“Toscana da melhor qualidade”

Texto de Julián Ana sobre Cantos do mundo, de Evando Nascimento. Publicado no jornal Rascunho:

Tenho medo de ler livros escritos por professores universitários. O miasma dos artigos escritos para revistas que ninguém vai ler povoa a literatura de muitos. É que os tais têm o imaginário poluído por artifícios eruditos, aquela moedinha acadêmica que serve para ostentar bolsos vazios de outros capitais. Podem dizer que é inveja de crítico, que alguém que foi professor e universitário — e hoje recebe aquela aposentadoria — critica aquilo que não sabe fazer, escondendo-se como um cão medroso atrás do latido. Já falei que meu negócio são porcos e por isso arranjem metáfora melhor quando quiserem me criticar. Posso também eu dizer que criticar um crítico é a petulância dos pobres invejosos de críticos. Por este argumento ninguém esperava!

Bem, mas hoje vou falar do belíssimo livro do mui acadêmico Evando Nascimento e não precisarei de muitos esforços para mostrar que se trata de um grande livro de grandes pequenos textos. Antes, porém, tenho que apresentar algumas reflexões.

Quando eu era estudante, chamávamos de acadêmicos os caretas, e de vanguardistas, os progressistas. Para ser progressista havia três quesitos básicos: 1) fumar marijuana; 2) fazer sexo com todo mundo; 3) não ter conta em banco. Ideologia era um revestimento estético para a maioria deles: deu no que deu. Ah, claro, era preciso também não tomar banho, mas isso atrapalharia a trina arrumação que acabei de fazer e por isso a deixo de fora.

Muito tempo depois é que fui me dar conta de que os caretas eram muito parecidos com os progressistas, sobretudo neste quesito extraordinário do “não tomar banho”. Pode parecer que os primeiros disfarçassem o que os últimos não tinham vergonha em mostrar, mas não é bem assim. Marijuana poderia ser boa pra todos, mas os caretas preferem até hoje café e cocaína. E, na verdade, ambos gostam de conta em banco, mas os progressistas precisam do apoio dos pais, um marido ou uma mulher rica, um bom samaritano capaz de sustentá-lo. Todos são crianças, e os caretas, aqueles que, contentes com seu cofrinho, querem juntar moedinhas para ter cada vez mais moedinhas.

Eu fiquei no meio termo: troquei a marijuana por fumo de rolo que a minha aposentadoria de mierda deste gobierno de mierda (Por favor, não traduza o itálico) e os cofrinhos de plástico por uma pocilga inteira de sublimes Pietrains lindos até a formosura.

Notem que deixei para falar por último do sexo para explicar porque me encontro na virtude do meio termo entre caretas e progressistas, ou seja, entre artistas e acadêmicos e outros corporativistas. Porque não apenas não fiz sexo com todo mundo como com quase ninguém. As senhoras que encontrei pela vida afora me trouxeram muita dor. Cheguei a criar a teoria dos três Cs da dor de amor: dor de Coração, de Cotovelo e de Corno que progridem até a morte do amante, pelo menos aqui na Argentina. Sempre preferi o amor ao sexo, do qual até hoje tenho um pouco de medo, pois é coisa que dá muito trabalho, ainda mais na minha idade. Falo sobre esse tema indigesto porque a vantagem da velhice é não precisar mais se ocupar com isso e sobretudo poder dizê-lo assim sem ter vergonha de não fazer e não ter feito. Escapo assim, pela confissão, daquele tipo de teórico ou escritor escreve-mas-não-faz. Fico com muita pena daquilo que se pode realizar pela linguagem enquanto a língua situada dentro da boca não chega perto há muito tempo do objeto sobre o qual versa.

Mas voltando ao que importa (que estas teorias do sexo enchem muita lingüiça, como se diz no Brasil), devo dizer que fiquei mesmo no meio termo, pois que tomei banho quase todos os dias devido às exigentes namoradas brasileiras que me usaram como um vestido novo e depois me deixaram neste estado de farrapo. Agora não tomo mais banho e me entendo com o pessoal da pocilga com quem traço planos de vida em comum.

