“Pra dizer adeus – Santuza Cambraia Naves (1952 – 2012)” – Fred Coelho

Texto de Fred Coelho sobre Santuza Cambraia Naves publicado no blog do IMS:

A mineira de Boa Esperança Santuza Cambraia Naves (1952 – 2012) contribuiu como poucos para o debate recente acerca da musica popular brasileira. Sua trajetória intelectual e profissional articulou pesquisa e ensino, investigação e formação. Suas aulas e textos, além de sua personalidade agregadora e produtiva legaram para todos nós uma série de caminhos e cabeças prontas para os novos tempos.

Antropóloga dedicada à pesquisa da música e da arte, foi fundadora do Núcleo de Estudos Musicais, cuja atuação durante quase dez anos no Centro de Estudos Sociais Aplicados (CESAP) da Universidade Candido Mendes resultou em livros, teses, arquivos e documentações fundamentais para uma série de pesquisadores nacionais e internacionais que se dedicam ao tema da MPB e da música popular em geral.

Santuza foi também professora na PUC desde 1994, onde ministrou dezenas de cursos marcantes para seus estudantes, tanto na graduação quanto na pós-graduação. Orientou diversas teses e dissertações, além de ser interlocutora de pesquisadores em campos diversos como Artes Visuais, História, Comunicação,  Literatura e Filosofia. Publicou livros importantes como, entre outros, O Violão Azul (1998), Da Bossa Nova à Tropicália (2001), A MPB em discussão (com Tatiana Bacal e Frederico Coelho, 2006) e o mais recente, Canção popular no Brasil (2010).

Os trabalhos de Santuza, vistos no seu conjunto, tinham algumas linhas fortes de interesse. Entre eles, a canção popular moderna feita no século XX brasileiro, o debate modernista acerca dessa canção (tema que, ao lado de nomes como José Miguel Wisnik, Carlos Sandroni e Elizabeth Travassos, deu contribuição decisiva), o diálogo entre o construtivismo brasileiro, a música popular e a música erudita, os embates e invenções ocorridos na transição entre a Bossa Nova e a Tropicália, a definição conceitual de uma canção crítica que emerge desse período de embates férteis para nossa música popular, e as novas formas musicais da virada dos séculos XX/XXI, com ênfase nas reapropriações que o rap e outros gêneros eletrônicos fizeram do nosso arquivo musical popular. Todos esses focos têm, sem dúvida alguma, como seu cerne, o seu chão, a canção brasileira em transformação permanente através de nossa história. Santuza era, antes de mais nada, uma amante da boa canção.

Suas análises elegantes, equilibradas, generosas, partiam da perspectiva antropológica, ofício que abraçou por fim em uma carreira cuja formação entre graduação e pós graduação percorreu os três campos de saber das Ciências Sociais. Ela era graduada em Ciência Política (UNB), Mestre em Antropologia (Museu Nacional) e Doutora em Sociologia (IUPERJ). A escolha definitiva pelo olhar etnográfico ficou definido pelo gosto das entrevistas, pelo incentivo permanente da necessidade do trabalho de campo, pela importância que dava à relativização crítica (nunca gratuita) dos valores culturais que circulam no debate sobre a música e o pensamento social brasileiro – outra área que Santuza se aprofundou a partir de suas pesquisas sobre o Modernismo, principalmente sobre o par Mário/Oswald de Andrade e sua contribuição para os temas do nosso tempo.

O pensamento e os temas trabalhados por Santuza são solares, pois nos apresentam o que de mais potente se produziu em uma determinada época da arte brasileira. Seus textos bem escritos, sua fala doce e, ao mesmo tempo, firme, sua abertura para o novo e para as ideias dos novos, fez de sua passagem entre nós um imenso prazer. Sua perda é profundamente sentida não só pela sua ausência entre os que conviviam com ela, mas principalmente pelo frescor que ela inseria permanentemente em encontros, conversas, aulas e textos com sua participação. Assim como seu pensamento, Santuza ficará ressoando entre nós por muitos e muitos anos quando falarmos sobre a música popular brasileira de ontem, de hoje e de além.

* Frederico Coelho é pesquisador, ensaísta e professor de Literatura Brasileira e Artes Cênicas da PUC-Rio. Trabalhou com Santuza durante oito anos no Núcleo de Estudos Musicais (NUM) e hoje é membro do Núcleo de Literatura e Música (NELIM). Publicou ao lado de Santuza Naves e Tatiana Bacal, o livro MPB – Entrevistas (Editora UFMG,2005).

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