“Resenha de ‘A ficção e o poema’, de Luiz da Costa Lima”

Resenha de Franklin Alves Dassie sobre o livro recém-lançado A ficção e o poema, de Luiz Costa Lima. Publicada no caderno Prosa & Verso do jornal O Globo:


O novo livro de Luiz Costa Lima é a continuação, no sentido de ser um desdobramento, de uma pesquisa de fôlego que o autor desenvolve sobre a mímesis há pelo menos 20 anos. Isso — refletir mais de duas décadas sobre um tema fundamental da teoria da literatura e publicar quase uma dezena de livros com esses resultados — já tornaria “A ficção e o poema” indispensável. À dedicação ao tema, soma-se, em primeiro lugar, uma atitude política: na contramão de uma conjuntura que, como Costa Lima mesmo afirma em um dos capítulos, solicita “diminuir as dificuldades de compreensão, tornar mais leve o que poderia soar complicado”, esse é um livro que exige leitores que não tenham medo da teoria.

Por outro lado, “A ficção e o poema” se torna indispensável pelo repertório que o autor coloca em cena. Repertório teórico, que vai de Platão a Derrida, passando por Heidegger, Adorno, Benjamin, entre outros, em leituras que examinam com precisão o desenvolvimento da mímesis nesses autores. E repertório poético: ao enfatizar o poema nesse livro, o autor traz para o debate Antonio Machado, W. H. Auden, Paul Celan e Sebastião Uchoa Leite — nomes distantes que se aproximam pela radicalização de alguns procedimentos da modernidade artística. Nos dois casos, dialoga com uma série de comentadores dos teóricos-filósofos e poetas. Ganha o leitor, que é apresentado a uma bibliografia extensa e de qualidade, quase toda inédita no Brasil.

“A ficção e o poema” abre com um preâmbulo que desenvolve a questão da mímesis-zero, antes só nomeada no livro “Mímesis: desafio ao pensamento” (2000). A partir da leitura dos legados de Kant e Freud (que abre uma vereda ao que Costa Lima procura entrever) e das reflexões de René Girard e Borch-Jacobson, em um caminho que discute, entre outras coisas, mímesis e libido, se afirma esse momento da mímesis como “uma mancha ou uma nebulosa” — como mera potencialidade, a mímesis-zero é “uma mancha ou nebulosa já tocada pela libido”, é a paisagem que espera ser semeada.

Autoinvestigação teórica

Esse preâmbulo funciona como o início do percurso das três partes do livro: “Retomada do caminho”, “Caminho que segue” e “… E se estreita”, cada uma delas aberta com versos de “Burnt Norton” de T.S. Eliot.

Para ilustrar “Retomada do caminho”, Costa Lima escolhe o seguinte trecho: “Descend lower, descend only/ Into the world of perpetual solitude”. O nome do capítulo e o movimento descrito nos versos sugerem que “A ficção e o poema” começa dando continuidade, em um lance de autoinvestigação teórica, ao que ele já havia discutido nos outros livros em que a mímesis é tema. Daí, aquilo que por um limite — da escolha de abordagens e gêneros —, ficou à espera, será discutido agora: “enfatizar a questão do poema”. Mas, para que se obtenha êxito, essa retomada precisa cumprir duas tarefas. A primeira: requestionar a mímesis, ressaltando sua diferença em relação a como ela era compreendida na Antiguidade, a saber, como imitatio. E a segunda: mostrar como isso se contrapõe às perspectivas teóricas que, embora aceitassem a presença da mímesis, se mostravam insuficientes em sua argumentação.

