«Há editores maravilhosos, uns assim já para o assado, e outros militantemente merdosos»

Reproduzo aqui entrevista do livreiro Changuito que encontrei no blog Tantas Páginas:

Fica no nº 11 da Rua Cecílio de Sousa, em Lisboa, e está aberta de segunda a sábado, das 10h às 19.45h. Para quem quiser ir de metro, a estação mais próxima é a do Rato (linha amarela). Se preferir o autocarro, pode apanhar o 758, que passa no Príncipe Real, embora o 773 e o 790 também possam deixá-lo lá perto. Também se pode ir a pé, ou de trotinete, e chega-se mais depressa. Chama-se Poesia Incompleta e é a única livraria (apenas de) poesia do país, sendo pouco certo que tenha congéneres para lá de Badajoz. O seu sócio principal, patrão, empregado, moço de fretes e fumador com estilo ostenta o nome de guerra Changuito e além de ser uma pessoa com boas ideias é ainda um livreiro de boas práticas. Propusemos-lhe entrevista e não se fez rogado exprimindo-se, de preferência, em verso livre.

Agradecemos a Changuito a disponibilidade manifestada. Pela nossa parte, estaremos sempre disponíveis para publicitar quem assim exerce na área da «formação cívica».

PT. Como é que lhe surgiu esta ideia, a priori um tanto louca, de uma livraria exclusivamente dedicada à poesia? Inspirou-se nalgum caso que tenha conhecido no estrangeiro?

C. A ideia surgiu da necessidade, enquanto leitor, de encontrar livros que não encontrava noutros lugares. Loucura parecia-me não o fazer. A poesia, creio que só suplantada pelo teatro, é o que dizem ser menos vendável, mas, que diabo, há sempre gente que se vai interessando. E, felizmente, não falo só de pessoas dos meios literário-académicos. Ouço e leio, muitas vezes, que só no meio há leitores. Tenho encontrado casos vários que contrariam esta ideia. Leitores que estão a começar bibliotecas, gente que constantemente está a fazer dezoito anos e que tem margem de encantamento; outros, que estarão a meio da sua vida, e se acostumaram a ler poesia, a viver com ela nos intervalos da prosa; felizmente, outros ainda, com setenta, oitenta ou noventa anos que continuam procurando aquele livro que tiveram e já não têm, ou que procuram poetas novos.

Sabia da existência de algumas, mas não conhecia fisicamente nenhuma.

PT. Pode tentar definir o público da Poesia Incompleta?

C. Na resposta acima está a definição menos má que me ocorre.

PT. Já agora, porquê Poesia Incompleta?

C. Estive indeciso entre dois nomes: Poesia Incompleta ou Poesia Toda. O segundo, obviamente, por homenagem a Herberto Helder. Acabei por escolher o primeiro por achar mais acertado. Nem que todo o dinheiro do mundo me viesse parar às mãos, e com ele eu pudesse comprar todos os títulos de todos os catálogos que me interessam, e mesmo que o doutor Cavaco me oferecesse o Estádio Nacional, esta ideia de livraria ficava completa. Depois, na incompletude encontro um certo encanto. E o livro que reúne a obra poética de Mário Dionísio chama-se Poesia Incompleta.

PT. A sua actuação promocional na net é bastante intensa. Que peso representam na economia da sua livraria as vendas à distância?

C. Sinceramente, não faço ideia.

PT. É conhecido no meio por ser um livreiro de «boas contas», pagando aos fornecedores a pronto. A poesia é um bom negócio?

C. Instituiu-se uma estranha prática em Portugal, pelo que me dizem os editores: livrarias que não pagam a editoras. Acho estranho. As boas contas, para mim, são o normal. Regra geral, com os descontos em Portugal, se vendo um livro de 10€, só 3€ é que ficam para a livraria. Tenho, em quase todos os momentos, isso bem presente na cabeça.

Esta livraria é um óptimo negócio: não tem dívidas a fornecedores, nem impostos em atraso. Por outro lado, é assente na mais estúpida das premissas: o senhor da limpeza, o telefonista, o livreiro, o gerente de compras, o director de conteúdos para a internet, o publicitário, o agente de ligação com a imprensa, com editoras, até com alguns membros do poder político, é o mesmo e não recebe salário.

