“Meu pai, o africano” – sobre “O africano”, de Le Clézio

Reproduzido do blog da editora Cosac & Naify:

Texto de Gérard de Cortanze publicado na Magazine Littéraire de abril de 2004.

“Tenho a impressão de que só fiz uma viagem na vida: essa”, me disse certa vez J.M.G.Le Clézio. Mas que viagem é essa? Foi a que ele fez em 1948, aos oito anos, por vários meses, ao longo da costa do Níger. Com O africano, escrito em dois meses, mas que se baseia em toda uma vida, ele percorre novamente esse périplo fundador. Ao buscar seu pai, ele encontrou a África.

Em Ogoja, cidade situada no centro de um território que já foi conhecido como Biafra, o menino branco de Nice é confrontado com tempestades como nunca sonhou, ventos tão poderosos que dobram árvores gigantescas, uma violência “real, às claras”*, a violência “das sensações, dos apetites, das estações.”

Nessa África ocidental, isolada de tudo, ele descobre a falta de pudor magnífica dos corpos, ruídos e perfumes até então desconhecidos, uma liberdade tão louca quanto excessiva. “A chegada à África, para mim, foi o ingresso na antecâmera do mundo adulto”, ele escreve, e continua: “é à África que quero sempre voltar, à minha memória de infância. Ela é a fonte de meus sentimentos e convicções”. “Para mim, a vida se divide em antes e depois da África”.

A este primeiro choque se soma um outro: a descoberta de um pai que ele nunca tinha visto. A chegada ao porto Harcourt se dá debaixo de chuva forte. A primeira coisa que lhe chama a atenção naquele homem em capa de chuva são os “óculos antigos, cujas lentes brilham sob o aguaceiro, e o sotaque estranho.” O jovem Jean-Marie Gustave o vê imediatamente como um estrangeiro, “possivelmente perigoso”, cuja autoridade se colocava como um obstáculo.

O segredo deste livro está em que, ao reconhecer enfim esse pai mauriciano vindo de Londres, Le Clézio fecha o ciclo e revela que O africano é, na verdade, ele mesmo

Era um homem sofrido. Com a família expulsa da casa onde nasceu, foi obrigado a deixar a ilha Maurício aos 30 anos, em 1919. Nunca mais conseguiu ser como os outros, pois “não tinha pátria nem casa”. Depois de dois anos na Guiana Inglesa, como médico itinerante nos rios, ele parte para a África, onde passa a fazer de tudo, “do parto à autópsia”. Aos quase 60 anos, torna-se um homem derrubado, prematuramente envelhecido, irritadiço, excluído do mundo, desenganado, exilado para sempre de Maurício, o país inacessível…e que de vez em quando tira fotos preto e branco com sua Leica, as quais guarda como lembrança. Algumas delas são reproduzidas nesse livro.

A imagem do pai atravessa toda a obra de Le Clézio (…) como se o autor de Refrão da fome e Pawana tentasse aproximar-se dele através da escrita. Uma aproximação impossível, que não se dá em 1948. Ele não consegue entender seu pai. É alguém muito diferente da família com a qual convivia intimamente. Mais que isso, como ele mesmo reconhece, seu pai era “quase um inimigo”.

Apesar de todo esse sofrimento, Ogoja permanece como um tesouro secreto na memória do romancista, um passado luminoso que ele não quer perder de vista, e esse livro é uma tentativa de reconciliação com seu pai. Ambos amaram a África no que ela tem de semelhante com Maurício: a terra vermelha, o vento marítimo, os mesmo rostos, risadas, a mesma despreocupação. Assim como Cuba trazia a Hemingway as lembranças da infância, quando pescava com o pai no lago Michigan, Ogoja representa para Le Clézio um reencontro com um tempo perdido. (…) O segredo deste livro está em que, ao reconhecer enfim esse pai mauriciano vindo de Londres, J.M.G.Le Clézio fecha o ciclo e revela que O africano é, na verdade, ele mesmo.

Tradução livre de Daniel Benevides

* No original está “violência secreta” e, no entanto, Le Clézio diz exatamente o oposto no livro. Daí que o tradutor tomou a liberdade de “corrigir” o que certamente foi uma distração do autor desse artigo, de resto excelente.

 

 

 

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