“Telas de Paulo Pasta são exibidas em Ribeirão Preto”

Matéria de Antonio Gonçalves Filho para o Estadão:

RIBEIRÃO PRETO – São pinturas de pequeno formato – de dimensões liliputianas mesmo – que jamais saíram do ateliê do pintor Paulo Pasta. Elas são apresentadas pela primeira vez numa galeria de Ribeirão Preto, a Adearte (Rua João Penteado, 920), que abre hoje, às 20h30, uma exposição com telas pertencentes à coleção particular do artista. A mostra cobre um período correspondente aos seus 20 últimos anos de produção. Na época da primeira, Pasta esgotara uma série que lidava com a sugestão de objetos arcaicos “redescobertos” sob camadas espessas de tinta – escavadas como num processo quase arqueológico – e começara uma outra, em que a cera deixava gradativamente de ocupar o papel principal e juntava-se ao óleo para sugerir o chão do ateliê do artista. Apelidada de “cacos”, a série, de figuras indefinidas, confirmava a superposição entre figura e fundo que caracterizou os primeiros trabalhos de Pasta.

Paralelamente à série dos “cacos”, o pintor desenvolvia, em 1992, experiências figurativas que tinham a ver com uma sugestão de volume, surgindo daí figuras como colunas, vigas e piões. São elas que dominam a mostra, que marca também o lançamento do livro A Educação pela Pintura (Editora Martins Fontes, 184 págs., R$ 45). Essas figuras, que nada mais eram do que pretextos para a pintura, à maneira das garrafas de Morandi, seriam posteriormente retrabalhadas em telas de grandes dimensões, em outro contexto e outra época. A evocação do objeto real, embora plena de memória afetiva, levaria a um outro estágio da pintura de Pasta , em que a forma e o monocromatismo cederiam espaço à cor como protagonista dessa história – uma das mais originais e marcantes na arte brasileira.

Dois pintores do universo afetivo de Pasta, Morandi e Rothko, foram importantes nesse período de transição do império das formas para o protagonismo cromático. O crítico Paulo Venâncio Filho já chamara a atenção, no livro sobre o pintor ( Cosac Naify), para as semelhanças e diferenças na abordagem da cor por Pasta, Morandi e Rothko. Se o último prescindia da história para construir seu cromatismo, a pintura de Pasta está ancorada nos mestres do passado. O rosa presente nas telas mais recentes – e em algumas pequenas pinturas da mostra – é o rosa dos renascentistas italianos, não a cor da sociedade industrial de Rothko. As formas que se juntam e sustentam de modo recíproco, como observou Venâncio Filho, são evidentemente de inspiração morandiana – e o pequeno pião abóbora da exposição é uma prova disso. No entanto, Pasta extrai do objeto suas características reais para ficar com a lembrança de sua forma, no limiar entre presença e ausência.

As pequenas telas da mostra, diz Pasta, não são esboços nem estudos. Elas têm uma existência autônoma como pinturas acabadas. Naturalmente, por conviver com elas há 20 anos em seu ateliê, essas obras servem não só como referência histórica da evolução do trabalho do artista, mas como janelas da percepção, um olhar para dentro que impede escolhas arbitrárias e firma uma coerência raras vezes vista na obra de um pintor brasileiro. Pasta é, além de tudo, um professor, um mestre rigoroso com o próprio trabalho, que não se permite projetos paródicos e autorreferentes. Tanto que a autonomia dessas pequenas telas se deve ao desejo de evitar a serialização como meta. Forma e cor chegam juntas e, mesmo que sugiram séries, essas colunas, garrafas e cruzes – destituídas de seu significado simbólico, como as bandeiras de Jasper Johns – exigem do espectador um tempo maior que o usual para perceber a independência de cada pintura e sua densidade poética.

A evocação de um brinquedo de criança, como o pião, ou o bule com o copo e a colher da cozinha do ateliê (foto menor, abaixo do pião, nesta página) é tanto um esforço de preservação da memória do vivido como matéria construída. O curador da mostra, Nilton Costa, diretor do Museu de Arte de Ribeirão Preto e do 37.º Salão de Artes (Sarp) que se realiza na cidade, teve a sorte de contar com a assessoria museológica de Paulo Portela, do Masp. Por ser amigo pessoal de Pasta há quase 30 anos, Portela conhece bem a origem dessas pinturas, agrupadas por tema e ordem cronológica, num percurso quase didático da história do pintor, homenageado com essa mostra paralela do Sarp pela galerista Adelaide Silveira por sugestão de Ricardo Resende, diretor do Centro Cultural São Paulo.

Presente na coleção de João Figueiredo Ferraz, que há um ano inaugurou um instituto para abrigar seu acervo em Ribeirão Preto, Paulo Pasta mostra também na Adearte uma série de nove gravuras realizadas em 2009 com tiragem limitada de 60 exemplares. São serigrafias que traduzem o protagonismo da cor na obra mais recente do pintor paulista.

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