PT. A sua relação com a poesia, além da de leitor e livreiro, passa também por dizê-la em público. Que importância atribui a essa actividade no mundo da poesia? Trata-se de divulgação ou (re)criação? Uma prática lateral e periférica ou central? Dizer um poema é interpretá-lo, em sentido forte?

C. Não sei que importância tem ou se não tem nenhuma. Sei que há poetas que não suportam ouvir os seus poemas ditos e outros que gostam. Uns que, ao lê-los em público, os melhoram e outros que os assassinam. Acho que pode haver divulgação, sim, e (re)criação. Depende de quem o faz e, sobretudo, parece-me, depende mais ainda de para quem a leitura é feita.

Gosto de ler em voz alta. Há um prazer nisso, em sentir a língua como coisa viva, audível, plástica, moldável.

PT. Como diseur, de que modo se situa em relação às duas grandes referências históricas em Portugal, João Villaret e Mário Viegas? Além destes, houve algum outro performer de poesia que o tenha marcado?

C. Além de gostar muito de ouvir o Mário, e de achar brilhantes as leituras de Maria do Céu Guerra de Fernando Pessoa, Alexandre O´Neill, David Mourão-Ferreira, João Pedro Grabato Dias (nota de declaração de interesses: a supra citada é a minha querida mãezinha), parecem-me definitivas as gravações que Luís Miguel Cintra fez de Ruy Belo. Às vezes tenho saudades de ouvir Joaquim Castro Caldas, já morto, António Poppe e a sua jukebox de emaranhar poemas, ou Nuno Moura lendo as suas Letras Para Dance Music. Mas há muita gente que ilumina o que lê, que me parece ser a principal função de quem o faz publicamente. Alguns casos: Richard Burton lendo Gerard Manley Hopkins e John Donne; Chico Anysio lendo Ascenso Ferreira. Autores como Mário Cesariny, Dylan Thomas, Jorge Luis Borges, Gertrude Stein, León Felipe, Allen Ginsberg, Antonio Cicero, Sylvia Plath, Herberto Helder, entre outros, lendo-se trazem claridade ao meu entendimento. Muito frequentemente ouço e volto a ouvir Galáxias, de Haroldo de Campos, o livro milagre do qual ele gravou, creio, 16 faixas/poemas. Mas, creio, a memória mais antiga de ouvir alguém que não me era próximo a dizer-se terá sido, aos dezoito ou dezanove anos, João Cabral de Melo Neto. A poesia dele pareceu-me imediatamente mais compreensível.

PT. Que palavra prefere para descrever essa actividade? Leitor, recitador, declamador?

C. Não tenho preferências, se a pessoa o fizer bem até lhe pode chamar hóquei em campo.

PT. Também vende discos de poesia?

C. Sim, em várias línguas.

PT. Até onde vai a latitude da sua noção de poesia? Até à poesia sonora e experimental? Até às «letras de canções»?

C. Sim, claro. Para mim, ouvir um texto dadaísta, um poema experimental ou sonoro, ou mesmo, em certas ocasiões um poema concreto, faz com que essa arte anotada, ou apenas sugerida no papel, às vezes só como um enigma gráfico, ganhe uma outra força, bem maior, mais reveladora mas não menos misteriosa, tornando assim a minha experiência como ouvinte mais completa do como leitor silencioso.

Em todas as casas portuguesas-sem-certezas se devia ouvir Kurt Schwitters.

João Gilberto – só com o tratamento que dá a cada sílaba -, e com as suas letras, Caetano Veloso, Linhares Barbosa, Jacques Brel, Noel Rosa, Amália Rodrigues, Cole Porter, Fausto Bordalo Dias, Chico Buarque, fizeram mais pela poesia do que tantos poetas cujos nomes agora não recordo.

PT. No mundo da poesia muitas vezes os livreiros fazem também uma perninha na edição. É o seu caso?

C. Tive a sorte de três amigos, radicalmente diferentes, me permitirem editar três livros, também eles muito diferentes entre si. O primeiro de Miguel Martins, o segundo de Manuel de Freitas, e o mais recente de António Barahona. Por questões económicas, é uma actividade secundária, nesta livraria. Mas, ainda assim, feita com amor e alguma teimosia. Os livros não são distribuídos. O único ponto de venda é aqui.

