O telefone – Marcel Proust

 

Reproduzo trecho de O caminho de Swann, de Marcelo Proust:

“[…] a admirável feitiçaria na qual bastam alguns instantes para que surja perto de nós, invisível mas presente, o ser com quem queríamos falar, e que, sentado em sua mesa, na cidade que habita (minha vó estava em Paris), sob um céu diferente do nosso, num tempo que não é exatamente o mesmo, no meio de circunstâncias e de preocupações que ignoramos e que esse ser irá nos contar, esse ser se vê de repente transportado a centenas de léguas dali (ele e todo o ambiente em que está mergulhado), perto da nossa orelha, no momento em que nosso capricho ordenar.”

“[…] escutei essa voz que eu acreditava conhecer tão bem […] mas a sua voz mesma, eu a escutava agora pela primeira vez. E como essa voz me aparecia modificada em sua proporção, uma vez que ela era um todo completo, e chegava a mim sozinha e sem o acompanhamento dos traços e da figura da minha avó, descobri o quanto essa voz era doce; talvez, aliás, ela nunca havia sido tão doce, pois minha avó, me sentindo distante e infeliz, acreditando poder abandonar-se à efusão de uma ternura que, por ‘princípios’ de educadora, ela continha e normalmente escondia; mas descobri também como ela era triste, primeiro por causa da doçura mesma, quase decantada, mais do que poucas vozes humanas jamais o foram, de todo elemento de resistência aos outros, de todo egoísmo; frágil por causa da delicadeza, ela parecia estar a todo instante a ponto de se quebrar, a expirar em uma onda pura de lágrimas, e depois, tendo-a sozinha perto de mim, vista sem a máscara do rosto, eu observava nela, pela primeira vez, as mágoas que a racharam ao longo dos anos”


4 Comentários

Arquivado em Ficção

4 Respostas para “O telefone – Marcel Proust

  1. Lu Menezes

    Eduardo,
    que flagra de águia nesta maravilhosa assimilação proustiana da separação (dramática!) entre ver e ouvir inventada pelo telefone…
    Abraço,
    L.M.

  2. Roberto Rocha

    Tradução de quem? Afinal textos não andam de uma língua pra outra sem que as mãos dos tradutores os carreguem.

  3. Mário Quintana fez a tradução.

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