“Tabucchi, o falso Pessoa” – José Castello

Texto de José Castello sobre o escritor Antonio Tabucchi, que faleceu neste fim de semana. O texto encontra-se no blog do caderno Prosa & Verso:

Com a morte, neste domingo 25, do escritor italiano Antonio Tabucchi, o poeta Fernando Pessoa, falecido em Lisboa em novembro de 1935, morre pela segunda vez. Poucas paixões literárias ficaram tão entranhadas no espírito de um escritor, poucos escritos se tornaram tão cruciais a uma obra, como no caso da dívida de Tabucchi para com Pessoa. Descobriu-o por acaso, lendo uma edição francesa de “Tabacaria”, que comprou, quando ainda era um estudante em Paris, na livraria da Gare de Lyon. Gostava de recordar do grande choque que lhe produziram os quatro versos iniciais, que agora podemos repetir como um réquiem: “Não sou nada./ Nunca serei nada./ Não posso querer ser nada./ À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”.

Graças à paixão por Pessoa, que de um modo tímido e muito torto ele reencarnou, tornou-se professor de literatura portuguesa na Universidade de Gênova. Traduziu para o italiano a parte mais importante da obra do poeta português, sem nenhum temor de dissolver a própria alma no grande oceano poético de Pessoa. Colocava-se, sempre, muito abaixo de seu mestre, e aqui poderia repetir, de novo, os versos de “Tabacaria” que tanto o espantaram na juventude: “Serei sempre o que não nasceu para isso./ Serei sempre só o que tinha qualidades”.

A marca singular de sua obra, contudo, desmente a ideia de submissão. De Pessoa herdou, é verdade, ainda que de modo transformado — até porque foi um prosador e não um poeta —, os sentimentos de mistério e de espanto. Seus relatos, luminosos e compactos, guardam uma contenção assombrosa, que os aproxima da poesia. Sempre considerou a existência um mal-entendido — um jogo de montar composto por peças que não se encaixam —, sendo a poesia (ainda que escrita em prosa) a única maneira de sobreviver em um mundo que não combina consigo mesmo.

Sua obra, desde os primeiros livros, ganhou o porte de uma escrita clássica, o que caracteriza os escritores que, mesmo sem saber por que escrevem, se aferram à literatura como matéria de salvação. A ele se poderia atribuir um dos mais belos aforismos de Elias Canetti, um dos escritores que muito apreciou: “Diz-se que ninguém sabe onde ele está, porque ele mesmo não deseja sabê-lo”. Se há aventura na obra de Tabucchi, e há, não se trata da busca da pedra filosofal, mas da própria ignorância.

Como Pessoa, que viajou ao longo de toda a vida em seu mar de heterônimos, Tabucchi via a literatura como uma viagem. Em “Noturno indiano”, um de suas narrativas mais célebres, adverte seu leitor: “Este livro não é somente uma insônia, é também uma viagem, na qual estamos sempre a perseguir uma legião de sombras. A insônia pertence àquele que escreve o livro, a viagem àquele que o faz”. Foi um escritor que sempre persistiu não no combate — já que ela é peça do humano, e dela não nos livramos —, mas no trato refinado da ilusão. Sabia o quanto somos divididos, e essa lição, que também aprendeu com o fragmentado Pessoa, é uma das marcas de sua escrita.

Foi um escritor ensimesmado e despretensioso. Afinada, ainda que de modo dolorido, com a fragilidade do mundo, a obra delicada de Tabucchi guarda, porém, um caráter premonitório. Previu um século — o nosso século XXI — em que as sombras se alargariam e os homens se tornariam mais vaidosos, mas também menores. Sua obra nos leva a lembrar do jovem que, em “Afirma Pereira”, célebre romance de 1994, é contratado por um jornal para escrever obituários antecipados de escritores célebres. Essa visão profunda da vida, que se espalha por toda a sua obra, torna a escrita de Tabucchi um tanto melancólica.

Com a mesma melancolia dele nos despedimos. Para nos consolar um pouco, podemos lembrar aqui de um artigo de Pessoa sobre seu contemporâneo, Antonio Botto, em que o poeta diz: “Tantos serão os ideais possíveis, quantos forem os modos por que é possível ter a vida por imperfeita”. Tabucchi transformou a imperfeição em matéria literária e, também nesse aspecto, foi um dos mais fiéis discípulos de Pessoa.

 

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