Fechamento da Poesia Incompleta

No site do jornal Público de Lisboa, notícia sobre o lamentável fechamento da livraria Poesia Incompleta.

“Está a respirar-se mal neste país. Este país não é para velhos, nem para novos, nem para os do meio. Estou a pensar emigrar, como sugeriu um ministro qualquer”, afirma ao PÚBLICO, num tom irónico que o leva a dizer que vai “doar” os volumes de poesia que sobraram na livraria ao ministro adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas.

O que é dizer muito. A Poesia Incompleta tem um fundo de oito a dez mil volumes de e sobre poesia, em mais de 30 línguas, e com mais de 260 editoras, segundo a Lusa. A livraria, que estava aberta ao público desde Novembro de 2008, tinha três salas por onde se espalhava todo este espólio, que incluía raridades e antiguidades.

Mário Guerra partilhou os títulos que foram chegando à livraria ao longo destes quase três anos e meio no blogue onde, nesta segunda-feira, anunciou o fim da linha para a Poesia Incompleta. A curtíssima nota acabava com a possibilidade de abrir num outro espaço: “Amanhã, a PI fechará portas. Espera-se que as reabra em breve, num novo local.”

Questionado pelo PÚBLICO sobre a eventual reabertura, volta a ironizar: “Vamos reabrir no estádio nacional”. O que Mário Guerra enfatiza é que a Poesia Incompleta chega ao fim “sem uma única dívida”. “A Poesia Incompleta fecha sem ninguém poder dizer que temos sequer uma dívida. E isso é óptimo. E raro.”

“Não quero relacionar de maneira nenhuma o fecho da minha livraria com o fecho das outras. A Poesia Incompleta fecha porque tem de fechar”, acrescenta. “Não me queixo de nada. A crise é espiritual.”

Já no Jornal de Notícias, o poeta Manuel António Pina, prêmio Camões, escreveu sobre “O livreiro insolente”:

A poesia tem justificada má fama. Chamar poeta a alguém, no Parlamento ou no Estádio da Luz, é maior insulto do que chamar intelectual a Pacheco Pereira, como fez Valentim Loureiro num dia em que se achou mais pachorrento. E temos que convir que, se “ser poeta é” o que Florbela Espanca diz que é e os Trovante andam por aí a “dizê-lo, cantando, a toda a gente”, compreende-se que assim aconteça.

Imagine-se agora que, num determinado “país de poetas”, um insolente livreiro decide abrir uma livraria exclusivamente dedicada à poesia. Era bem feito que lhe chamassem poeta, ou ainda menos. Foi o que aconteceu. Ao fim de mais de três anos a juntar e vender ociosidades numa obscura rua do Príncipe Real, em Lisboa, a livraria “Poesia Incompleta” fechou ontem portas. Ainda por cima sem dívidas, o que hoje é coisa ainda mais insultuoso do que “poeta”.

Alguém deveria ter explicado ao jovem empreendedor Mário “Changuito” Guerra que a única forma de manter durante três anos uma livraria exclusivamente dedicada à poesia e chegar ao fim com uma pequena fortuna é começando com uma grande fortuna. Não foi, obviamente, o caso.

Anunciou o livreiro que irá doar (ou doer, não sei) os milhares de volumes que lhe sobram nas prateleiras ao omniministro Relvas. Só que, tal como “assustar um notário com um lírio branco”, pôr Miguel Relvas ao alcance de Kavafy, Camões e Rilke cai decerto sob a alçada da lei antiterrorista.

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