“Porque amei ‘L’Apollonide'”

Reproduzo texto de Ana Beatriz sobre o filme L’Apollonide:

PORQUE AMEI “L’ APOLLONIDE: OS AMORES DA CASA DE TOLERÂNCIA”, E RECOMENDO:
“L’apollonide: os amores da casa de tolerância” narra o drama pessoal de 12 prostituas na virada do século XIX para o XX, em Paris. A trama narrativa tecida por várias camadas discursivas têm como principais fios, o drama pessoal de cada prostituta (que não é inflado, mas apega-se a detalhes) e as vozes dos clientes que frequentam a casa, aristocratas, burgueses ricos e artistas. Todas as prostitutas são escravas (exceto a ninfeta misteriosa que entra no meio do filme), devem infinitamente para a cafetina que as mantêm em um delicado cárcere e sonham com o homem que comprará sua liberdade. Através dos clientes a trama é atravessada e permeada tanto pelos discursos constituintes desta sociedade na virada do século. Como pela visão idiossincrática referente ao momento de transição e a espécie de relação que estabelecia com a prostituta. A experiência do choque diante da modernização da cidade e todas as sutis diferenças implicadas por esta modernização na vida, em seu registro íntimo e público. A estabilização do discurso “médico”, “científico”, como detentor de um saber social. Neste filme aparecendo sob a forma de um estudo que justificava a prostituição fisiologicamente. Alegando que o diâmetro da cabeça de prostituas e ladrões é menor do que os das pessoas normais (listava uma série de sintomas decorrentes), demarcando territorialmente a margem como o lugar para as categorias estudadas.

Dos dramas pessoais de cada prostituta, a personagem Madeleine será a estrutura dorsal da narrativa erguida. No início do filme o rosto da personagem é fetichizado através de um elogio ao close, sucessões de longos closes. O filme está no final do século XIX. Em uma noite de festa Madeleine encontra o homem que frequenta e lhe conta o sonho que teve com ele, ele propõe um jogo. L’apollonide brinda os espectadores com uma gloriosa e cruel cena de sangue. Depois de amarrar as mãos de Madeleine na cabeceira da cama, o homem com quem teria comércio, corta com uma navalha o fim de cada bochecha até os cantos da boca. Ela se torna a mulher que ri, ou A judia. O filme chega ao século XX.

A judia vai para a área de serviço da casa. Cuidar das roupas, louças e cortar a carne crua. O eterno sorriso que as cicatrizes lhe deixaram, o excesso inscrito em seu rosto torna monstruosa sua presença. A Judia encarna o mal e a doença daquela casa que não podem ser revelados. O aluguel da casa aumenta. As dívidas da cafetina crescem. As noites passam a custar mais caro. Sífilis. As noites passam a ser especiais. Noites espaciais guardam espaço para atrações de circo. Um novo cliente passa a frequentar a Mulher que ri, só para olhá-la. O olhar do espectador é convidado a olhar o avesso do excesso, uma outra face do luxo. Enquanto monstro, a Mulher que ri servirá fartamente para as noites que vão até o fim e exalam o cheiro da morte. Uma carniça.

Madeleine, a Judia ou a Mulher que ri, antes de ter o rosto mutilado, conta um sonho ao mutilador. A lógica do sonho, do delírio, alinhava todo o filme demonstrando afinamento, criatividade e competência de todas as áreas técnicas. O filme narrativa e conceitualmente não se acanha diante do desconhecido, aposta no falso e elogia o fútil. No fim do sonho que Madeleine narra, ela conta ter chorado lágrimas de esperma. A imagem grotesca da mulher chorando lágrimas de esperma me fez pensar :”Meus olhos não acreditam no que estão vendo”. Isso só poderia ser feito no cinema. L’apollonide trabalhou a linguagem com uma ampla plasticidade. Lidou com sua suspensão e sua exacerbação. Fez um filme que foi uma festa! Baudelaire não poderia faltar. Mutilo o texto com uma frase do poeta: “Uma toilette completa vale um poema”.

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