Entrevista de João Anzanello Carrascoza

Reproduzo entrevista de João Anzanello Carrascoza feita por Andrea Ribeiro para o jornal Rascunho. O livro de contos Espinhos e alfinetes merecia, por sinal, ter recebido maior destaque ao longo de 2011. Trata-se de uma das melhores obras do gênero publicada neste ano:

João Anzanello Carrascoza escreve porque tudo que nos cerca e nos diz respeito um dia encontrará seu fim — assim como o próprio livro no qual, como escritor, esteja trabalhando. E é assim, com essa afirmação serena, que o autor de Espinhos e alfinetes concluiu a entrevista abaixo, concedida, via e-mail, à jornalista Andrea Ribeiro. Carrascoza, para quem o prazer da literatura está em navegar sem destino, anarquicamente, também discorreu sobre o alcance das dores e das feridas do homem, adquiridas já durante a sua infância, explicou que influência exercem o mar e sua vida pessoal sobre sua obra literária, apontou soluções para o problema da leitura no Brasil e, entre outras coisas, indicou aos leitores os poetas e escritores de sua preferência.

• Os contos de Espinhos e alfinetes remetem, quase em sua totalidade, à infância. Apegam-se às lembranças, aos anseios, às fantasias e, especialmente, ao período de amadurecimento pela perda — da inocência, da vida, da família. Esse é o momento em que se sente o primeiro espinho?
Sim! A infância é um tempo mágico, em que vivenciamos, ainda que em meio às contrariedades, um processo de encantamento pelo mundo. Depois, adultos, cegamos para as belezas que antes nos deslumbravam e, aí, passamos o resto da existência em busca desse território perdido. Perdido, mas possível de reencontrarmos dentro de nós; às vezes, pela palavra. Nesse período, entre as descobertas admiráveis há uma que nos espanta e, desde cedo, nos obriga a aceitar a nossa condição: a certeza da finitude. Ainda nem bem pisamos aqui e já descobrimos que viver dói.

• Até que ponto as lembranças de sua infância influenciaram na escrita dos contos de Espinhos e alfinetes? O repertório do escritor afeta, necessariamente, o peso e o destino dos personagens?
Escrevemos aquilo que somos. Injetamos em nossos personagens a nossa visão de mundo, incluindo nela a nossa miopia. Tudo o que fazemos revela o nosso ideário e as nossas limitações. Os primeiros versos de Drummond em A flor e a náusea talvez resumam melhor esse sentimento: “Preso à minha classe e a algumas roupas,/ vou de branco pela rua cinzenta./ Melancolias, mercadorias espreitam-me”. E mais adiante: “Olhos sujos no relógio da torre”. Nossos olhos mirando-nos no espelho, ou mirando os outros, pessoas ou personagens, estão sempre sujos.

• No conto Sol, o senhor escreve: “A menina respirou fundo: queria crescer, ser suficiente para si, como eles. Mas ia doer. Já doía”. Amadurecer é algo dolorido?
O processo de amadurecimento é sempre dolorido. Ser maduro é, talvez, chegar ao ponto em que a dor — que nunca cessará —, não dói mais tanto.

• Em outro conto, pai e filho sofrem com a perda da mulher de suas vidas. “Eu sabia que a saudade o feria como um alfinete.” A literatura funciona como um alfinete, a cutucar feridas? Escrever sobre elas é, de alguma forma, catártico?
A literatura cutuca feridas, nossas ou alheias, e, nesse sentido, é um ato corajoso. É uma falta de medo perante a dor. Às vezes, somos movidos a escrever não pelos sentimentos que nos conservam, mas pelos que nos modificam. A perda é um desses agentes que têm um efeito transmutador. Não é o único, mas certamente é o mais poderoso. Não escrevo porque, deliberadamente, preciso tematizar minhas perdas, mas porque elas me afetaram mais intensamente nos últimos anos. Quando perdemos alguém, damos adeus também a quem fomos. Na verdade, estamos o tempo todo perdendo as pessoas das nossas vidas.

• A fluidez e a transparência da água, a cadência do mar e o sol também são pontos que, aqui e ali, alinhavam seus contos. Qual é a atração que o mar exerce em sua literatura?
O mar é o território primitivo, o habitat primevo, onde tudo começa e termina. Estamos nele, como na vida, convictos de que temos muito mar pela frente, mas sem saber o que vamos encontrar. E o mar pertence mais a quem está chegando. Quem já viveu muito vai se secando dele, já acostumado ao seu sal.

• Em uma entrevista ao programa de rádio Letras e Leituras, o senhor disse que escritores estão sempre contando as histórias que os encantam, que os obcecam. Quais são suas obsessões? Como elas se refletem em suas obras?
Um escritor não é a melhor pessoa para falar sobre a sua obra, já se sabe. Desde o primeiro livro de contos que publiquei, Hotel Solidão, até este Espinhos e alfinetes, é possível perceber quais são as minhas obsessões e também os meus alumbramentos.

• No conto Adão, o senhor faz uma homenagem à palavra. Ser apaixonado pelas letras, que, juntas formam uma idéia, é vital para um escritor. Quando as palavras começaram a fazer parte de sua vida? Em que elas modificaram sua forma de encarar o mundo?
Desde menino, amo as palavras. Elas dão contorno a nós, e ao mundo. Causam dor, feito espinhos e alfinetes. Mas, como agulhas, também podem ajudar a nos curarmos de nós mesmos. Ler e escrever são, para mim, viagens na lâmina das palavras (e do silêncio): felicidades clandestinas.

