“O moto-contínuo narrativo do português João Tordo”, por Marcelo Moutinho

Resenha de Marcelo Moutinho publicada no jornal O Globo [via Língua Geral]:

Trama policial do escritor é pano de fundo para reflexões acerca das possibilidades dos textos ficcionais

“O bom inverno”, de João Tordo. Editora Língua Geral, 432 páginas. R$32.

O protagonista é um escritor frustrado. Sem grana ou sucesso, hipocondríaco, deprimido. E coxo, como o Dr. House da série televisiva, a quem faz questão de referenciar mais de uma vez. Lá vem mais uma enfadonha sequência de digressões sobre a penosa vida do ficcionista, poderia imaginar o leitor. Que perderia, assim, a chance de embarcar na deliciosa trama cerzida pelo português João Tordo em “O bom inverno”.

Lançado em seu país há dois anos, o romance é o quarto livro de Tordo, vencedor do Prêmio José Saramago em 2009 com “As três vidas”. O enredo se estabelece logo nas primeiras páginas. No afã de fazer algum dinheiro, o protagonista aceita convite para um encontro literário em Budapeste, onde conhece o italiano Vicenzo, também escritor. Expansivo e muito ambicioso, Vicenzo leva-o até a casa de campo do produtor de cinema Don Metzger em Sabáudia, na Itália. Na mansão, haverá uma festa reunindo outros artistas — o tal “bom inverno” a que alude o título do livro —, sob as bênçãos do anfitrião Metzger.

Sem recorrer a metáforas

As promessas, no entanto, se esfarelam quando ocorre um assassinato na casa. O crime é o primeiro de uma série que aterroriza os hóspedes, atirando-lhes em uma inesperada situação limite. Isolados do resto do mundo, tornam-se reféns do assustador Andrés Bosco, espécie de administrador do lugar, que decide mantê-los na casa até que um culpado se apresente. Aos poucos, os bem desenhados personagens passam a expor suas fragilidades. Caem algumas máscaras, erguem-se outras tantas.

Em uma trama típica de romance policial, Tordo instiga o leitor, que divide com o narrador em primeira pessoa a curiosidade sobre o desfecho. O registro é direto. Diferentemente de outros escritores portugueses de sua geração, como José Luís Peixoto, Valter Hugo Mãe e Jorge Reis-Sá, o autor não costuma recorrer à metáfora. A distinção é assumida por Tordo. “Estamos pouco habituados a que os romances portugueses contem histórias. Pertenço a uma corrente que cá não é muito explorada, apoiada em narrativa e personagens. Há um cânone que não reconhece isso como modo de escrever livros e ter valor”, afirmou ele ao site luso iOnline.

O subtexto da trama noir de “O bom inverno” traz reflexões sobre a literatura, sobretudo a respeito do processo de construção de um enredo e dos chamados “pontos de virada”. Com habilidade, Tordo garante que essa camada de leitura, mais profunda, não atravanque o andamento da narrativa, que mantém o ritmo e a tensão o tempo todo. Por isso mesmo, soam excessivas as (poucas) notas de rodapé que problematizam a criação. Luz redundante sobre o que já está claro.

“Passo a passo, é possível contar a história, embora seja impossível, no final, compreendê-la”, avisa o autor já no primeiro capítulo. “O todo raramente corresponde à soma das partes”, complementa. Andrés Bosco quer descobrir o responsável pelos homicídios, encontrar a explicação, uma verdade apaziguadora. Qualquer que seja. E Tordo, embora delineie um relato cronológico e ordenado, acena para a impossibilidade. Como se lembrasse que a ficção guarda um veneno que corrói as certezas. É uma alquimia que transforma respostas em novas perguntas, moto-contínuo.

Marcelo Moutinho é escritor e jornalista, autor de “A palavra ausente” (Rocco).

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