“No momento, predomina a confusão formal.”

Reproduzido do blog do caderno Prosa & Verso do jornal O Globo:

OSCAR NIEMEYER E A ARQUITETURA MODERNA

Eduardo Jardim, Otavio Leonidio e Luiz Camillo Osorio: Nas conversas que tivemos sobre arquitetura moderna no Brasil, você destacou três marcos históricos: o Ministério, Pampulha e Brasília. Por quê?

Italo Campofiorito: O Ministério da Educação é um prédio extraordinário para a história da arquitetura mundial. Ele é um exemplo extremo de arquitetura moderna no Brasil. Sua construção começa em 1937 e termina em 1945. Neste período, o conjunto da Pampulha foi inaugurado. Pampulha é, com certeza, o início, o princípio, no melhor nível possível, da arquitetura brasileira moderna, que não há que se confundir com a arquitetura moderna no Brasil.

Pampulha é o momento mais importante então?

Sim. Niemeyer já tinha trabalhado no Ministério, no projeto que Lucio Costa tinha tido a missão de conduzir. Ele esteve lá quinze dias, mas aprendeu milagrosamente tudo. Inclusive porque existe a versão de que Lucio Costa não via nele nenhum talento especial. Quinze dias e ele se transforma em uma estrela mundial! Claramente aconteceu alguma coisa além da mágica natural. Quero dizer que alguma coisa estava contida em Oscar Niemeyer. Alguma coisa que, se saiu, é porque estava lá. Nessa ajuda que ele recebeu, ele aprendeu o que precisava. Não ocorreu antes, talvez, devido a uma questão de timidez quando estava no escritório de Lucio Costa.

O fato é que ele fez Pampulha em três dias. Foi chamado a Belo Horizonte pelo então prefeito, Juscelino Kubitschek, que estava fazendo Pampulha em estilo normando, como o Quitandinha, em Petrópolis. Juscelino gostou da ideia de ter um arquiteto moderno, jovem e promissor. Talvez ele até tenha gostado mais da ideia do jovem promissor, ou então teria chamado Lucio Costa. Com certeza ele queria um arquiteto para ele. Já era para fazer Brasília! Os predestinados são assim. Oscar vai lá e fica sabendo que precisa apresentar em vinte e quatro horas um projeto para o cassino porque a conjuntura política e administrativa era essa. Faz então aquele cassino maravilhoso, que tem ainda alguma inspiração de Le Corbusier. A igreja não tem essa inspiração, nem a casa do baile. Mas o cassino tem e é lindo. Ele diz que fez isso numa noite. Isso lembra a história da Sinfonia Linz, de Mozart. O músico chegou a Linz, na Áustria, e viu que não tinha trazido a partitura da sinfonia. “Não botei na pasta”, ele escreve para o pai. Então passou a noite em claro e escreveu a Sinfonia Linz, que é nada mais nada menos que uma das quatro sinfonias mais bonitas dele.

 

Essas pessoas não fazem isso em uma noite. Elas fazem isso durante a vida inteira e, de repente, tem um dia em que isso floresce. Se não tivesse a Linz na cabeça, Mozart não faria. Se Oscar já não tivesse, desde o momento do ministério, partido para certa crítica do ângulo reto, se ele não tivesse, de repente, compreendido o Barroco, não teria feito o que fez mais tarde. Penso que o Barroco do Oscar evoluiu para uma combinação da curva com a reta, que é uma coisa que se vê nas esculturas de Aleijadinho. Na Pampulha ainda é curva com curva. Mas, no hotel que ele fez para substituir o Quitandinha, já é curva com reta. E na Casa das Canoas é curva com reta. Essa curva com reta, tão pouco notada pelos críticos, é a essência criativa da melodia “oscárica”. Esta expressão é de Darcy Ribeiro. Parecia uma brincadeira, mas depois descobri que ica é um sufixo tupi, e quando Darcy usa oscárico no lugar de oscariano, por exemplo, ele está querendo usar a língua do índio brasileiro.

E a obra dele em Brasília como é que se situa?