PT. Tem um iPad? E Kindle? Como vê o futuro do livro de poesia em papel num mundo tomado de assalto pela revolução digital e pelo download pirata?

C. Nem um, nem outro. Tive cães e gatos a que podia ter chamado kindle ou ipad, mas agora acho que já vou tarde. Parece-me que os leitores de poesia, como os espectadores de futebol gostam de ir aos estádios, terão sempre prazer em ter um livro, folheá-lo, marcá-lo, emprestá-lo.

Será, parece-me que já o está a ser, uma realidade que alterará o comércio das bestas céleres (para usar um termo de Alexandre O´Neill). O livro passará a ter um trajecto diferente e que pode não passar sequer por livrarias em linha. Pode ir directo de editores a leitores. No entanto, acho que os livros como os de poesia, bem como as livrarias especializadas, sejam elas quais forem, terão vida longa. Mais rapidamente vejo os grandes retalhistas a sofrerem com as livrarias em linha, e a terem de modificar as suas estruturas, do que fechar uma grande livraria de viagens, de livros policiais, de arte ou de poesia. Vejo, por exemplo, o Rui Pedro Lérias, da Loja de História Natural, falar dos livros que vende com uma intimidade que não encontro paralelo em lado nenhum. Ouço qualquer das pessoas que compõem o magnífico trio da Letra Livre e penso que com eles posso ficar a saber alguma coisa do muito que eles sabem. Passa-se o mesmo com o Luís Gomes, da Artes & Letras, um navio ancorado no Largo Trindade Coelho, disfarçado de livraria.

PT. Como vê fenómenos como a «associação» entre a Assírio & Alvim e a Porto Editora, a crise de editoras de perfil mais literário e exigente, ou a deslocação da edição de novos poetas para micro-editoras como a Mariposa Azual, a Averno, a Língua Morta ou a Tea for One?

C. Se com essa associação a Assírio tiver a vida ligeiramente mais facilitada, louvemos o senhor Teixeira. Se, ao fim de uns tempos, a Porto deixar de perceber o que tem nas mãos ou quiser transformar a vocação da Assírio noutra coisa, aí o quadro ficará mais triste.

Que a Leya, com seus geniais gestores de produto, deixe esgotar Manuel Gusmão, Luís Miguel Nava, Antero de Quental, António Nobre, para falar só de alguns, e não re-imprima é, para mim, incompreensível. Já não falo pela questão da qualidade literária, ou da necessidade de uma construção de um cânone. Mas, de forma mais cínica, pela possibilidade de terem em mãos produtos de vida e venda longas.

A crise é naturalíssima, se pensarmos que editoras médias, com um frequente ritmo de edições, empregadoras de várias trabalhadores, que têm gastos com gráficos, tradutores, direitos, com despesas grandes de tipografia, boas pagadoras de impostos, têm permanentemente livrarias e distribuidoras não pagando os livros que encomendam. Dito assim, não me parece muito complicado de entender.

É claro que há políticas culturais que podem ser levadas a cabo que ajudem a criar ou a melhorar a relação das pessoas com o livro e com o seu consumo, como com a arte em geral, mas por muito que essas políticas existam, nenhuma editora sobreviverá se os livros lhe não forem pagos.

Sobre a circulação ser restrita, bom, não sei ao certo, mas parece-me que a arte, mais concretamente a literatura, mais especificamente a poesia foram, são e serão sempre matérias de interesse marginal. Por marginal, aqui, quero dizer só pouco central. Se pensarmos que quase metade da população do mundo não tem acesso a água, aí sim, aí falamos de um problema central. Se falarmos de fome, de saúde pública, de desemprego, continuamos em assuntos centrais. Mas por estes, mais laterais, parece-me, houve sempre uns quantos, não muitos, que se interessaram. Há um poema de Wislawa Szymborska que fala disso lindamente. Não é mau, nem bom. Ninguém parece espantado ou incomodado pelo facto de o aeromodelismo ou a numismática não serem diariamente capas de revista. Que esperamos de um escritor ou de um editor sério? Que apareça nu nas páginas centrais de um jornal? A literatura, com tudo o que a rodeia, a escrita, a rasura, a maturação e, no último momento, a edição, não pode ser um jogo de abrir e fechar pernas, de aparecer semi-vestido, revelando carecas, brincos ou tatuagens, só para vender mais uns livros.

