“Renovação da crítica ao tropicalismo” – Caetano Veloso

Entrevista realizada por André Miranda e publicada no G1:

RIO – A reunião de ensaios e entrevistas “Martinha versus Lucrécia” (Companhia das Letras), do crítico literário Roberto Schwarz, chega às livrarias na segunda-feira trazendo um texto inédito que reabre uma antiga polêmica. Em “‘Verdade tropical’: um percurso de nosso tempo”, escrito em 2011, o crítico de formação marxista analisa o livro lançado em 1997 por Caetano Veloso, apontando contradições e ressaltando uma visão positiva, em vários aspectos, que o cantor e compositor teria do golpe militar de 1964, da presença da direita no poder e, no plano internacional, da consolidação da hegemonia do capitalismo.

Em 1969, no volume de ensaios “Cultura e política, 1964-69”, Schwarz se contrapusera ao tropicalismo, que, ao fazer da cultura pop um dos pilares de sua proposta, ganhara a rejeição da esquerda. A posição do crítico vem sendo respondida, desde então, com ironias por Caetano. E Schwarz também se vale de ironias em seu novo artigo, procurando desmontar algumas argumentações do artista — mas não deixa de destacar qualidades em seu texto.

O intelectual não quis, por enquanto, dar entrevista. Caetano respondeu a perguntas enviadas por e-mail.

Não são novos os embates de ideias entre você e o Schwarz. Qual a gênese deles? É uma questão de ideologia?

CAETANO VELOSO: Não houve embates entre nós. Ele escreveu um artigo sobre o tropicalismo em 1969, e às vezes eu me referi a coisas ditas ali de forma irônica. Mas sempre achei o artigo cheio de interesse. Schwarz é bom ensaísta. Quem sabe a questão ideológica tenha nos posto em lugares que se opõem às vezes.

O que pode tê-lo motivado a revisitar o “Verdade tropical” tanto tempo depois?

Não faço ideia. Talvez ele tenha demorado para digerir.

O texto parece saudar você como ótimo analista das artes (ou da cultura quando associada a manifestações artísticas), mas questiona suas posições políticas e análises sociais, que mostrariam um alinhamento progressivo seu em direção a um pensamento de direita. Você concorda com a análise do Schwarz?

É verdade que o pensamento de direita era anátema quando eu era jovem. Pelo menos nos meios em que eu andava. Isso mudou em mim no pré-tropicalismo — e mudou em muitos ambientes, bem depois. Considero um avanço. Percebi que o texto de Schwarz mostra admiração por minha capacidade literária. Isso inclui poder de análise social e política. O que ele diz deplorar é que minhas análises tenham mudado de polo depois do golpe. Não foi assim. Há uma complexificação gradativa da leitura dos fatores políticos, e essa complexificação põe a esquerda também sob crítica. Essa mudança gradual (mas não sem turbulência) é que é narrada no livro. Mas eu me sentia no campo da esquerda antes, durante e depois do tropicalismo.

Para você, o que o Golpe de 64 representou para o Brasil? Você aceita a sugestão de que a Tropicália serviria como uma espécie de diluidor dos movimentos revolucionários de esquerda na época da ditadura?

Não aceitaria tal sugestão. Nem mesmo a vejo por trás da marcha cerrada da prosa de Schwarz. O golpe de 64 foi um ato regressivo no sentido de manter nossas desigualdades e servia sobretudo ao campo americano na Guerra Fria. Os esforços de superação da nossa injustiça social não se organizaram de modo eficaz. Os esboços de mudança foram mostrando as marcas do autoritarismo que poderiam produzir. As experiências do “socialismo real” se provaram apavorantes. Lembro-me de, em Londres, ouvir de Arthur Guimarães, em resposta a uma aproximação poética feita por Jorge Mautner entre a Guarda Vermelha e a Jovem Guarda: “Tenho medo do maoísmo até nos filmes de Godard: não posso acreditar numa cultura de um livro só”. Muitos valores liberais iam ganhando luz aos meus olhos. Quando saiu o livro de Roberto Campos, li todo, com muito interesse. As críticas de Olavo de Carvalho a certos absurdos da esquerda, mais tarde, me pareceram relevantes. E, finalmente, tive de reconhecer que Delfim Netto não é a única coisa que Lula deve aos milicos. Nem por isso nutro simpatia pelo regime militar. Ao contrário: sou pela Comissão da Verdade e não acho que torturador deva ser perdoado.

O texto de Schwarz avalia que, a partir da leitura de “Verdade tropical”, você aparentaria ser uma pessoa com um pé aqui e outro lá, com uma “mescla peculiar de ruptura radical com respeito ou apego”, posicionando-se entre a elite e o popular. Você aceita essa definição?

Não. Tudo é muito mais.

Você teria algum recado para o Schwarz?

Só se fosse de agradecimento pela atenção. Na França deram meu livro para analfabetos traduzirem (já a partir da versão americana, que foi editada para analfabetos lerem), embora as traduções italiana e espanhola (feita por uma argentina) sejam bastante boas. Não deixa de ser um luxo que um intelectual com as qualificações de Schwarz tenha gastado tanta energia na análise do livro de um cantor de rádio. Mas Augusto de Campos viu muito mais, muito melhor e muitíssimo mais cedo.

(Colaborou Luiz Fernando Vianna)

2 Comentários

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2 Respostas para ““Renovação da crítica ao tropicalismo” – Caetano Veloso

  1. Carlos A Cas

    Sua crítica perde valor diante do seu robusto filtro ideológico. É fácil perceber sua fixação por Marx: ali é fácil garimpar palavras comuns como capital e capitalismo. Julga ser um justiceiro que está do lado dos anjos. Só vê o comunismo como salvação do injusto mundo. Qualquer outro modo de pensar é herético, pois contraria a verdade dos porcos de George Orwel.

  2. Carlos A Cas

    Sua crítica perde valor diante do seu robusto filtro ideológico. É fácil perceber sua fixação por Marx: ali é fácil garimpar palavras comuns como capital e capitalismo. Julga ser um justiceiro que está do lado dos anjos. Só vê o comunismo como salvação do injusto mundo. Qualquer outro modo de pensar é herético, pois contraria a verdade dos porcos de George Orwel.O tropicalismo foi melhor que o mofo comunista.

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