Millôr Fernandes (1923-2012)

Faleceu hoje, 28 de março, o escritor, cartunista e tradutor Millôr Fernandes. Os jornais Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo fizeram matérias sobre a vida e a obra de Millôr. Abaixo, depoimento de Paulo Caruso publicado no site da Folha.

“O Millôr era o nosso ídolo, era o guru do Méier, como se intitulava. Ele era um cara que marcou muito a história da imprensa no Brasil pelo inconformismo e pela liberdade que ele tinha de pensar e agir. Tanto na área de artes gráficas, quanto artes plásticas, quanto literatura, tradução de textos de teatro e criação como dramaturgo. Acho que foi um cara que marcou, não se conformou e tinha a postura de artista. As pessoas todas vivem sem se dar conta e o artista é o cara que não se conforma com isso. Por isso talvez, quando o artista vai embora, tem esse sentimento de que vira obras completas e fica mais fácil de analisar. Ele também foi vítima desse momento histórico que a gente viveu na ditadura. Ele tinha coluna na revista ‘O Cruzeiro’ que era o Pif Paf. Isso depois de ele ter galgado algum prestígio na imprensa. E aí, durante o período em que estava de férias, ele soube que foi demitido porque tinha feito uma paródia sobre a criação do mundo. A comunidade católica, leitora da revista, protestou com o editor e o editor resolveu demiti-lo sem falar com ele. Ele ficou sabendo por amigos. A coluna chamava Pif Paf e os amigos, em desagravo, fizeram um jantar com ele. Jaguar, Ziraldo, Sérgio Augusto, José Lewgoy fizeram o suplemento ‘Pif Paf’, que durou oito números, até ser esbofeteado pela ditadura, que não gostou do suplemento. Depois disso ele foi ser um diretores e fundados de ‘O Pasquim’, onde eu ia com meus desenhos debaixo do braço com 20 anos de idade tentar entrar, mas não me deixavam passar da porta. Mas eu vim conhecê-lo pessoalmente no Salão de Humor de Piracicaba, em que ele era um dos jurados. Teve uma grande exposição no final dos anos 70 com os trabalhos dele. E foi aí que eu vi de perto o trabalho gráfico do Millôr, que era sensacional. Eram enormes, tinham uma pretensão mesmo plástica. Daí as portas se abriram e ele começou, muito respeitosamente, a tratar a gente como companheiros de viagem no humor. É um cara sempre muito marcante para gente como referência na linguagem do humor.”

PAULO CARUSO, cartunista e escritor

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