O exemplo de Dilma – Arthur Dapieve

Coluna de Arthur Dapieve [via Conteúdo Livre]:

Talvez Dilma Rousseff não seja exatamente a “faxineira ética” temida tanto pela situação, que perderia muitas boquinhas, quanto pela oposição, que perderia a sua única bandeira. Dois pesos e duas medidas foram usados nos casos de Antonio Palocci, ex-ministro da cota de Lula, e de Fernando Pimentel, velho aliado da presidente. Ambos foram vistos no mesmo terreno da promiscuidade entre o público e privado — aética, mas não necessariamente ilegal — a bordo de assessorias milionárias. Palocci, na mais recente versão, “saiu porque quis”. Pimentel continua na Esplanada.

Há relatos, porém, de que Dilma não perde o sono quando um dos ministros que não escolheu é pego em “malfeitos”. Vê, nos escândalos de corrupção ou mau uso do dinheiro público, uma oportunidade de ir deixando o ministério mais à sua feição. Ela prefere técnicos — como ela própria — do que políticos. Tem notória aversão a negociar com o Congresso. O que é péssimo, já que a democracia precisa do equilíbrio entre os poderes, mas não de todo incompreensível, já que o Legislativo foi reduzido a uma vassalagem vampiresca por Fernando Henrique e por Lula (nos estados, deu-se o mesmo). O modo como as “bases aliadas” se atiram a cargos e verbas dá náuseas.

São apenas relatos sobre sua satisfação íntima porque é difícil saber o que vai na cabeça de Dilma. Esta, aliás, é uma das características com que hoje mais simpatizo na presidente. Sua discrição era necessária depois de oito anos de Lula. Este dizia o que pensava e até o que não pensava desde que se mantivesse em evidência, estimulando um culto à sua personalidade que, se não chegou nem perto do nível do dos Kim norte-coreanos, excitou o apetite das “bases aliadas”. À sombra do grande líder seria mais fácil roubar em paz. Dilma não precisou estar na mídia o tempo todo para fechar seu primeiro ano de governo com popularidade superior a seus antecessores estelares. Bastou tocar o barco que herdou de Lula e este, parcialmente, de Fernando Henrique. No entanto, há uma área na qual eu até gostaria que Dilma fosse menos discreta. Lula melhorou quase de imediato a vida material de dezenas de milhões de pessoas, com programas mais agressivos de redistribuição de renda, mas a médio prazo prestou um desserviço a essas mesmas pessoas, ao afetar desprezo pela educação e pela cultura, desprezo que não acredito que ele de fato tivesse. Parece-me que era mais uma frente da sua guerra de egos com Fernando Henrique, pintado como sendo intelectual demais. Acusação grave num país que, pela falta de condições de estudo para as classes populares, erigiu uma “moral de escravo”. No entendimento do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, ela surge quando fraquezas são travestidas de força. No caso brasileiro, bom seria ser chucro. E nem nossa elite econômica prima pela cultura…

Dilma é diferente. Ela gosta de ópera, gosta de ler, gosta de teatro. Em abril do ano passado, escapou da imprensa e dos grandes aparatos de segurança, para ir ao CCBB de Brasília assistir à peça “A Lua vem da Ásia”, baseada no romance homônimo do mineiro Campos de Carvalho e estrelada por Chico Diaz. Segundo nota publicada por Ancelmo Gois no último domingo, ela recentemente enviou ao poeta, tradutor e imortal Ivan Junqueira um cartão manuscrito elogiando a “Poesia reunida” dele: “Meu caro Ivan, a vida, como você escreveu, é pior que a morte; acreditar nisso nos dá força para compartilhar cultura e construir um país melhor…” Bacan saber de algo assim.

O que digo é que Dilma poderia ser menos discreta nisso, deixando vazar mais amiúde o seu apreço pelas artes. Ela precisa providenciar condições de trabalho para o Ministério da Cultura, claro, mas o poder de seu exemplo pessoal pode atingir dezenas de milhões de eleitores e simpatizantes de modo distinto, mais imediato e profundo. A presidente sinalizaria à população que ela não deve se contentar com os bem-vindos frutos do avanço econômico e sim deve investir também no próprio bem-estar emocional e intelectual  que não raro nasce de um mal-estar urdido pelo artista.

Como diz “Comida”, dos Titãs, “a gente não quer só comida/ A gente quer comida/ Diversão e arte/ A gente não quer só comida/ A gente quer saída/ Para qualquer parte…” A música de Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sérgio Britto, lançada no LP “Jesus não tem dentes no país dos banguelas” — boa imagem, aliás, para o conceito de “moral de escravo” — traz esse achado: associar diversão e arte a uma saída, uma saída para qualquer parte, não importa qual, desde que haja uma. Quando o disco foi lançado, em 1987, a ilusão de prosperidade com o congelamento de preços pelo governo José Sarney no ano anterior já tinha caído por terra. O país estava de volta à dura realidade da hiperinflação, com seus efeitos perversos na distribuição de renda. A situação só começaria a ser revertida com o Plano Real, em 1994, durante o governo Itamar Franco.

Hoje, apesar de bater a cabeça no teto da meta, a inflação está domada, e as pessoas vivem melhor. Contudo, há que se chover no molhado: para garantir que o Brasil continue avançando economicamente — e, logo, intelectualmente — é preciso que o Estado invista melhor em educação e que o cidadão invista mais em cultura. Com seu exemplo, Dilma pode ser crucial nisso. Um pouquinho menos de discrição, por favor.

Deixe um comentário

Arquivado em Crônica

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s