“Mostra celebra o escultor Amilcar de Castro”

Matéria de Camila Molina publicada no site do Estadão:

O escultor mineiro Amilcar de Castro (1920-2002) orgulhava-se de ser o primeiro artista a ter dobrado o aço. “Ele dizia que depois disso, tudo havia se tornado fácil”, conta a galerista Marilia Razuk, que trabalhou por anos representando-o no mercado de arte. Agora, quando sua galeria comemora duas décadas de atividade em São Paulo, Marilia resolveu fazer uma homenagem a Amilcar exibindo uma preciosidade, a série completa de 140 pequenas esculturas que representam toda a pesquisa de corte e dobra que o escultor desenvolveu desde a década de 1960.

As diminutas formas em aço puro, na principal sala da exposição, condensam, numa mesma visada, a marca de um artista – “formas bidimensionais anônimas e fechadas em si mesmas (o retângulo, a circunferência), transformadas por uma ação. Uma ação que, rompendo a inércia da forma matriz, projeta-a para o tridimensional, transformando-a e a transformando o espaço ao redor”, tão bem definiu o historiador Tadeu Chiarelli no livro Amilcar de Castro – Corte e Dobra (Cosac Naify).

Essas obras do escultor conseguem ser diferentes em si, mas também revelarem um pensamento único. Cada peça, afinal, revela a complexidade e a leveza de tornar um plano quadrado, retangular ou circular em mais de uma centena de possibilidades. As formas que vemos diminutas originaram obras de outras escalas, inclusive, esculturas monumentais criadas para a esfera pública e abrigadas em localidades tão distintas como Londres ou a Praça da Sé, em São Paulo.

A série de 140 esculturas de corte e dobra, com altura que varia de 21 cm a 23 cm, pertence à família do artista. Amilcar de Castro fez uma edição de três exemplares desse conjunto, mas apenas este, agora na Galeria Marilia Razuk, foi preservado em sua totalidade, o que o torna raro. “Não tenho ainda uma estimativa de valor da série, mas garanto que não vai ser desmembrada”, diz a galerista, que depois de um hiato voltou, no fim do ano passado, a ser responsável pela comercialização das obras de Amilcar. O objetivo é de que a série seja adquirida por um museu de São Paulo. “É uma referência”, afirma Marilia.

O neoconcretista é referencial em muitos aspectos e foi mestre de uma geração de artistas. Volta e outra sua obra é comparada à do norte-americano Richard Serra – ambos se dedicaram a trabalhar com a solidez do metal em suas criações -, mas a diferença entre eles, como destacou Chiarelli em seu ensaio, é a relação afetiva que Amilcar conseguiu promover entre suas esculturas e o público. Serra fecha suas obras em si, diz o historiador, e o escultor mineiro “com uma chapa de ferro e um corte decidido” cria espaços de passagem, de abertura.

A singularidade de sua obra, acompanhada de sua consagração, vem atingindo o território internacional. Importante citar que no ano passado uma das mais poderosas galerias do mundo, a Gagosian, exibiu em Paris a mostra Brasil – Reinvenção do Moderno, com peças do escultor e de Sergio Camargo, Lygia Clark, Oiticica, Lygia Pape e Mira Schendel. Neste momento, a atual exposição de Amilcar na Galeria Marilia Razuk é uma oportunidade condensada de ver seu pensamento artístico, não apenas por meio da série completa de corte e dobra, como pela exibição de outras cinco esculturas em escala média e oito de seus desenhos.

Ainda como parte do aniversário da galeria, será inaugurada na próxima quinta-feira, em seu outro espaço na Rua Jerônimo da Veiga, no número 62, uma coletiva com curadoria do artista Claudio Cretti. Marilia Razuk ainda destaca em sua programação mostras, este ano, da artista mexicana Julieta Aranda e da colombiana Johanna Calle.

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