O Rio é tão longe

Resenha de Benicio Medeiros sobre O Rio é tão longe, de Otto Lara Resende, publicada no blog do Prosa Online:

Na fria madrugada de Bruxelas (ou “Bruxa”, como o missivista gosta de referir-se à capital da Bélgica), enquanto a família dorme, Otto Lara Resende senta-se diante da sua velha Olivetti e acende um cigarro. A inspiração lhe chega rápido. Em breve terá escrito algumas dezenas de páginas a serem enviadas a amigos do Brasil e de outras partes do mundo. Ele próprio se espantava com tamanha fecundidade, e parecia se orgulhar disso. Em carta de fevereiro de 1958 escreve a Fernando Sabino: “Não lhe conto o número de folhas que já enchi com minhas cartas da Europa porque seria escandaloso, você nem acreditaria. Só verifiquei esse número ontem, quando iniciei um novo bloco de papel (cada bloco tem cem folhas). É um esforço brutal, que passa despercebido. Por um lado, me senti confortado, concluí que escrevi à beça. Se eu fizesse um diário, em lugar de cartas, posso lhe garantir que seria mais de um alentado volume impresso.”

Modéstia do Otto — seria muito mais do que isso. Se só as cartas que escreveu a Sabino renderam um livro de mais de 400 páginas, imagine-se se fosse possível reunir a correspondência enviada por ele, ao longo dos 70 anos de vida, a todos os amigos e conhecidos! Na parte que coube a Sabino, contam-se 93 cartas, algumas tão compridas como uma novela — isto é, caso não computemos a profusão de textos adicionais que só não podemos chamar de notas de pé de página porque ocupam também as laterais do papel e o resto de espaço disponível.

A primeira carta, datada de 6 de janeiro de 1944, foi escrita em Belo Horizonte. Otto tinha então 22 anos; Sabino, 23. Seguem-se a correspondência de Bruxelas, onde o missivista serviu como adido cultural na embaixada do Brasil (1957-1959); as cartas do Rio de Janeiro, quando era Sabino que estava morando no exterior (1964-1965); e as escritas para o Rio de Lisboa (1967-1970), com Otto novamente na função de adido cultural — ou “adido e mal pago”, como gostava de dizer.

Supõe-se que esse longuíssimo diálogo feito de papel tenha se interrompido de repente, em 1970, porque a partir daí os dois amigos se fixam definitivamente no Rio, e o telefone vai substituir a epístola. Otto, por sinal, foi também um fã compulsivo do telefone, embora mantivesse relação de amor e ódio com a invenção de Graham Bell. No exterior, ao contrário, como acontecia desde os tempos de Pero Vaz de Caminha, a carta ainda era o veículo ideal. Pelo menos na época em que Otto serviu em Bruxelas, uma ligação telefônica para o Brasil era algo de resultados tão imponderáveis quanto a comunicação telepática.

De todo modo, deve-se ao zelo fraternal de Fernando Sabino o fato desses preciosos relatos terem chegado intactos até nós. Humberto Werneck, responsável pela organização do volume, informa na introdução que era desejo antigo de Sabino publicar a correspondência do amigo, que guardara por décadas com tanto carinho. Otto, no entanto, sempre foi contra. Otto morreu em 1992, Sabino em 2004. A coleção foi parar no Instituto Moreira Salles. E aí descobriu-se o tesouro. Um tesouro, realmente. As cartas de Otto Lara Resende constituem, antes de tudo, um grande painel de época. Fernando Sabino chegou a dizer que elas representam “uma parte do melhor de sua obra”. E de fato, pelo valor literário e documental, podem muito bem ser postas lado a lado à produção ficcional e jornalística do autor.

Tudo de relevante que aconteceu no Brasil e no mundo foi devidamente registrado por ele. No índice onomástico constam mais de uma centena de nomes citados — de personalidades da literatura, da política e da diplomacia a desconhecidos candidatos a escritores em busca de algum favor. Ele se considerava um “tagarela impenitente” — “um incorrigível epistológrafo”. Aborda minudências e grandes temas com igual interesse, pergunta por tudo e por todos, nunca lhe falta assunto. Em geral o tom da correspondência é ameno. Só eventualmente, contrariando sua decantada cordialidade, o signatário não se furta a chamar de “canalha” ou “filho da puta” algum desafeto. Ou a xingar, revoltado, aqueles que, como Hélio Pellegrino, Paulo Mendes Campos e o próprio Sabino, não respondiam ou custavam a responder — para ele o pior de todos os crimes — as suas missivas.

Dizendo-se um homem triste e carente — lamentações típicas dele, que de resto sempre fizeram parte do seu folclore pessoal —, Otto faria das cartas, nas longas noites europeias, uma forma de sentir-se menos só, desfrutando simbolicamente da companhia dos amigos distantes. E também uma maneira de fazer aquilo de que mais gostava — escrever — sem maiores compromissos. Se a atividade de ficcionista lhe era confessadamente torturante, nas missivas põe-se inteiramente à vontade, escrevendo o que lhe vem à cabeça com total desenvoltura e sem resguardo. Merecem registro a descrição das visitas imaginárias que lhe fazem em Bruxelas e em Lisboa amigos já mortos, como Jayme Ovalle e Lúcio Cardoso, e as comoventes tentativas de abandonar o vício do cigarro, sobre o que escreve um verdadeiro tratado de psicanálise.

O bom mesmo, nas cartas de Otto, é que elas são uma delícia de se ler. São divertidas, informativas e enriquecedoras. E têm ainda o valor agregado de representarem para o leitor uma cada vez mais rara chance de contato com um gênero literário condenado à morte pelas circunstâncias da modernidade. Na era do Twitter e do Facebook, ninguém escreve mais cartas, e um torpedo de celular jamais alcançará a posteridade. Isto redobra a importância da obra epistolar de Otto. Suas cartas são testemunhos de um mundo que se foi junto com ele, quiçá menos pragmático que o de hoje, quiçá mais inteligível, onde parecia haver mais tempo e vontade de se cultivar a reflexão e o amor pelos amigos.

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