A obra dele em Brasília se situa numa época quase no final da grande arquitetura moderna, cujo momento principal não é, como se pensa, os anos 1920, 1930 ou 1940, mas os anos 1950. É o momento que eu chamaria da alta arquitetura moderna. Para mim, este é o ponto mais alto da história recente da arquitetura. A época em que Oscar Niemeyer faz a Casa das Canoas e o Ibirapuera, a época que Frank Lloyd Wright, muito idoso, fez o Museu Guggenheim, a época em que Alvar Aaalto, que é um dos dois ou três arquitetos mais importantes do século, fez o prédio mais bonito da vida dele. Esta época pode ser chamada de Alto Moderno. Eu diria que o que é chamado de Grande Moderno é o Modernismo, ou seja, é o movimento modernista. Esse movimento que revolucionou a arquitetura mundial tem dois pontos altos que são insuperáveis. Por que insuperáveis? Era preciso saltar um obstáculo e foi feito. Estes dois pontos são o Pavilhão de Barcelona, de Mies van der Rohe, de 1939 — uma obra do fim de uma época do mundo ocidental — e a Maison Savoie, de Le Corbusier. Os dois artistas realizaram ali seu suprassumo. O resultado é que Le Corbusier transformou-se completamente; ele vira brutalista, deixa de ser purista, porque aquilo era insuperável. Quando uma coisa é insuperável o que a gente faz? Ultrapassa. Enquanto isso, Mies van der Rohe vai para os Estados Unidos e se dedica a uma outra arquitetura, que se transforma em ícone da arquitetura capitalista mundial.

Este período do Alto Modernismo teve como figuras mais importantes Mies, Aalto, Oscar, Le Corbusier. Brasília vem dez anos depois. Começa em 1957. Oscar não tem culpa de ser o mais moço do grupo. Essa gente toda teve ocasião de trabalhar nos anos 1920, 1930, na Alemanha, quando Oscar ainda estava no Colégio dos Barnabitas. Então ele ficou sendo considerado um arquiteto tardio. Eu vi um crítico nosso dizer: “Vá lá, chamemos Brasília de moderno, depois não vamos mais usar essa palavra!”. 

É claro que vamos. Porque a palavra “moderno” para o arquiteto quer dizer apenas não acadêmico. Moderno quer dizer livre. No principio, os arquitetos modernistas, lutadores pelo modernismo, faziam uma arquitetura exageradamente racionalista. 

Certamente não se tratava de funcionalismo. A palavra funcionalismo é falsa. Nenhum arquiteto jamais fez uma arquitetura funcionalista; eles não servem nunca integralmente à função. Mas, se em todo o caso existisse algum funcionalismo, seria parte do racionalismo. Funcionalismo é um modo de ser racionalista. Esses arquitetos estão ainda ligados esteticamente, filosoficamente, aos grandes artistas da escola de Paris e da Alemanha: Kandinsky, Picasso, Matisse. Entretanto, há uma diferença entre eles e estes artistas: os arquitetos não são livres. Trabalham obrigados ou por um pretexto funcionalista ou por uma obrigação racionalista.

O irracional é inseparável da arte moderna. Para que a arquitetura moderna fosse igual à arte moderna, ela teria que ser como a arte moderna, sem estilo. Ninguém nunca achou que Mondrian e Miró fazem parte do mesmo estilo. Na verdade, eles são antiestilo. Repito: moderno não é estilo!

Embora muitos arquitetos expressionistas tenham trabalhado livremente, aquele princípio da Bauhaus de que tudo tem que ser racional e, se possível, dentro do racional funcional, não é o moderno. Essa ideia não faz parte da essência do modernismo de combater a escola de Belas Artes. Ser moderno é não ser obrigado a imitar Rafael. É fazer o que bem entender. E a Arquitetura Moderna, enquanto fizer o que bem entender, é moderna. Essa palavra não morre. De modo que quando Oscar Niemeyer faz a Casa de Cultura da França, para o Malraux, ele faz uma coisa inventada. Até hoje, cada vez que ele faz alguma coisa, até o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, trata-se de algo completamente inventado. Esse completamente inventado, livre, foi chamado de irracional pelos protestantes ingleses. O conjunto da Pampulha é chamado pelo Outline of European Architecture de irracionalista. Irracionalismo que, aliás, Le Corbusier teria levado para a França. Curioso que os dois sejam acusados disso. Por que Pevsner faz esta acusação? No fundo porque ele é protestante, pudico, ele acredita só na arquitetura de Gropius, que ele estudou na sua tese de doutorado.

