“Elvia Bezerra é a mulher à frente da reserva técnica literária do Instituto Moreira Salles”

Matéria de Leonardo Aversa. Extraída do site d’O Globo:

RIO – Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) tinha como passatempo a caricatura. Fez algumas de Lygia Fagundes Telles. Rachel de Queiroz (1910-2003) gostava de colecionar santinhos de primeira comunhão e santinhos de morte. Acumulava caixas deles. Paulo Autran (1922-2007) guardava com esmero todas as entrevistas que concedia. E Clarice Lispector (1920-1977) — sabe-se lá se motivada por uma paixão ou pela rotineira vontade de testar a cor de um batom — deixou para a posteridade um guardanapo em que se vê sua boca gravada em vermelho.Desde 2009, a cearense Elvia Bezerra coordena e pinça raridades como essas nas centenas de caixas de cartão que compõem os 28 acervos reunidos na Reserva Técnica Literária do Instituto Moreira Salles (IMS), na Gávea.

Frequentadora dos ‘Sabadoyles’

Com 1,60 metro de altura e um olhar que nunca desprega de seu interlocutor, Elvia repete várias vezes que “sente um prazer danado” em ser a guardiã de boa parte da produção literária e de um verdadeiro arsenal de memorabilia referente a alguns dos maiores ícones da literatura brasileira. Fica tão confortável quando convidada a falar de seus protegidos que deixa vazar para o discurso uma intimidade ímpar:

— Hoje em dia eu cuido do Otto (Lara Resende), do (Carlos) Drummond, do Paulo (Mendes Campos), da Rachel (de Queiroz), do (Erico) Verissimo, do Mario (Quintana), do Francisco (Iglesias) e de muitos outros. É um trabalho lento, meticuloso, mas muito gostoso.

Em sua rotina profissional, o frio é uma constante. Pelo bem-estar do acervo que já lota a reserva técnica do IMS, conserva-se a temperatura do local a 19 graus centígrados. E todas as pessoas que circulam por suas estantes deslizantes e pretendem manusear as caixas de PH neutro que se sobrepõem devem usar luvas cirúrgicas.

No início de julho, Elvia falava com orgulho de seu mais recente achado: uma carta de 1945 em que Paulo Mendes Campos, então recém-chegado ao Rio, discorre sobre a solidão ao amigo Otto Lara Resende:

— É um texto sem a informalidade e o coloquialismo que marcaram a correspondência dos dois. Paulo mostra um nítido interesse pela literatura e ainda encerra o texto com um poema.

O IMS considerou o texto tão importante que decidiu encaderná-lo no libreto “Carta a Otto ou um coração em agosto” e distribuí-lo durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Elvia sorria ao falar disso.

Nascida em 1947 na pequena cidade de Mombaça, no sertão do Ceará, Elvia é a primogênita de uma família de quatro filhos e a única que, até os 12 anos, só estudou em casa.

Em 1959, por sugestão dos pais, foi passar férias em Fortaleza. Hospedou-se na mansão de um juiz amigo da família e, estimulada pela esposa dele, agarrou-se a um livro da antiga quarta série e resolveu todos os exercícios ao longo do verão. No fim da temporada, submeteu-se à seleção do Colégio Imaculada Conceição e entrou direto na antiga quinta série. Até acabar o ensino médio, morou longe dos pais — descaroçadores de algodão — e aprendeu a conviver com a “eterna saudade”.

Em 1972, já com um diploma de Letras Português-Inglês carimbado pela Universidade Federal do Ceará, mudou-se para o Rio. Apaixonada por William Shakespeare (sobre quem ainda é capaz de discursar horas a fio), matriculou-se num mestrado em Literatura Inglesa e, em pouco tempo, casou-se com o professor.

— O Rio era a central dos hippies… Eu vinha do Ceará, onde os professores ainda davam aula de terno! Claro que me apaixonei por aquele que usava boca de sino, né? — conta a pesquisadora, omitindo a todo custo o nome do atual ex-marido.

Para pagar as contas durante a juventude, Elvia dava aulas particulares de inglês, e foi graças a isso que se encantou com a literatura brasileira.

— Um dia, um aluno veio me dizer, todo acanhado, que não tinha dinheiro para me pagar. Em troca, me deu um exemplar da primeira edição da obra completa de Manuel Bandeira em prosa. Esse contato com Bandeira foi tão avassalador que até hoje carrego na bolsa pelo menos um livrinho dele. Bandeira vai comigo aonde quer que eu vá.

