, Machado de Assis, nunca concebeu cenas relevantes passadas fora do Brasil.

Erico Verissimo desenvolveu dois romances no exterior, e na geração seguinte isso se tornou menos raro, com Moacyr Scliar, João Ubaldo, Ignácio de Loyola, Caio Fernando Abreu. Em anos bem recentes, o exterior ganhou as manchetes, os títulos: João Gilberto Noll publicou “Berkeley em Bellaggio”; Bernardo Carvalho, “Mongólia”; Chico Buarque, “Budapeste”.

A “Granta” parece ter fotografado um momento cosmopolitizante, antipovo e autorreferente, na geração mais nova, que surfa num mercado muito mais maduro do que jamais foi, em todos os níveis, na renda, nos circuitos de difusão, no consenso da importância da leitura.

Olhando panoramicamente, duas linhas se mostram. Uma convergente: a economia brasileira de fato se volta para fora, como um “global player”, e a nova geração se afina com isso. Outra divergente: a nação segue chafurdada em mazelas, como por exemplo a corrupção sistêmica, para não mencionar as enormes desigualdades sociais já quase invisíveis de tão antigas, mas a nova geração parece passar ao largo disso.

3 Comentários

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3 Respostas para ““Letras em números”, de Luís Augusto Fischer

  1. Ótima percepção, Fischer.

  2. Elizama

    “(…) as enormes desigualdades sociais já quase invisíveis de tão antigas, mas a nova geração parece passar ao largo disso.”
    Mas e qual é o problema da literatura não falar disso? Teria a literatura compromisso fiel em retratar a realidade, em tomar o sofrimento social, teria que ser engajada? A sociologia e a antropologia tão aí pra isso.

  3. Pingback: ACABEI DE LER A GRANTA « Doidivana

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