Queria muito chegar nesse ponto da nossa conversa para dizer o que acho que é moderno e o que não é. Pouco me importa que uma coisa seja chamada moderna, pós-moderna ou para-moderna. Isso não quer dizer nada. O que importa é que existe uma diferença total entre a arquitetura dos povos antigos, que apresentava uma unidade enorme, como no caso dos góticos, dos egípcios, como no caso da arquitetura de depois do século XV até o século XIX, que foi acadêmica, obedecendo a determinadas regras principalmente de inspiração greco-romana, e a arquitetura moderna. Se a arquitetura for livre, se ela não estiver obedecendo a uma regra ou um tratado, ela é moderna. Então, chamar Brasília de moderna é um “esforço”, como disse um crítico amigo? Ora, não é esforço nenhum. Brasília é moderna porque não parece com nada acadêmico. Não tem coluna grega, que eu saiba. É uma coisa inventada pelo Oscar Niemeyer. O Palácio da Alvorada, por mais que seja gracioso, uma folie, é uma maravilha de escultura moderna. Os palácios de Brasília são preciosos e belos, sem nenhum acanhamento puritano.

 

 ARQUITETURA E CIDADE

Hoje há uma espécie de pluralismo que torna difícil defender a ideia de que uma coisa é melhor que a outra. Relativizou-se tudo. O que você acha disso?

No momento, predomina a confusão formal. Nós estamos vivendo uma época em que não existem grandes valores em arquitetura. Há um momento em que os valores são fracos.

E a arquitetura de hoje em dia?

Essas pessoas não fazem isso em uma noite. Elas fazem isso durante a vida inteira e, de repente, tem um dia em que isso floresce. Se não tivesse a Linz na cabeça, Mozart não faria. Se Oscar já não tivesse, desde o momento do ministério, partido para certa crítica do ângulo reto, se ele não tivesse, de repente, compreendido o Barroco, não teria feito o que fez mais tarde. Penso que o Barroco do Oscar evoluiu para uma combinação da curva com a reta, que é uma coisa que se vê nas esculturas de Aleijadinho. Na Pampulha ainda é curva com curva. Mas, no hotel que ele fez para substituir o Quitandinha, já é curva com reta. E na Casa das Canoas é curva com reta. Essa curva com reta, tão pouco notada pelos críticos, é a essência criativa da melodia “oscárica”. Esta expressão é de Darcy Ribeiro. Parecia uma brincadeira, mas depois descobri que ica é um sufixo tupi, e quando Darcy usa oscárico no lugar de oscariano, por exemplo, ele está querendo usar a língua do índio brasileiro.

E a obra dele em Brasília como é que se situa?

A obra dele em Brasília se situa numa época quase no final da grande arquitetura moderna, cujo momento principal não é, como se pensa, os anos 1920, 1930 ou 1940, mas os anos 1950. É o momento que eu chamaria da alta arquitetura moderna. Para mim, este é o ponto mais alto da história recente da arquitetura. A época em que Oscar Niemeyer faz a Casa das Canoas e o Ibirapuera, a época que Frank Lloyd Wright, muito idoso, fez o Museu Guggenheim, a época em que Alvar Aaalto, que é um dos dois ou três arquitetos mais importantes do século, fez o prédio mais bonito da vida dele. Esta época pode ser chamada de Alto Moderno. Eu diria que o que é chamado de Grande Moderno é o Modernismo, ou seja, é o movimento modernista. Esse movimento que revolucionou a arquitetura mundial tem dois pontos altos que são insuperáveis. Por que insuperáveis? Era preciso saltar um obstáculo e foi feito. Estes dois pontos são o Pavilhão de Barcelona, de Mies van der Rohe, de 1939 — uma obra do fim de uma época do mundo ocidental — e a Maison Savoie, de Le Corbusier. Os dois artistas realizaram ali seu suprassumo. O resultado é que Le Corbusier transformou-se completamente; ele vira brutalista, deixa de ser purista, porque aquilo era insuperável. Quando uma coisa é insuperável o que a gente faz? Ultrapassa. Enquanto isso, Mies van der Rohe vai para os Estados Unidos e se dedica a uma outra arquitetura, que se transforma em ícone da arquitetura capitalista mundial.

Este período do Alto Modernismo teve como figuras mais importantes Mies, Aalto, Oscar, Le Corbusier. Brasília vem dez anos depois. Começa em 1957. Oscar não tem culpa de ser o mais moço do grupo. Essa gente toda teve ocasião de trabalhar nos anos 1920, 1930, na Alemanha, quando Oscar ainda estava no Colégio dos Barnabitas. Então ele ficou sendo considerado um arquiteto tardio. Eu vi um crítico nosso dizer: “Vá lá, chamemos Brasília de moderno, depois não vamos mais usar essa palavra!”. 