Seguindo instruções da psiquiatra Nise da Silveira, de quem foi datilógrafa e assistente voluntária por muitos anos, em 1995 Elvia publicou o livro “A trinca do Curvelo” (Topbooks). O assunto? Manuel Bandeira.

— Dediquei alguns anos da minha vida a reconstituir a vida dele em Santa Teresa, bairro onde moro e onde ele morou entre 1920 e 1933 — lembra. — Desse tempo, guardo cartas inéditas que ele escreveu para uma amiga e um maravilhoso santinho que era dele.

Quem visita a casa de Elvia encontra na estante de seu escritório uma figura de São Manuel talhada em aproximadamente 20 centímetros de madeira. E ela explica:

— Ele foi torturado e morto com um cravo de ferro espetado em cada lado do peito e outro atravessado na cabeça por não querer abandonar o cristianismo durante o império de Juliano.

Com “A trinca do Curvelo”, a pesquisadora de Mombaça entrou na alta roda cultural dos cariocas. Passou a frequentar os chamados “Sabadoyles”, encontros literários que aconteciam na casa do advogado e bibliófilo Plínio Doyle, e a se aproximar de escritores como Alexei Bueno e Antônio Carlos Secchin. Foi num dos réveillons organizados por este que conheceu o professor e poeta Eucanaã Ferraz, que a levou para o IMS.

Colega de Elvia no instituto, o editor da revista “serrote”, Paulo Roberto Pires, destaca seu cuidado com detalhes:

— Elvia é apaixonada pela pesquisa de miudezas que, na verdade, fazem toda a diferença. É rigorosa no detalhe sem abrir mão da leveza do estilo. Sente um prazer imenso em lidar com esses fragmentos de vida existentes nas cartas, nos manuscritos e, é claro, nas bibliotecas. É íntima de Clarice, Otto, Paulo e Rachel. O fato de não tê-los conhecido é irrelevante: ela os tem como amigos.

Apesar de ser a guardiã das sete mil cartas de Otto Lara Resende, dos únicos manuscritos de Clarice (“A hora da estrela”, de 1977, e “Um sopro de vida”, de 1978), do caderno em que Erico Verissimo esboçou seu último romance (que não chegou a definir se se chamaria “A hora do sétimo anjo”, “O dia do sétimo anjo” ou “A vez do sétimo anjo”) e de uma enormidade de artigos ainda desconhecidos, Elvia gosta mesmo é de destacar pequenas coisas de sua vida. Diz ser boa cozinheira e lembra que fez dezenas de verbetes na enciclopédia “Barsa”.

— Quase todo o S é meu! — ri alto. — Em Jovem Guarda, lutei para que fosse posta ao lado do Tremendão (Erasmo Carlos) uma referência à Ternurinha (Wanderléia). Como não? Mas meu auge foi mesmo com Bandeira. É de minha lavra a definição de Pasárgada!

Cruzamento de cartas

Nos próximos meses, Elvia conclui seu mais ambicioso projeto dentro do IMS desde a publicação de “Mandacaru”, livro em que reuniu poemas de Rachel de Queiroz anteriores ao romance “O quinze”.

— Já terminei o cruzamento das cartas de Otto Lara para Helio Pellegrino e vice-versa, e estou terminando o cruzamento das de Otto Lara para Paulo Mendes. Se o instituto quiser, poderemos lançar dois livros: um com umas 400 páginas e outro com mais de cem. Assim, teríamos as cartas dos quatro “cavaleiros do Apocalipse” trabalhadas (Recentemente, Humberto Werneck organizou o cruzamento das cartas de Otto Lara para Fernando Sabino e vice-versa).

Durante a pesquisa, Elvia descobriu (mais) uma curiosidade. Achou no acervo de Otto uma charge assinada por Millôr Fernandes. Na charge, aparece um noivo usando um terno fino.

— Conversando com a viúva de Otto dias depois de dar de cara com essa charge, entendi tudo: Otto casou usando um terno do Millôr.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/elvia-bezerra-a-mulher-frente-da-reserva-tecnica-literaria-do-instituto-moreira-salles-5542105#ixzz21JopXP3V
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