Fechamento da livraria Camões

Reproduzo aqui mensagem da professora Gilda Santos a respeito do fechamento da livraria Camões, no Rio de Janeiro, bem como as manifestações de alguns importantes estudiosos da literatura portuguesa, como os professores Jorge Fernandes da Silveira e Maria Lúcia Dal Farra. Ao fim deste post, encontra-se a reprodução da carta enviada pela administração da Imprensa Nacional-Casa da Moeda ao Sr. José Estrela, da livraria Camões.

Caros Colegas de Literatura Portuguesa:  

Recebi do nosso amigo José Estrela o arquivo anexo, relativo ao iminente fechamento da Livraria Camões no Rio, por decisão da atual administração da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, de Lisboa.

Fiquei chocada com a notícia, posto que, com argumentos que me parecem frágeis, é mais uma presença portuguesa a ser rasurada à nossa volta, corroborando o que penso ser uma acentuada miopia de Portugal face ao Brasil no que tange às questões culturais.

Não sei se partilham de minha perplexidade, mas, em caso positivo, peço que utilizem a capacidade de interlocução que possuem com figuras e entidades portuguesas de modo a questionar o caso e tentar que tal decisão, ao menos, seja reavaliada.   

Saudações,

Profa. Doutora Gilda Santos
(Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ / Real Gabinete Português de Leitura)
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De: Prof. Doutor Jorge Fernandes da Silveira
(Professor Titular de Literatura Portuguesa da UFRJ- Universidade Federal do Rio de Janeiro):

“De morte natural nunca ninguém morreu” (Jorge de Sena). Nem as palavras nem as coisas. Neste ano mau, mal começou, já são duas as casas portuguesas de cultura assassinadas. A de Eugénio de Andrade, no Porto, e a dos livros Camões, a Livraria, no Rio de Janeiro. Quem lhes escreverá a Crônica de Erros? Euros mal empregados, Eros desempregado, “[p]orque quem não sabe arte, não na estima.” (Os Lusíadas)? Quem lhes devolverá “As Palavras Interditas” (Eugénio de Andrade)? “Sei o que é a rua – diz a casa/ O que é não ter onde ficar/ de noite” (Luiza Neto Jorge). Quem lhes escreverá a Crônica de Erros? “Pertenço a gênero de portugueses/ Que depois de estar a Índia descoberta/ Ficaram sem trabalho (…)” (Álvaro de Campos). Quem há de lhes demonstrar que “(…) os poetas todos/ morrem sempre mais na [portuguesa] língua” (Fiama Hasse Pais Brandão)? Quem, contra a “crise” revoltado, há de lhes inscrever no epítáfio, à maneira de folha-de-rosto: “Nele tudo ousa/ Vai morrer imensamente (ass)assinado.”? (Herberto Helder)

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De: Profa. Doutora Maria Lúcia Dal Farra
(Professora Titular de Literatura Portuguesa da Universidade Federal de Sergipe e Pesquisadora 1B do CNPq; ex-professora da Universidade de São Paulo, da Unicamp e de Berkeley, USA).

Venho manifestar-me contra o fechamento da Livraria Camões do Rio de Janeiro e da Casa Eugénio de Andrade no Porto.
A Livraria é ponto de referência fundamental, umbigo dos estudantes de Literatura Portuguesa no meu país, desde um tempo em que nenhuma obra portuguesa era editada no Brasil e ela nos supria do que preciso fosse. Lembro-me que foi o Sr. Estrela a pessoa a fazer a ponte entre mim e a Imprensa Nacional Casa da Moeda para a publicação da minha tese de doutoramento, aí editada com o título A Alquimia da Linguagem: leitura da cosmogonia poética de Herberto Helder em 1986 – e veja-se que nem do Rio de Janeiro eu era, mas de São Paulo. Como se observa, a Livraria não era apenas um ponto de venda dos livros de que carecíamos, mas embaixada cultural de Portugal no Brasil.
O fechamento da Casa Eugénio de Andrade comprova tristemente o oposto do que a poesia desse emérito Poeta nos assegura: “Os amantes” não vivem “sem dinheiro” – essa a patética constatação dos dias dos euros.
Por tudo isso, venho me colocar contra esse estado de coisas que ignora a Cultura, ou que a trata como o primeiro “supérfluo” a ser descartado.
Atenciosamente,  Maria Lúcia Dal Farra
(Professora Titular de Literatura Portuguesa da Universidade Federal de Sergipe e Pesquisadora 1B do CNPq; ex-professora da Universidade de São Paulo, da Unicamp e de Berkeley, USA).

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De: Prof. Doutor Emerson Inacio
(Professor de Literatura Portuguesa na USP – Universidade de São Paulo)

Prezados e prezad@s,

Subscrevo a mensagem da Prof. Gilda Santos, minha professora na UFRJ, sobre o fechamento da Livraria Camões, no Rio de Janeiro.
[…]
Para os que não estudaram no Rio, informo que a Livraria Camões foi, antes da era da Internet, o único lugar em que encontrávamos materiais de Literatura Portuguesa. Assim, em termos de formação, memória e afeto, esta livraria faz parte da historia de muitos de nós e de nossos professores.

Emerson Inacio

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De: Profª. Doutora Maria Aparecida Rezende Mota
Instituto de História – Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) — Setor de Teoria e Metodologia da História

É lamentável que a Livraria Camões venha a ter suas atividades encerradas na cidade do Rio de Janeiro. Espero que o senhores reavaliem essa decisão tendo em vista a importância da livraria para todos aqueles que, como eu, dedicam-se a estudos e pesquisas em torno da História e da Cultura portuguesas.

