“Ciclo de conferências reúne pensadores para debater o mundo sem utopias”

Matéria de Antonio Gonalves Filho publicada no site do Estadão:

Basta passar os olhos pelas páginas dos jornais para constatar que estamos diante de uma mutação antropológica. O descontrole da biotecnologia, a predominância do espírito bélico e a militarização da sociedade, o consumo elevado a um patamar patológico e drásticas mudanças culturais provocadas pela globalização certamente contribuíram para a criação de um novo ser que deve mudar o futuro da forma que o imaginávamos. Foi pensando nisso que o filósofo Adauto Novaes propôs a 24 intelectuais – brasileiros e estrangeiros – que refletissem sobre o tema O Futuro Não É Mais o Que Era. Há três meses, reunidos em Tiradentes, Minas Gerais, eles participaram de um brainstorm de nove horas de duração para imaginar como seria o futuro.

Desse caldeirão saíram ideias que apontam para a estrada da distopia e rendem agora um seminário, que o Sesc Vila Mariana abriga a partir do dia 16 de agosto (e o Museu de Arte Moderna do Rio, a partir do dia 20). O professor de História da Arte Jorge Coli, por exemplo, acha que “atravessamos uma fase conservadora e acomodada”, apesar da explosão da pornografia na internet. Quais serão as consequências futuras? Uma sexualidade mais livre ou mais perversa? O filósofo Jean-Pierre Dupuy concluiu que “vivemos agora sob a sombra de catástrofes futuras”. Elas talvez venham a provocar o desaparecimento da espécie, segundo o pensador francês. De nossa civilização, “a única da História que não se orienta por nenhum valor transcendente”, como assina a filósofa Olgária Matos, talvez não sobre mesmo nenhum vestígio. De qualquer modo, o futuro ainda não chegou e vale discutir sobre ele.

O seminário Mutações: O Futuro Não É Mais o Que Era terá 24 palestras de grandes nomes do cenário nacional e internacional. Entre os convidados do encontro, que segue até outubro, há veteranos como o cientista político e ex-ministro da Cultura Sérgio Paulo Rouanet, mas também representantes da nova geração, como o professor de Filosofia da Universidade de Paris-Nanterre, Elie During, que vai falar sobre o “retrofuturismo”, fenômeno que marca o cinema, a arte, a moda e, especialmente, a literatura desde que William Gibson e Bruce Sterling (em The Difference Engine, publicado nos anos 1990) criaram o termo “steampunk” para afirmar que o computador foi inventado na era vitoriana, cruzando o motor a vapor e a calculadora de Babbage. During vai analisar como o retrofuturismo está, na verdade, nos falando do presente retroprojetado.

“O retrofuturismo é um dos grandes problemas que surgem com o fim das utopias”, observa o organizador do seminário Adauto Novaes, que há oito anos realiza em parceria com o Sesc o ciclo de conferênciasMutações, dedicado a investigações filosóficas sobre o século em que vivemos. O último foi realizado no ano passado e adotava como guia o pensamento do suprematista russo Malevitch, que considerava a preguiça superior ao trabalho, isso há um século, antes que todos trabalhassem mais que o necessário nos dias que correm. Elogio à Preguiça, o livro com as conclusões do ciclo (que tem basicamente os mesmos participantes deste seminário), será lançado no dia de abertura do seminário O Futuro Não É Mais o Que Era.

O título, revela Novaes, lhe foi sugerido pela leitura do poeta simbolista francês Paul Valéry (1871-1945). Ao dizer que o devir não é mais o que era, o autor de L’Ange, segundo o organizador do ciclo, “estava apenas reconhecendo que as imagens que tínhamos do futuro perderam sentido”. Assim, para responder à pergunta “para onde vamos?”, o ciclo convocou pensadores capazes de falar sobre a natureza do tempo, investigar as mitologias criadas sobre ele e mostrar como a tecnociência, a biotecnologia e a informática fizeram os videntes abdicar do posto de oráculos. O físico Luís Alberto Oliveira, doutor em cosmologia, até por isso, vai abordar em sua conferência desde a teoria da relatividade de Einstein até a literatura de Jorge Luis Borges, para tratar justamente da identificação que seres como nós temos com o tempo a ponto de criar com ele uma relação simbiótica (o escritor argentino costumava dizer que o tempo é a substância da qual era feito).

Certo é que, a exemplo do anjo de Valéry, talvez entremos no futuro de costas, vendo apenas catástrofes e ruínas, lembra Novaes, que não se mostra tão pessimista em relação a ele. Lamenta, sim, que “o espírito tenha se tornado uma coisa supérflua” em nossa era tecnológica. Se o tempo é ficção, diz o organizador, não pensar sobre ele seria uma tragédia real. Há quem deva propor, inclusive, um insólita tarefa aos participantes, como o editor póstumo de Gilles Deleuze, o doutor em teoria da literatura David Lapoujade, outro dos participantes do ciclo. Para ele, ainda dá tempo de desprogramar o futuro, alternativa do novo tipo de totalitarismo que se anuncia no horizonte da sociedade do espetáculo e do consumo.

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