Finalmente, o livro
Calma, calma, querido leitor, que já chego ao livro de Evando. Dei-me conta de que a parte mais feliz de minha vida foi tecida com a leitura de bons livros. Por isso, tenho lido para os meus porcos ali na beira da pocilga, todo dia de manhã enquanto eu e Noe os alimentamos. Um detalhe que não devo omitir é que pedi ao heróico editor do igualmente heróico Rascunho que me enviasse alguma coisa boa de ler, pois que estou muito velho para perder qualquer um dos meus dias contados (aliás, qualquer dia editarei o ranking dos melhores escritores brasileiros e colocarei no topo Rodrigo de Souza Leão com o belíssimo Me roubaram uns dias contados) com coisas que não me dêem prazeres sublimes.

Assim, eis que um dia me chega um livro de capa singela com um título desconfiante: Cantos do mundo, de um certo Evando Nascimento de quem eu nunca tinha ouvido falar. Nem abri. Passaram-se uns dias e, arrumando a estante com dona Eneida, dei de cara com três outros títulos do escritor: um sobre Clarice, outro sobre Derrida que folheei amedrontado com a quantidade de notas e citações em francês. Não que eu não goste, mas arrepiei. Comecei até a escrever uma carta desaforada ao Pereira que guardei na gaveta pensando naquele momento em que poderei aproveitá-la. Eu a teria rasgado se não tivesse ficado tão bem escrita. Em mim, sempre é o escritor frustrado que escreve cartas de desabafo (já enviei a alguns malcriados escritores brasileiros e raramente recebi resposta. Mas cada um dá o que tem).

Antes que eu deixe passar, havia um terceiro título, o Retrato desnatural (diários 2004 a 2007). Fiquei perplexo com a estrutura da obra, assim toda ela feita de restos, de recortes, de retalhos e, ainda assim, toda bem posta em sua desnatural organização. Fosse uma lingüiça seria a toscana da melhor qualidade. Aqui em casa não permito que mais ninguém sequer pense em lingüiças, mas este livro talvez me faça rever este meu posicionamento.

Tomando o chá de macela preparado por dona Eneida com as flores colhidas numa manhã fria de quaresma, sentei-me à janela que permite a vista da pocilga sombreada pelas corticeiras e amarilhos que se estendem até o jardim onde begônias, dálias e lisiantos florescem no verão, e deixei-me levar pela leitura de Cantos do mundo. Verdade que cheguei a imaginar tudo em flor, mas só o que realmente florescia eram jacarandás-mimosos com as flores violáceas que, ameaçados de extinção, deram de florescer fora de época. Percebo que isso tem acontecido com as plantas em geral, florescem em épocas indevidas. Noe diz-me que é o aquecimento global, mas ele vê a vida com base em teorias conspiratórias. Não vejo nada de mais na pressa das florzinhas. Meus porcos não deram sinal algum de atraso ou antecipação em seu desenvolvimento. No meu mundo porcino está tudo em seu devido lugar.

Também estão em seu devido lugar os contos de Cantos do mundo. Ao todo, 19, divididos em três partes: Climas, paisagens; Bestiário; Cantos do mundo. Não preciso classificá-los porque já o estão. Posso então dedicar-me aos finos traços que os compõem, às frases bem-feitas, às ações bem refletidas, aos fatos bem desenhados. Deixe-me falar um pouco de cada conto. Havendo tantos contos e pouco espaço, escrever sobre um deles ou poucos seria perfeito, mas temo que me faria perder a visão do livro que, como uma pocilga, não é feito apenas de um porco, de uma cerca ou de um bom cocho. Eu diria até que com esta estrutura toda arrumada e, no entanto, nada óbvia, este livro me inspirou.

