“A Grécia e a Europa” – Mario Vargas Llosa

O artigo de Mario Vargas Llosa foi publicado no jornal O Estado de S. Paulo, a 10 de junho de 2012, com tradução de Carlos Augusto Calil [via Conteúdo Livre]:

Naquela cena, ocorrida anos atrás, indicaram-me a cadeira ao lado de uma senhora de idade que cobria os olhos com grandes óculos escuros. Era amável, elegante, falava um francês primoroso e, apesar dos grandes esforços para dissimulá-lo, em tudo aquilo que dizia e opinava transparecia sua vasta cultura. Foi somente na metade do encontro que reparei, pela grande precaução dela no manejo dos óculos, que era cega ou, na melhor das hipóteses, tinha uma visão limitada. Depois de nos despedirmos, averiguei que Jacqueline de Romilly era uma grande helenista, catedrática de grego clássico na École Normale e em Sorbonne, primeira mulher a ser eleita membro do Colégio da França e uma das poucas representantes do gênero feminino na Academia Francesa.

O primeiro livro de autoria dela que li, Pourquoi la Grèce?, me deslumbrou tanto quanto sua pessoa. Por mais que aquilo que ela diga e conte no livro tenha ocorrido há 25 séculos, sua atualidade é tão extraordinária que a leitura da obra deveria ser obrigatória hoje.

O livro passa em revista o milagroso século 5 antes da nossa era, no qual a história, a filosofia, a tragédia, a política, a retórica, a medicina e a escultura alcançam na Grécia seu apogeu, assentando as bases daquilo que, com o tempo, passaríamos a chamar de cultura ocidental.

Homero e Hesíodo são muito anteriores ao século 5 a.C. e há muitos artistas, pensadores e autores de comédias posteriores a esse marco temporal. O ensaio não hesita em retroceder ou avançar para incluí-los no legado grego, ainda que a maior parte daquilo que é chamado de “visita guiada através dos textos” se concentre nesse pequeno período de cem anos no qual o reduzido espaço do mundo helênico vive uma espécie de eclosão frenética, enlouquecida, de criatividade em todos os domínios do espírito, com ideias, modelos estéticos, padrões intelectuais, invenções e descobrimentos, graças aos quais a civilização do logos se distanciaria decisivamente de todas as demais culturas do passado e de sua época e, sem ter tal intenção nem tal consciência, transformaria para sempre a história do mundo.

Desenvolvimento. Jacqueline de Romilly mostra que na Grécia nasceram, ou ganharam uma realidade e um dinamismo nunca antes observado na vida social de povo nenhum, os fatores determinantes do progresso humano, como a democracia, a liberdade, o direito, a razão e a arte emancipados da religião, as ideias de igualdade, de soberania individual, de cidadania, e uma maneira absolutamente nova de relacionamento entre o homem e o além, e os deuses, bem como uma ideia de beleza e fealdade, de bondade e maldade, de felicidade e infortúnio que, apesar dos inevitáveis matizes e adaptações que lhes foram impostos pela história, seguem vigentes.

Ficamos maravilhados ao ver que um povo tão pequeno e tão pouco coeso politicamente, cheio de numerosas cidades e colônias distribuídas pela Europa e a Ásia Menor, que conservavam entre si uma imensa margem de autonomia, um povo tão instintivamente reticente em formar um império, em praticar o imperialismo e em submeter-se à prepotência de um tirano tenha sido capaz de deixar na história da humanidade uma marca tão profunda. Isso não foi um acidente nem obra do acaso. Houve razões para esse desenvolvimento e o livro de Jacqueline as faz desfilar diante de nossos olhos. Além de uma maneira de filosofar, explica ela, os diálogos socráticos e platônicos ensinaram aos seres humanos que conversar, falar em grupo, é uma maneira mais civilizada e ética de conviver do que dar ordens e obedecê-las, uma forma de comunicação que reconhece ou estabelece desde o início uma igualdade elementar. Assim foi surgindo a liberdade, domando o lado animal do ser humano e permitindo o nascimento de sua verdadeira humanidade.

Em Pourquoi la Grèce?, essa demonstração não aparece como um discurso abstrato, e sim por meio de comentários e citações literárias, porque, como sua autora não se cansa de repetir, tudo aquilo que constitui uma cultura clássica está essencialmente representado nas suas obras literárias, e a verdadeira crítica é aquela que examina a poesia, a narrativa, o teatro, os ensaios que uma sociedade produz na busca das verdades recônditas que alimentam sua imaginação e impregnam as aventuras e os personagens aos quais seus artistas deram vida para aplacar a sede do absoluto, de viver outras vidas, de seus povos.

É verdade que a Grécia de nossos dias é muito diferente. Nos 25 séculos transcorridos desde então seu povo vivenciou mais infortúnios e catástrofes do que a maioria dos demais: guerras externas e internas, ocupações, tiranias e segregações que várias vezes ameaçaram desintegrá-la.

Li no International Herald Tribune uma chocante descrição do estado da economia do país, dos grotescos privilégios desfrutados durante todos esses anos pelos seus armadores, banqueiros e empresários mais prósperos, enquanto o povo grego segue empobrecendo.

Diante desse panorama, o surpreendente não deveria ser o fato de muitos gregos terem votado em nazistas e extremistas de esquerda nas últimas eleições, e sim que ainda haja um número tão grande de gregos que creem na democracia, e também que as pesquisas de opinião para a próxima votação indiquem que os partidos de centro-esquerda, centro e centro-direita, que defendem a opção europeia, possam obter uma maioria e formar o novo governo.

Torço para que assim seja, porque, simplesmente, a Grécia não pode deixar de formar uma parte integral da Europa sem que esta se converta numa caricatura grotesca de si mesma, condenada ao mais retumbante fracasso.

A Europa nasceu ali, no pé da Acrópole, 25 séculos atrás, e tudo que ela tem de melhor, aquilo que ela mais aprecia e admira em si mesma, assim como as instituições democráticas, a liberdade e os direitos humanos têm sua distante raiz nesse pequeno rincão do velho continente, às margens do Egeu, onde a luz do sol é mais potente e o mar é mais azul.

A Grécia é o símbolo da Europa e os símbolos não podem desaparecer sem que aquilo que eles encarnam desmorone e se desfaça nessa confusão bárbara de irracionalidade e violência da qual a civilização grega nos tirou.

1 comentário

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Uma resposta para ““A Grécia e a Europa” – Mario Vargas Llosa

  1. Perfeito. No século XIX, não era considerado intelectual ou cientista quem desconhecesse os idiomas grego e latim. O primeiro a desaparecer nos ginásios foi o grego e nos dias atuais o latim, aqui no Brasil. Sem raízes, como podemos nos considerar herdeiros dessa cultura seminal? Durante os últimos 4 séculos a Grécia foi ocupado pelos turcos otomanos que tudo fizeram para destruir o passado do país, inclusive bombardeando o templo de Atena, na Acrópole. O cristianismo fez a sua parte de destruição jogando ao mar as imagens magnificas dos deuses gregos, como hoje fazem novamente os evangélicos. A imensa literatura e filosofia só chegou até a Europa medieval graças às traduções a partir do árabe que ocupavam a Espanha. Foi graças a eles que tomamos conhecimento de Platão. O povo que lá está agora, tem mais sangue turco, que macedônico. Mas os poucos restantes, ainda gregos de origem, tudo fazem para reerguer sua civilização, que agora ameça submergir nas águas do comunismo. Sobreviverá?

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