“A gente de Cortez”, de Bertolt Brecht

No sétimo dia, sob vento brando
Os campos ficaram límpidos. Como o sol estava bom
Pensaram em repousar. Fizeram descer
Aguardente dos carros, soltaram bois.
Que mataram à noite. Estando frio
Cortou-se lenha do pântano vizinho
Galhos grossos, nodosos, bons de queimar.
Então devoraram carne temperada
E às nove horas, cantando
Começaram a beber. A noite era fria e verde.
Com a garganta rouca, bêbados e fartos
Com um último, frio olhar às grandes estrelas
Adormeceram junto ao fogo, por volta da meia-noite.
Dormiram pesado, mas muitos de manhã lembravam
Ter ouvido os bois mugirem uma vez.
Despertos ao meio-dia, já estão na floresta.
Com olhos vítreos, membros pesados, gemendo
Erguem-se sobre os joelhos e veem espantados
Galhos grossos e nodosos à sua volta
Mais altos que um homem, bem emaranhados, com folhagem
E pequenos brotos de cheiro adocicado.
Já se sentem abafados sob seu teto
Que parece ficar mais espesso. O sol quente
Não mais se vê, também o céu não.
O capitão urra como um touro, pedindo machados.
Eles estão ali próximo, onde os bois mugem.
Não podem ser vistos. Amaldiçoando rudemente
Os homens tropeçam pelo retângulo, batendo-se
Na ramagem que rastejou entre eles.
Braços inertes, jogam-se selvagemente
Contra a vegetação, que ligeiramente estremece
Como se um vento brando a penetrasse de fora.
Depois de horas de trabalho, apoiam as frontes
Que brilham de suor, nos galhos estranhos.
Os galhos crescem e expandem lentamente
A horrível mescla. Mais tarde, à noite
Que é mais negra, na folhagem crescente
Ficam sentados em silêncio, angustiados, macacos
Em suas jaulas, enfraquecidos da fome.
Durante a noite cresceu a ramagem. Mas devia haver lua
Pois estava claro, ainda se viam.
Apenas de manhã a coisa se tornou tão espessa
Que não mais se viram até morrer.
No dia seguinte, um canto soou da floresta.
Amortecido, minguante. Provavelmente cantavam entre si.
À noite fez-se silêncio. Também os bois calaram.
Pela manhã foi como se animais urrassem
Mas bem distante. Depois vieram horas
Em que houve silêncio completo. Lentamente a floresta
No vento brando, no sol bom, quietamente
Comeu os campos, nas semanas seguintes.

[Poemas  1913-1956. Seleção e tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Editora 34, 2000. p. 48-49]

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