“Pedro Doria: E o iPad se abre para amadores”

Matéria publicada no site do jornal O Globo:

RIO – Há períodos em que a revolução tecnológica anda a galope. Faz uns dois anos que vivemos um tempo assim. Na semana passada, a Apple anunciou uma linha de livros didáticos para o iPad e o iBook Author, programa para desenvolver livros multimídia para seu tablet. O software parece um lançamentozinho, algo da entressafra entre um iPhone novo e o próximo MacBook. Não é. O iBook Author, assim como quem não quer nada, se intromete no negócio das editoras, ameaça uma penca de empresas de software, e de quebra abre as portas do iPad para um grupo inteiramente novo de autores. Pode, ainda, transformar como se faz jornalismo na plataforma.

Logo que o iPad foi lançado, tive uma conversa com um dos principais editores do país. Ele, como quase todos seus pares, vivia um dilema. Temia a chegada da Amazon. Nos EUA, a maior loja virtual do mundo dominou de tal forma a venda de livros que todas as editoras criaram dependência. Quando o livro eletrônico chegou, ele veio primeiro através do Kindle da própria Amazon. E a loja conseguiu impor seu preço: US$ 9,90 por livro. As editoras não tiveram força para resistir. Esta dependência não ocorreu nas editoras brasileiras. A chegada do iPad era vista com alívio. Havia uma alternativa, um concorrente para o Kindle. Mas era, quase dois anos atrás, um desafio. Produzir uma edição de livro para o iPad saía por quase US$ 10 mil.

O preço veio caindo com o tempo, mas o custo de lançar uma versão eletrônica continua pertinente. Não basta pegar o arquivo de Word e submeter à Apple. Tecnicamente, nem é tão complexo. Mas pouca gente faz no mercado. Se envolver qualquer coisa de multimídia, o preço dispara rapidamente. Ou disparava. Livro eletrônico com multimídia virou coisa para o filho do vizinho. É preciso apenas um computador Macintosh (muita gente tem). O programa iBook Author é gratuito e trivial. Importa-se o texto do Word, dá para inserir galeria de fotos, quiz, vídeo, o que for.

A notícia não é necessariamente boa para editoras. O filho do vizinho pode compor o livro eletrônico e submetê-lo para venda na loja da Apple sem que nenhum editor o veja. Passa por cima do intermediário. Taí um livro que provavelmente não terá qualidade. Muito lixo será produzido. Mas para fotógrafos com vontade de experimentar, designers com projetos dentro da gaveta e autores de livros infantis, a porta se abre repentinamente. Era porta cerrada. Colocar sua ideia a venda, agora, está a uns dias de trabalho mais uns cliques de distância. O software só produz livro para iPad. Não funciona noutros tablets. Mas, depois dele, inúmeros clones vão salpicar.

Não há qualquer motivo para imaginar que o movimento afetará apenas editoras. Quem trabalha em redação sabe como é complexo desenvolver um produto jornalístico para o iPad e outros tablets. Existem poucos produtos no mercado e eles são, todos, muito caros. Para um jornal ou revista, o investimento é pesado. E, no entanto, em sua maioria oferecem mais ou menos os mesmos recursos de multimídia que já estão no iBook Author. O limite é um, e artificial. O programa só permite publicação na loja de livros, sem um sistema de assinaturas. A Apple também tem uma banca de revistas no iPad. Não há qualquer motivo para crer que o software não chegará também neste nicho.

É um programinha que abala as empresas que produzem os caros softwares de edição. O fato de estes programas serem caros também cria uma reserva de mercado. A turma do jornalismo amador que povoou a web com seus blogs, alguns muito bons, ainda estava fora deste mundo. Se quiserem produzir revistas e vendê-las como livros, podem começar agora. Se não, logo isso muda.

A diferença, no fim das contas, é que o iPad pertencia ao mundo profissional, capaz de investir grandes recursos. Este programinha, repentinamente, muda o jogo. Assim, o iPad se torna o primeiro tablet no qual grandes e pequenos podem competir. Destes pequenos, a maioria não crescerá. Mas, agora, tudo depende apenas da capacidade e talento de cada autor. Vai ficar divertido.

1 comentário

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Uma resposta para ““Pedro Doria: E o iPad se abre para amadores”

  1. Sylvia Lenz

    Brtfsfrits carta de alforria para autores liberados do pensamento único que impera neste país. Também teremos nosso poder de publicar livremente, sem m ditor censurando, impondo seu estilo esteretipado, acrítico, restringindo uso de imagens etc etc . A melhor, serão hipertextos, muldimídias! E tudo começou há mais de 500 anos, com Gutenberg a nos libertar dos dogmas católicos e fomentar a disseminação do saber pela palavra impressa!

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