Impossível reproduzir os caminhos argumentativos que se desenvolvem nas escolhas de Costa Lima: Derrida, que despreza aquilo que segundo ele vem a ser o seu “contraforte”, e Adorno, pelo “circuito teórico” que não o satisfaz. A retomada avança com a análise das respectivas concepções de mímesis. A leitura chega a “concepções de negatividade” nos filósofos, porém diferentes entre si. No pensador alemão, a mímesis tem um caráter de crítica à sociedade: ao atuar “com as coisas do mundo”, ela se apresenta como uma “modalidade excrescente de tekhné”. Em Derrida, a negatividade da arte só pode ser afirmada desde que a mímesis fique de fora, uma vez que ela concerne “à manipulação metafísica”. No sentido de articular a mímesis ao social, em debate que problematiza noções de representação e afirma o “controle do imaginário”, Costa Lima discute os frames, um operador entre a ficção e o mundo. “Retomada do caminho” termina com um capítulo esclarecedor sobre o “discurso” em três perspectivas diferentes, a de Eugenio Coseriu, a de J. L. Austin e a de Michel Foucault.

“Caminho que segue” abre com os seguintes versos de Eliot: “Words move, music moves/ Only in time; but that which is only living/ Can only die”. A dimensão de tempo (e, portanto, de movimento) que aí aparece indica algumas leituras. Por um lado, pode sugerir a ultrapassagem de um tipo de abordagem que se restringe à “matéria enunciada” do poema, não dando conta de sua “forma interna”. É essa a abordagem que Heidegger faz da poesia de Hölderlin, submetendo, ao aproximar esses discursos, o poético ao filosófico. A crítica de Costa Lima à “surdez do intérprete ao texto enquanto poético” é a afirmação da compreensão do poema como “resultado” da tensão entre forças internas e externas — uma compreensão, enfim, atenta ao poema como palco da encenação entre tais linhas de força.

Por outro lado, a dimensão temporal pode sugerir a configuração mesma do pensamento que o segundo capítulo dessa parte aponta. Daí o título dele (“Caminho que segue”) e o de uma sessão (“Em busca de um caminho melhor”). Daí, sobretudo, o percurso pela modernidade que Costa Lima nos apresenta: em torno de Mallarmé e Baudelaire — que, de certa forma, são figuras centrais do capítulo — uma constelação de nomes representativos. Melhor dito, a partir da poética de Baudelaire, e sua importância para a modernidade artística, e de Mallarmé, da solicitação da desaparição elocutória do poeta, o autor percorre um caminho que é, na verdade, uma instigante reflexão sobre o entendimento do poema, qualificado como o discurso que “enfatiza a experiência”, um gênero “(agressivamente) meditativo”. Esse caminho — que também problematiza certa leitura da noção de “eu” — prepara o leitor para a última parte do livro, “… E se estreita”, que faz a leitura crítica dos quatro poetas. Poéticas distantes são aproximadas a partir da mímesis.

Respostas à modernidade

Costa Lima analisa a produção de cada um deles, destaca particularidades em cada obra, dialoga com seus comentadores. Cada poeta ganha um capítulo específico. A questão é que eles se aproximam porque suas poéticas são respostas figuradas à modernidade, melhor dizendo, encenações da tensão que atravessa a relação social (e às vezes biográfica) e a obra — a distância da Espanha da alta modernidade (Machado), a “personalidade polifacética” (Auden), o Holocausto (Celan) e a proximidade da morte (Uchoa Leite).

As particularidades de cada um dos poetas são encenadas como respostas a um tempo de utopias desmoronadas. Daí, entre outras coisas, a análise da impessoalidade, da metáfora e o regime não metafórico, da profundidade e superfície, da ironia etc., como elementos colocados em ação na obra deles. Mas tais respostas se parecem mais com perguntas lançadas ao leitor — o hipócrita, semelhante e irmão de Baudelaire. E que parecem atravessadas pelo verso de Eliot que abre essa parte: “Turning shadow into transient beauty”. Perguntas lançadas, também, ao leitor de “A ficção e o poema”.

*Franklin Alves Dassie é professor adjunto de Teoria da Literatura da Universidade Federal Fluminense (UFF)

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