“Três vezes Brasil” – João Paulo Cunha

Artigo publicado no Estado de Minas [via Conteúdo Livre]:

Quem for à programação de cinema vai constatar que qualidade e quantidade parecem ter travado uma briga de foice. Em BH, a maioria das salas e horários dá conta de quatro filmes da nova safra norte-americana, com histórias de aventura, fantasia e violência. São fitas que divertem, mas não fazem falta e nem vão ficar na memória. Exemplos de produções marcadas pelo objetivo único de oferecer entretenimento a troco do preço do ingresso. Uma troca justa. Mas não se trata de cultura. Assim como há livros que não são literatura, existem filmes que não são cinema. É o caso de Jogos vorazes, Espelho, espelho meu, Fúrias de Titãs 2 e Lorax: em busca da trúfula perdida. 

Para quem examinar com mais cuidado a mesma relação de atrações nas salas de cinema vai notar que, em poucos espaços e horários, há três filmes brasileiros. Todos muito bons, que nos ensinam sobre o nosso modo de ser e fazer arte. São histórias reais, de personagens extraordinários, que funcionam como o espelho de nossa alma e de nossas possibilidades como indivíduos e nação. Isso sim é cultura. E é para isso, acredito, que o cinema foi inventado: traduzir com emoção e mescla de sentidos e inteligência uma visão de mundo e uma expressão estética. Heleno, Xingu e Raul Seixas: o início, o fim e o meio merecem ser vistos e revistos com atenção. E tem mais: são tão interessantes como seus pares gringos. Para falar a verdade, muito mais atraentes.

Não deve ser mero acaso que as produções de sucesso estrangeiras sejam tão afastadas da realidade. Parece que os EUA não se dão muito bem com a verdade. Esse comportamento evasivo em termos morais gerou ideologia que ao mesmo tempo que defendia a liberdade internamente servia de pretexto para acabar com a liberdade em outros contextos. Além disso, mesmo dotado de grande eficiência técnica e virtuosismo narrativo, o cinema norte-americano comercial, como se sabe, não é tocado pela força da invenção, mas do efeito. Todos sabem que os filmes são testados com um bando de adolescentes que se empanturram de pipoca e decidem como os produtores devem gastar seus milhões de dólares. Por isso o cinema americano está cada vez mais adolescente, abobalhado, consumista e vazio. A vida não é videogame.

A trinca de filmes brasileiros em cartaz, em medidas diferentes, oferece ao público momentos sublimes de puro cinema. São narrativas de histórias reais, que vão do documentário ao drama, criando dupla empatia com o espectador. Ao mesmo tempo que alimentam a memória de fatos marcantes da história política e cultural, criam novas formas de organização e apresentação da realidade, por meio de estratégias expressivas sempre criativas e inovadoras. Assim como há fuga da realidade no cinema norte-americano de consumo, parece que precisamos mirar com atenção nossa imagem real. Não estamos no momento de desviar os olhos, mas de concentrar a atenção no que construímos. Por isso, o olhar sobre o passado, mesmo quando trata de um ídolo do rock, de um jogador de futebol e de aventureiros em busca do sentido da vida, é sempre mirada política.

Podemos, nesse sentido, comparar o cinema brasileiro com o argentino. Os bons filmes de nossos vizinhos parecem ter conseguido dar um passo além da obsessão pelo próprio rosto. Eles têm mais domínio da ficção, criam histórias com força moral, têm um grau de maturidade psicológica que quase sempre vai além de nossos ensaios no mesmo registro. O cinema argentino pode nos ensinar muito e, do ponto de vista do público, tem criado uma plateia mais atenta e exigente, o que é ótimo. Tudo que o cinema americano dissolve, a arte do Sul parece adensar com seu propósito de fazer do cinema instrumento de compreensão da realidade, tanto exterior quanto psicológica. A verdadeira terceira dimensão é a profundidade.

Índio, rock e futebol 
Cada um dos filmes nacionais em cartaz tem suas sutilezas e encantos. Em Xingu, de Cao Hamburger, a saga dos irmãos Villas Bôas ganha tratamento épico, mas que não disfarça a dimensão psicológica dos personagens Cláudio, Orlando e Leonardo. Há aspectos impressionantes no filme. Em primeiro lugar a estrutura narrativa. Traz fato conhecido (pelo menos pelos que já passaram dos 50), que mobilizou durante décadas a sociedade brasileira. A forma de tratar as populações indígenas, com consequências ainda hoje presentes, é resultado do que foi vivido naquela ocasião. A criação do Parque Indígena do Xingu, as políticas de pacificação, a relação com o governo militar, a tentativa de dar dimensão universal ao fato, as divergências teóricas entre os sertanistas e cientistas, tudo isso foi objeto de intensa luta política durante uma década.

O filme de Cao Hamburger, que mostra ainda capacidade de realização espantosa em razão das dificuldades de ordem material, aborda todas essas questões como se fossem atuais, trazendo à tona temas como o respeito à diferença, que eram vistos à época sob outra luz teórica e prática, e a ecologia, que tem hoje um peso bem mais acentuado. O debate sobre o progresso a qualquer custo não é de hoje, como muitos pensam. Ele tem história que merece ser respeitada. Xingu é um filme que alimenta a memória retrospectiva e nos relembra da capacidade de realização mesmo contra todas as forças. Ao mesmo tempo, tem potencial pedagógico, trazendo aos jovens informações importantes sobre o passado recente e sua pertinência no debate ético contemporâneo.

O documentário Raul Seixas: o início, o fim e o meio, de Walter Carvalho, é outra obra de força. Deixando de lado a tentação em explicar o mito depois de sua passagem – o que seria fácil e meramente retórico –, ele se concentra no homem para tirar dele o sumo de uma época confusa. O diretor, em depoimentos e montagem, trabalha com registros inéditos, corajosamente entrega o melhor e o pior do grande artista, e define ao final uma aventura humana marcada pela singularidade da expressão artística. Não é possível assistir ao filme sem se sentir próximo ao músico em sua busca determinada pelo outro lado da luz. 

Em alguns momentos, em sacadas brilhantes, o diretor funde a realidade com a fantasia, criando uma ponte entre Nordeste e os EUA que ajuda a explicar a dimensão estética para confundir a figura humana. O jogo da montagem, em vários momentos, consegue um humor forte, quando desvenda nas melhores atitudes momentos de fraqueza, como as mulheres que se sentem sempre as mais amadas; os antigos amigos que dominam códigos juvenis e neles resumem a complexidade do homem que se seguiria; os fãs que cantam Metamorfose ambulante emparedados em representações estáticas de um maluco beleza que já estava em outra.

Heleno, de José Henrique Fonseca, na escolha do momento da derrocada do ídolo, faz opção certa pela biografia concentrada, deixando de lado a sociologia da celebridade para ficar com a psicanálise da falta que nos constitui. É um filme sobre a fama que só se completa na mais absoluta negação do outro. Além de sua força interna, traz um trabalho de ator de Rodrigo Santoro que dá a dimensão do que pode a arte do cinema quando se arrisca a afrontar os limites da verdade. O mineiro Maurício Tizumba com seu enfermeiro, expressão da doçura brasileira, mostra que, além de músico, é ator dramático de primeira.

São três faces do Brasil, marcadas por derrotas e realizações, a partir de gente de verdade. Se o limite do cinema é a vida, estamos no caminho certo.

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