É claro que vamos. Porque a palavra “moderno” para o arquiteto quer dizer apenas não acadêmico. Moderno quer dizer livre. No principio, os arquitetos modernistas, lutadores pelo modernismo, faziam uma arquitetura exageradamente racionalista. 

Certamente não se tratava de funcionalismo. A palavra funcionalismo é falsa. Nenhum arquiteto jamais fez uma arquitetura funcionalista; eles não servem nunca integralmente à função. Mas, se em todo o caso existisse algum funcionalismo, seria parte do racionalismo. Funcionalismo é um modo de ser racionalista. Esses arquitetos estão ainda ligados esteticamente, filosoficamente, aos grandes artistas da escola de Paris e da Alemanha: Kandinsky, Picasso, Matisse. Entretanto, há uma diferença entre eles e estes artistas: os arquitetos não são livres. Trabalham obrigados ou por um pretexto funcionalista ou por uma obrigação racionalista.

O irracional é inseparável da arte moderna. Para que a arquitetura moderna fosse igual à arte moderna, ela teria que ser como a arte moderna, sem estilo. Ninguém nunca achou que Mondrian e Miró fazem parte do mesmo estilo. Na verdade, eles são antiestilo. Repito: moderno não é estilo!

Embora muitos arquitetos expressionistas tenham trabalhado livremente, aquele princípio da Bauhaus de que tudo tem que ser racional e, se possível, dentro do racional funcional, não é o moderno. Essa ideia não faz parte da essência do modernismo de combater a escola de Belas Artes. Ser moderno é não ser obrigado a imitar Rafael. É fazer o que bem entender. E a Arquitetura Moderna, enquanto fizer o que bem entender, é moderna. Essa palavra não morre. De modo que quando Oscar Niemeyer faz a Casa de Cultura da França, para o Malraux, ele faz uma coisa inventada. Até hoje, cada vez que ele faz alguma coisa, até o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, trata-se de algo completamente inventado. Esse completamente inventado, livre, foi chamado de irracional pelos protestantes ingleses. O conjunto da Pampulha é chamado pelo Outline of European Architecture de irracionalista. Irracionalismo que, aliás, Le Corbusier teria levado para a França. Curioso que os dois sejam acusados disso. Por que Pevsner faz esta acusação? No fundo porque ele é protestante, pudico, ele acredita só na arquitetura de Gropius, que ele estudou na sua tese de doutorado.

Queria muito chegar nesse ponto da nossa conversa para dizer o que acho que é moderno e o que não é. Pouco me importa que uma coisa seja chamada moderna, pós-moderna ou para-moderna. Isso não quer dizer nada. O que importa é que existe uma diferença total entre a arquitetura dos povos antigos, que apresentava uma unidade enorme, como no caso dos góticos, dos egípcios, como no caso da arquitetura de depois do século XV até o século XIX, que foi acadêmica, obedecendo a determinadas regras principalmente de inspiração greco-romana, e a arquitetura moderna. Se a arquitetura for livre, se ela não estiver obedecendo a uma regra ou um tratado, ela é moderna. Então, chamar Brasília de moderna é um “esforço”, como disse um crítico amigo? Ora, não é esforço nenhum. Brasília é moderna porque não parece com nada acadêmico. Não tem coluna grega, que eu saiba. É uma coisa inventada pelo Oscar Niemeyer. O Palácio da Alvorada, por mais que seja gracioso, uma folie, é uma maravilha de escultura moderna. Os palácios de Brasília são preciosos e belos, sem nenhum acanhamento puritano.

 

 ARQUITETURA E CIDADE

Hoje há uma espécie de pluralismo que torna difícil defender a ideia de que uma coisa é melhor que a outra. Relativizou-se tudo. O que você acha disso?

No momento, predomina a confusão formal. Nós estamos vivendo uma época em que não existem grandes valores em arquitetura. Há um momento em que os valores são fracos.

E a arquitetura de hoje em dia?

 

1 comentário

Arquivado em Entrevista

Uma resposta para ““No momento, predomina a confusão formal.”

  1. Excelente entrevista… Merece uma releitura atenta!

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