• Seus contos trazem uma espécie de “oralidade poética”. São escritos com frases fluidas, mas sempre elaboradas, com palavras bem escolhidas. “(…) e era o céu azul sobre as nossas cabeças, tão lindo! O céu de todos os dias, mas para se ver diferente, o céu que tirava o peso da gente no seu flutuar.” A poesia está sempre presente em sua vida? Quais são os grandes poetas da atualidade? E seus “poetas-referência”?
Há reservas colossais de poesia no cotidiano, basta que tenhamos olhos para desfrutá-las. Oswald de Andrade nos lembra dessa verdade, com um pequeno poema, quase um haicai: “Aprendi com meu filho de dez anos/ Que a poesia é a descoberta/ Das coisas que eu nunca vi”. A vida seria muito pobre se não tivéssemos esse olhar atento para os descobrimentos inesperados que a poesia proporciona. Drummond, Bandeira, João Cabral sempre foram referências para mim, são poetas que estou sempre relendo. Dos estrangeiros, admiro Maiakóvski, Dylon Thomas, Bashô. Dos contemporâneos, a poesia de Ferreira Gullar, de Antonio Cicero, me são inspiradoras. E tem os clássicos, que nunca deixo de revisitar: Shakespeare, Homero, Camões.

• O senhor finalizou Espinhos e alfinetes durante sua participação no programa de escritores residentes do Château Lavigny (Suíça), no ano passado. Como foi essa experiência? Em que medida ter se afastado do país foi importante para sua literatura?
Não é preciso se tornar um recluso para desenvolver um projeto literário. Ao contrário, escrevemos porque estamos em conexão com os outros, sozinhos ou entre a multidão. As residências são espaços onde podemos ter um convívio fecundo com escritores de outras culturas e, claro, tempo e condições favoráveis para acessar a nós mesmos. O isolamento é um estado em que podemos, de fato, usufruir de nossa companhia e, assim, ouvir a nossa própria voz.

• O imediatismo, a generalidade e a informalidade vêm tomando uma proporção assustadora na informação e nas artes — inclusive na literatura. Hoje, basta alguém ter um blog para se considerar, imediatamente, um escritor. Como o senhor vê este cenário? Leituras on-line e escritas ligeiras — mesmo que nem tão boas assim — representam um avanço para a literatura?
Todo tipo de expressão é legítimo e válido. Hoje, com a internet, democratizou-se a produção e a distribuição de literatura. Apesar de levar muita gente a se expressar, a buscar o seu estilo, esse cenário gera também uma avalanche de textos confessionais, de histórias rasas, que não atingem a condição de obra ficcional. No meio desse labirinto, como sempre, pequenos rios vão encontrar a sua foz. As veredas, para lembrar Guimarães Rosa, proliferam-se na imensidade do sertão.

• Quais são os escritores que o senhor lê, atualmente? Qual autor recomenda?
Leio tanto os contemporâneos, como Roth, Coetzee, Pamuk, Oz e Vila-Matas, quanto os clássicos Machado, Faulkner e Cortázar. Bom é poder embaralhar os autores, conforme o nosso desejo, a nossa vontade. Ir de um a outro, entrar em uma obra e sair por outra. Literatura é uma navegação sem rumo, o prazer está em singrar o alto-mar, em se acostar a pequenas ilhas ou mesmo atracar em cais desconhecidos.

• Escrever é vocação ou talento? O que é preciso ter — ou fazer — para se tornar um bom escritor? Que conselho o senhor daria a alguém que desejasse tornar-se autor?
Escrever é tentar se conhecer. Pode ser sonho ou fome. Disciplina e paciência são requisitos essenciais. Para quem está começando a caminhar, este ditado latino pode servir: “Apressa-te devagar”.

• O senhor costuma ler críticas literárias? Como reage a avaliações (positivas e negativas) de suas obras?
A crítica criteriosa é útil ao escritor, que pode ver confirmadas as suas virtudes e se conscientizar de suas deficiências. É fundamental que tenhamos interlocutores, de preferência não condescendentes. Só assim podemos nos aprimorar.

• O senhor também escreve literatura infanto-juvenil. Quais as diferenças em relação à literatura adulta (se é que elas existem) e os desafios para escrever para este leitor em formação?
A literatura é uma água só, que assume diferentes cores. Talvez a literatura infanto-juvenil seja mais azul, enquanto a adulta, pela sua profundidade, vai se tornando mais escura, às vezes de um azul quase negro. Quanto ao público, escrever é sempre um desafio, inicialmente, para si e, depois, para o outro. Só nos aproximamos do leitor se despejamos vida em nossas histórias, se entregamos a ele textos que respiram aventura humana.

• Quais caminhos o senhor indicaria para aumentar o número de leitores no Brasil, uma barreira que sempre se apresentou intransponível?
Leitor não é apenas aquele que lê livros, mas aquele que aprende a ler o mundo, para lembrarmos aqui de Paulo Freire e, acrescento, é também aquele que sabe ler os outros. Assim, o único jeito de aumentar os leitores (de livros) é antes ensiná-los a ler o mundo e a pessoas, o que só é possível por meio da educação (como projeto social) e por meio daqueles que já são leitores do mundo (num plano mais individual).

• A morte também ocupa o centro da sua literatura. De que maneira o senhor encara a questão da morte no seu cotidiano? Ela o preocupa?
Queiramos ou não, um dia o livro (que estamos escrevendo) termina. E é por isso que nós o escrevemos: porque tudo termina.

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