Maria Aparecida Rezende Mota  

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De Profa. Doutora Zuleide Duarte
(Profa. Titular da Univ. Estadual da Paraíba – tese sobre a diáspora portuguesa)

1)
Prezados:
Tomei a liberdade de enviar também o meu protesto para vocês. Já vi esse filme no Recife quando fecharam uma livraria Camões que ficava contígua ao Gabinete Português de Leitura. Estrela foi uma espécie de “orientador” de leituras de toda a minha geração na UFPE(saudosos anos 70). Fico indignada com isso tudo porque sempre há uma tentativa de banimento dos estudos portugueses no Brasil. Há anos atrás, sob a batuta do professor Afrânio Coutinho entre outros, pretendeu-se retirar a literatura portuguesa dos currículos de letras. Hoje assistimos ao caos que certas grades apresentam, com um semestre de literaturas de língua portuguesa e outro no fim.
Sem falar no boicote de alguns docentes despreparados que acham não valer a pena. Ignorantes, uns; malévolos, outros.Vi recentemente em Lisboa fechamento de editoras e livrarias e uma pobreza grande no acervo (inclusive da Fnac e da Bertand).
Bom, perdoem-me tantas queixas.
Um grande abraço
zuleide duarte

2)
Então é assim que se inaugura o Ano de Portugal no Brasil?
Deixando Portugal morrer à míngua (Caetano-Língua)? Esse país que é gigante, que não cabe nas seus limites geográficos e por isto construiu um outro mundo? Então um cão danado, todos a ele? Que sanha saneadora é essa que ataca as poucas instituições que estão ligadas à difusão da cultura como se a “pérfida inimiga” fosse essa resistente e ardilosa forma de estar no mundo que se insinua com ares de dama romântica?
Tiram-nos o chão  e ficamos
“Sem teto entre ruínas”?
Ó países de avestruzes. Vamos desenterrar a cabeça e gritar o protesto pelo descaso, pelo desrespeito, pelo pensamento acanhado.
Abraços
zuleide duarte

De Profa. Doutora Beliza Áurea
(da Universidde Federal da Paraíba -UFPB)

Prezados
Fiquei muito triste.Além do espaço emblemático para os que gostam de cultura lusófona, A Camões foi , durante quase 20 anos, meu chão português quando morei no Rio, foi minha universidade aberta, onde bebia  a cultura lusófona . Por lá passava uma ou duas vezes por semana , ficava vendo as novidades e conversando com Sr. Estrela e Donana.
Triste e melancólico  fim!

“OH maldito o primeiro que no mundo
Nas ondas velas pos em seco lenho,
Dino da eterna pena do profundo,
Se a justa a justa lei, que sigo e tenho!
Nunca juízo algum alto e profundo,
Nem cítara sonora, ou vivo engenho,
Te dou por isso fama nem memòria,
Mas contigo se acabe o nome e glória.”

Camões.Os Lusíadas. Canto IV -102

Beijos e um feliz 2012.
Beliza Áurea

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De: Delia Cambeiro

Caros amigos,
perdoem-me, primeiramente, os que já receberam esta mensagem e os que não lidam diretamente com literatura, nem especificamente com a literatura portuguesa. Estamos divulgando uma “passeata de emails”, em protesto contra o fechamento da tradicional Livraria Camões, no Largo da Carioca, que, há anos, sob a administração do Sr. José Estrela, vem difundindo, não só a literatura, mas a cultura portuguesa no Rio de Janeiro. Com isso, esperamos que a Imprensa Nacional Casa da Moeda reveja sua atitude de encerrar as atividades dessa tradicional livraria. Se cada um de nos enviar um email, entupiremos a caixa da Imprensa Nacional e marcaremos, sem dúvida, nossa posição contra o encerramento de suas atividades. Como ex-professora de literatura portuguesa e como portuguesa, por decendência e também cidadã portuguesa, peço que enviem seus protestos. É simples: apenas escrevam que protestam contra o fechamento de tão fundamental núcleo e difusão da cultura portuguesa no Brasil, (por exemplo: “manifesto meu pesar em relação ao fechamento da livraria Camões, no Rio de Janeiro”). Enviem-no ao email incm@incm.pt . Já enviei meu protesto.
Agradeço antecipadamente,
Delia Cambeiro

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3 Comentários

Arquivado em Notícia

3 Respostas para “Fechamento da livraria Camões

  1. A cada geração, cabe retomar o bastão da geração anterior, sem deixá-lo cair. Fechar uma livraria como a Camões é interromper o fluxo que permite aos amantes da Cultura Portuguesa ter contato com o que de melhor Portugal produz. Não haverá substituto para o papel desempenhao pelo Poeta e Livreiro Estrela, que vai muito além dos limites físicos de uma pequena loja ! Em tempos de crise econômica, as primeiras vítimas são os que não podem se defender…Faço minhas as palavras dos que se elevam contra este atentado. Que os editores portugueses instalados no Brasil socorram este bastião das Letras, que sobreviveu ao regime militar brasileiro, ao salazarismo, aos tempos de hiper-inflação, e agora ameaça sucumbir diante da crise européia.
    Milena Piraccini Duchiade, Livreira

  2. Pingback: jardimsecreto : PORTUGAL

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