Desde a Grécia, disse-me gente sábia, que se fala na crise do teatro. Mal ou bem, o teatro continua sendo feito e visto. O mesmo se passa e passará com a poesia, a sua edição e o seu consumo.

Micro-editoras é um termo curioso, não sei se justo, e que revela mais quem dele fala do que quem o faz. A Mariposa Azual imprime 300 exemplares, às vezes 500 exemplares, de uma primeira edição. Se compararmos com as inglesas Faber & Faber ou a Penguin, ou as espanholas Visor ou Hiperión, que, às vezes, imprimem 1000 exemplares, não me parece uma tão grande desproporção. Pelo contrário, acho até estranho primeiras tiragens portuguesas assim.

A & etc fez, há mais de trinta anos, de vários títulos, tiragens de 1200 ou de 1000 exemplares. Com as suas razões, Vítor Silva Tavares, mestre dos mestres, foi reduzindo os números.

Se a 50kg, a Artefacto, a Averno, a Black Sun, a Língua Morta, a Tea For One, ou a & etc, entre outras, fizeram ou fazem tiragens reduzidas é por, felizmente, terem percebido que vale mais esgotar um livro do que deixá-lo apodrecer num armazém ou guilhotiná-lo. Parece-me uma visão inteligente, ponderada, de alguém que conhece o espaço que têm livros como os que editam na maior parte das livrarias.

Há interesses, cumplicidades, visões do mundo que aproximam ou não as pessoas, como em qualquer outra actividade. Se um tipo tem uma editora e edita um autor que lhe parece bom e se a isso se junta uma afinidade entre ambos, melhor. Não é necessário que assim seja, mas é saboroso.

PT. Como perspectiva o actual panorama do mercado livreiro, da distribuição ao circuito de venda?

C. Há editores maravilhosos, uns assim já para o assado, e outros militantemente merdosos. No sector da distribuição, tirando a Dinalivro, não conheço nenhuma distribuidora portuguesa que funcione bem. Em relação às vendas, tirando uma ou outra livraria a que vou com vontade e gosto, faço uma via crucis semestral para me horrorizar. Lembro-me sempre dos versos de Sá de Miranda que dizem M´espanto às vezes, outras m´avergonho.

PT. Como vê a situação da crítica de livros de poesia na imprensa hoje, e sobretudo que análise faz da evolução da situação de há algumas décadas a esta parte?

C. Antes um Gaspar Simões no papel, do que dois cortezes pelo ar.

PT. Recebe muitos poetas na sua livraria? Os poetas compram livros? Quem compra mais: os poetas ou os críticos?

C. Os poetas, alguns, sim, visitam a livraria, compram, perguntam, sugerem, encomendam, ensinam. Os críticos são pessoas atarefadas, têm vidas, colóquios, artigalhada, tirando um ou outro, nunca cá entram. E, parece-me, não precisam. Recebem livros de oferta. Soube de um, há pouco tempo, que se queixava de ter poucos livros oferecidos. Também, creio que ser justo não esquecer, os poetas portugueses (já sobre isso escreveu acertadamente Nuno Moura) são todos, ou quase, ricos, riquíssimos, com reformas douradas, regalias do Pen Clube e do Automóvel Club de Portugal. No que concerne aos críticos, ou à sua maioria, é gente que escreve para comer, com toda a dignidade e pressa que isso acarreta.

PT. Somos mesmo um país de poetas?

C. Não, deus nos livre. Ou sim, somos um povo de poetas, quase na mesma medida em que somos também um povo de taxistas com vocações pedagógicas, empregados de mesa filosofantes, carteiristas desconfiados, deputados semi-analfabetos, administradores sem pasta com pasta. Habitantes com vantagens e desvantagens, como os ornitorrincos ou os mocassins. Temos um admirável território, pequeno mas pouco problemático, um rectângulo onde, ainda e apesar de tudo, tanto se pode fazer um país ou, hipótese também divertida, construir um atol para experiências nucleares.

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