“As duas expressões de Clint Eastwood”

Reproduzido do blog do Instituto Moreira Salles. O texto é de José Carlos Avellar:

Nesta sexta-feira, dia 13, o Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro começa a apresentar uma grande retrospectiva de filmes de Clint Eastwood como ator e diretor.  O texto abaixo, de José Carlos Avellar, trata de alguns aspectos da interpretação e da direção de Eastwood. Clique aqui para ler também texto de José Geraldo Couto sobre essa mesma mostra.

Exagerar às avessas: a expressão que o ator Clint Eastwood usou certa vez para definir seu trabalho em Por um punhado de dólares talvez possa ser tomada para definir também o trabalho do diretor Clint Eastwood. No filme de Sergio Leone, no meio de uma atmosfera barroca, entre atores que interpretavam com expressões e gestos exagerados, Clint – como disse certa vez numa entrevista – decidiu exagerar ao contrário, não manifestar nenhuma emoção. Ao retornar aos Estados Unidos, primeiro como ator (e muito provavelmente em estreita colaboração com os diretores, como ocorrera com Leone) e em seguida como diretor (e então em estreita colaboração com seus atores), ele procurou trabalhar nesse mesmo contraste entre o muito e o muito pouco. Trouxe o personagem do western italiano para a cidade americana, do meio da ação para o ponto de vista de onde se vê a ação. O herói de gestos mínimos, que no princípio concentrava a atenção da câmera, passou a comandar o modo de ver da câmera. Clint pode então inserir uma nota pessoal na relação com os gêneros tradicionais do cinema americano, o western, o policial. Foi como se a experiência europeia tivesse permitido o distanciamento necessário para a compreensão da tradição da produção nascida em torno de Hollywood. A brincadeira irônica de Sérgio Leone – para ele, Clint era um ator de duas expressões, uma com e outra sem chapéu – talvez possa se estender ao gesto essencial da câmera dos filmes de Eastwood. Trata-se, de certo modo, de um exagero às avessas, se tomamos como referência a mobilidade barroca da câmera nos filmes de ação de hoje, ou de um aproveitamento da lição do cinema de prosa americano das décadas de 1940 e 1950: manter a câmera parada, discreta, quase invisível, para concentrar a atenção do espectador no que se move diante dela. Talvez exatamente por isso, pela câmera quieta como um estranho sem nome, a imagem que o espectador guarda do ator e diretor resulta dos tipos que ele interpretou (em especial o Dirty Harry que criou com Don Siegel) e não do seu modo de interpretar, e também não das histórias contadas nos filmes mais recentes. O personagem que Clint criou com Leone e retocou com Siegel foi pouco a pouco se retirando da cena para atuar por trás da câmera, mas a ideia de se expressar por meio do conflito entre o gesto exageradamente amplo e o exageradamente mínimo continuou presente como técnica de trabalho para dirigir os atores (por exemplo, a tensão entre o modo de atuar de Sean Penn e o de Tim Robbins em Sobre meninos e lobos) e técnica do estilo narrativo (como em Os imperdoáveis, em Bird ou em Menina de ouro), quase como se a experiência do cinema pudesse ser reduzida ao confronto entre estar com e sem chapéu.

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