Theo Angelopoulos (1936-2012)

No site do Estadão, Luiz Zanin escreveu sobre Theo Angelopoulos, que faleceu nesta terça-feira, 24 de janeiro:

Com 76 anos, o diretor grego Theo Angelopoulos, autor de filmes notáveis como Paisagem na Neblina e O Passo Suspenso da Cegonha, morreu em consequência de um atropelamento. O cineasta foi atingido por uma moto, e, levado ao hospital com hemorragia cerebral, não resistiu aos ferimentos. O dado que torna a notícia ainda mais  pungente é que Angelopoulos foi vitimado enquanto rodava um filme sobre a grave crise econômica que se abate sobre o seu país.

Apaga-se assim a vida de um dos mais importantes cineastas contemporâneos, um dos poucos artistas verdadeiros dessa arte comercial, tão banalizada pela indústria do entretenimento.

Angelopoulos chegou a ganhar a Palma de Ouro em Cannes em 1998 por seu A Eternidade e um Dia. Realizou cerca de 15 longas-metragens e vários curtas, obra relativamente sintética porém muito marcante. Os principais são A Viagem dos Comediantes; Paisagem na Neblina, de 1988; Um Olhar a Cada Dia, de 1995; Viagem a Citera, de 1984; O Passo Suspenso da Cegonha, de 1991 e a Trilogia – O Vale dos Lamentos.

Angelopoulos nasceu em Atenas em 1935 e fez estudos de Direito antes de aprender cinema na França, no célebre IDHEC (Institute des Hautes Études Cinématographiques). De volta à Grécia, tornou-se crítico de cinema e, em seguida, realizador. Influenciado pelas ideias de Bertolt Brecht, planejou compor um grande afresco histórico do seu país, dos anos 1930 (Dias de 36, evocando a morte de um líder sindical) aos tempos mais contemporâneos, com Os Caçadores (sobre a burguesia) e Os Atores Ambulantes.

Em sua trajetória, Angelopoulos foi infletindo ligeiramente o ângulo do seu interesse. Dos primeiros filmes abertamente políticos, e testemunhos de uma época de turbulência, passou a um enfoque mais pessoal, mas no qual a História ocupava um lugar importante no quadro de referência. A fase final refletia uma busca mais madura e espiritual. Mas o filme que rodava quando a fatalidade o colheu, mostra que sua preocupação com o real, com a dramaticidade do real, continuava intacta. Em sua mais grave crise da era moderna, a Grécia perde assim esse olhar lúcido de seu artista maior.

Sua estética, baseada em planos longos e movimentos de câmera suave, não contribuíram para que se tornasse particularmente popular. No entanto, Angelopoulos foi sempre muito bem agraciado pela crítica. E pelos festivais de cinema, em especial os mais importantes entre eles.

Alexandre, o Grande venceu o Leão de Ouro do Festival de Veneza. O mesmo festival lhe deu o Leão de Prata por Paisagem na Neblina, uma obra-prima. Com Um Olhar a Cada Dia, venceu o Prêmio Especial do Júri em Cannes, o mesmo festival que, no ano seguinte, lhe daria seu prêmio máximo, a Palma de Ouro por A Eternidade e um Dia.

Angelopoulos esteve no Brasil em 2009, homenageado pela Mostra de São Paulo em sua 33ª edição. Antes, a Mostra havia realizado uma retrospectiva de seus filmes, até então pouco divulgados entre nós. Nesse ano apresentou aqui seu A Poeira do Tempo, seu último longa-metragem concluído.

Em sua visita a São Paulo, filmou no Metrô o episódio Céu Inferior, do longa O Mundo Invisível, ainda inédito comercialmente, apresentado na Mostra de Cinema do ano passado.

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