Mas vejam: o conto que abre o livro intitula-se Para Elisa. Fala de uma menina masculina e uma passagem violenta à feminilidade. Pensei que não deve ser fácil tornar-se mulher como dizia a Beauvoir que li quando garoto na onda dos pendores progressistas. Segue-se a ele a narrativa de um peixe dentro do aquário, com o qual eu identifico a metafísica da pocilga que um dia irei sistematizar em detalhes. Depois, um homem que leiloa sua própria vida, e um outro que vive o dia de seu homicídio. Contos fortes, pungentes que capturarão cada leitor pelo cangote do eu. Na seqüência, o conto Mata narra a história de um menino que se diz “analfabeto florestal” e que descreve sua própria perdição no desconhecido. Por fim, a história de um amor fugidio num encontro furtivo em um antiquário nos dá a medida de um erotismo masculino, que a esta altura do campeonato da vida, eu passo. Esta é a parte mais filosófica do livro, todo ele filosófico, borgeano, kafkiano e certamente influenciado pela linha de Clarice que o autor tão bem conhece.

A segunda parte é o trecho com que mais me identifico, como os leitores poderão supor. O primeiro conto na parte do Bestiário traz um desabafo de ninguém menos do que Deus, um sujeito em crise, arrependido da criação em cujo jogo ele se mostra viciado. Melhor do que toda a metafísica de Leibniz, parece que finalmente alguém entendeu a ironia de Deus. No conto seguinte, outra espécie de Deus, um ídolo pop, confessa seus desgostos antes de um show que começa e mais ou menos termina… É sua “hora da estrela”… Em seguida, um conto chamado Edens reconta o Gênese bíblico fazendo dele uma narrativa hippie. Os temas religiosos e irônicos dão lugar a certo clima fantástico: em O oco, uma casa sustentada sobre um gigantesco buraco; Na sepultura, um homem conta sua “fraca filosofia da decomposição”. Esta segunda parte — e daí a minha identificação e enlevo radical e narcísico com o texto — culmina no igualmente irônico Políptico animal, dividido em 13 partes, histórias de animais humanos e de humanos animais em um espelhamento elucidativo que entrelaça coisas como zoológico e turismo em favelas na grande comédia do homo-animal contemporâneo.

Em Arquipélago, que fecha o grupo de textos, uma experimentação lingüística um pouco mais direta nos faz dar voltas em um brinquedo formal raríssimo em que o começo está no fim e o fim no começo. O resto é segredo.

Por fim, Cantos do mundo faz pensar que a principal maravilha da ficção é completar a realidade: Candomblé Lisboa narra o inóspito encontro entre a tradição brasileira e as origens lusitanas; O dia em que Walter Benjamin daria aulas na USP — que poderia ser o momento de enfado do livro — é uma linda carta que teria mudado o destino da academia brasileira. Grua recria o clima kafkiano de O oco. Obsessão mostra que Pigmalião pode estar em qualquer lugar. Bem como o desejo que sobrevive À espera. Os contos são carregados de sutileza e desconcerto, num balanço que, para a sorte do leitor, não se equilibra matematicamente. E aquela ironia que desabrocha para quem é por ela eleito fecha o livro permitindo-nos rir de nós mesmos: “E se comêssemos o piloto?”. Quando a epígrafe é “Só a Antropofagia nos une”, significa que é preciso relê-lo.

Temos um livro aí com boas histórias, bem contadas e bem escritas, porque como disse o fotógrafo Cartier-Bresson, quando já em idade avançada deixou a fotografia e passou a desenhar, “o importante é desenhar bem”. Eu, que estou velho e crio os meus porcos, digo que o importante é escrever bem.

TRADUÇÃO: José Carlos Zamora

JULIÁN ANAÉ crítico literário. Nasceu em Hormiguero, Argentina, em 1941. Foi professor visitante em várias universidades dos países de língua portuguesa, inclusive na Universidade de Coimbra onde doutorou-se em Literatura Comparada com uma tese sobre O Devir Histórico da Terminologia. Colaborou com diversas revistas e jornais. Aposentado, passou a residir em Las Heras e a dedicar-se especialmente à literatura brasileira contemporânea e à suinocultura.

 

 

 

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