Patrimônio – Philip Roth

Ele nunca foi capaz de entender que sua capacidade de renúncia e disciplina férrea eram atributos excepcionais de que nem todos partilhavam. Acreditava que, se um homem com suas muitas desvantagens e limitações tinha tais atributos, então todos os possuíam. A única coisa exigida era a força de vontade – como se força de vontade nascesse em árvore. O inabalável senso de dever para com as pessoas que dele dependiam parecia compeli-lo a reagir ao que via como seus defeitos de forma tão visceral quanto ao que julgava serem suas necessiadades – e, nesse ponto, nem sempre estava errado. Dono de uma personalidade peremptória e tendo no fundo da alma uma pepita não refinada de ignorância pré-histórica, ele não fazia a menor ideia de como suas reprimendas podiam ser contraproducentes, irritantes e, algumas vezes, até mesmo cruéis. Dizia que a gente pode levar um cavalo até a água e também fazê-lo beber – basta azucriná-lo, e azucriná-lo, e azucriná-lo até que ele tome juízo e beba. Em suma, seu método consistia em insistir, atormentar, martelar, usar as palavras para abrir um furo na cabeça dos outros.

Patrimônio, de Philip Roth. São Paulo: Companhia das Letras. Tradução de Jorio Dauster.

Deixe um comentário

Arquivado em Lançamento

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s