80 anos da José Olympio

Matéria reproduzida do site O Globo:

RIO – Se hoje Guimarães é Rosa, Carlos é Drummond e José é Lins do Rego, parte da culpa é de José Olympio (1902-1990). O editor paulista também não seria o que é não fosse a qualidade desses escritores. Mas foi seu faro que reuniu nomes que, se hoje estão entre os maiores da literatura brasileira do século XX, eram jovens autores nos anos 1930, quando encontraram em José Olympio não só um estímulo de um grande amante dos livros, mas as condições financeiras e de distribuição para chegarem aos leitores. A Editora José Olympio completa 80 anos amanhã como a casa dos grandes clássicos da literatura nacional, mas nasceu em 1931 com a marca de ousadia de seu fundador. Prova de que estavam certos o faro e as loucuras daquele homem que pagava direitos autorais adiantados e editava tiragens de milhares de exemplares para quem, na época, não sonhava em se tornar um clássico.

— José Olympio apostou na literatura nacional num momento em que o Brasil não era a bola da vez, e os temas relevantes vinham de Paris. Ele lançou a geração de 1930, toda a literatura moderna — afirma Maria Amélia Mello, editora da José Olympio desde os anos 1990.

Glórias e revezes

A ousadia de José Olympio teve glórias e revezes. Após 40 anos de sucesso, a editora passou por dificuldades de administração e foi encampada pelo BNDES em 1975. Rosa e Drummond mudaram de editora. Mas a José Olympio convalesceu, recuperando grandes autores que a tinham deixado, como Lins do Rego, Rachel de Queiroz, José Cândido de Carvalho e Augusto Meyer. Fez reedições primorosas de seus clássicos, com o apuro gráfico que fora sua marca, e, para 2012, tem projetos como a reedição da obra completa de Ferreira Gullar e um novo romance de Ariano Suassuna.

O reerguimento da editora também é motivo de comemoração, já que foi em novembro de 2001 que ela foi comprada pelo grupo Record, de Sérgio Machado. Com o benefício dos custos de impressão e distribuição que um grande grupo editorial pode oferecer, ela pôde manter o foco na tradição de seus escritores — o que, para Machado, perdera-se no meio do caminho com a edição de muitos tipos de livros. Hoje, a editora publica autores estrangeiros e livros infantis — seu grande sucesso de vendas é “O menino do dedo verde”, que já passou da centésima edição e vendeu dois milhões de exemplares — mas a marca está na literatura brasileira consagrada.

— José Olympio descobriu escritores numa época em que não havia muito lugar onde procurar, e achou seu público. Ninguém o superou do ponto de vista editorial — afirma Machado.

A história que hoje faz parte da História, é do menino que só completou o primário e, aos 15 anos, saiu de Batatais, no interior de São Paulo, para ser ajudante na livraria Garraux, a mais importante da capital paulista, da qual se tornaria sócio. Dias antes de completar 29 anos, abriu a Livraria José Olympio Editora, a “Casa”, que em 1934 se mudaria para o Rio. Era ali, nos fundos do imóvel da Ouvidor, onde escritores se reuniam e Olympio fazia negócios com seus amigos — um tempo contado em “Rua do Ouvidor 110”, de Lucila Soares, neta de José Olympio, publicado pela editora. Fechada em 1955, a livraria não foi reaberta, e a editora se mudou, até aportar na Marquês de Olinda.

— A sala do vovô era grande, e eu ficava num canto desenhando, enquanto ele recebia os escritores. Tenho essa lembrança muito forte — conta Marcos Pereira, hoje editor da Sextante, que publicou “José Olympio — O editor e sua Casa”, organizado por José Mario Pereira. — Quando fui trabalhar com meu pai (Geraldo Jordão Pereira) na Editora Salamandra, aos 17 anos, meu avô foi contra, porque tinha ficado muito traumatizado com as dificuldades.

Era 1980, e a José Olympio ainda estava nas mãos do BNDES. Quatro anos depois, Henrique Sérgio Gregori comprou a editora, mas autores como Rachel de Queiroz e José Lins do Rego já tinham deixado a casa. Maria Amélia se lembra de ouvir de Rachel: “Minha filha, ainda volto para casa”. E voltou.

— Ela me disse que, quando você quer muito uma coisa, deve amarrar a alma até conseguir. Eu andei com a alma amarrada até ela voltar — conta a editora.

Rachel retornou ainda em vida, mas foram os herdeiros de Lins do Rego que resolveram levar sua obra de volta para a Casa. Na José Olympio, “Menino de engenho” já vendeu um milhão de exemplares.

— Se meu pai estivesse vivo, estaria na maior felicidade — diz Maria Elizabeth Lins do Rego, filha do escritor, — Ele frequentava a livraria, depois o escritório na Praça XV, entrava sem cerimônia, abria as cartas… Sempre que precisava de dinheiro adiantado, recebia imediatamente. Era uma relação fraternal.

As obras de Rachel de Queiroz e José Lins do Rego foram reeditadas depois que o grupo Record comprou a José Olympio. Maria Amélia diz que o cuidado foi sempre o de modernizar as edições, buscando o leitor de hoje, mas sem deixar de olhar para a própria história. No caso dos livros do escritor paraibano, por exemplo, as reedições mantiveram as ilustrações dos originais, elaboradas por Santa Rosa. Todos ganharam orelhas de autores contemporâneos, apresentações de cânones da literatura e uma cronologia detalhada ao final, contextualizando-o para as novas gerações. Será assim também com a obra completa Ferreira Gullar, que entrou para a editora com “Crime na flora”, publicado em 1986.

— Eles queriam algo inédito, e tinha escrito esse livro 30 anos antes, mas nunca publicado. Foi minha estreia na editora, e desde então eu me sinto muito bem na José Olympio — diz Gullar.

Maria Amélia mantém a relação afetiva que José Olympio travava com os escritores — passa todo Natal entre as famílias de José Lins do Rego e Rachel de Queiroz — e o olhar desbravador do editor. Percorre sebos à cata de edições antigas e autores esquecidos e conversa com os livreiros para saber o que os leitores procuram. Numa viagem de férias a Londres, descobriu “Contos londrinos”, de Virginia Woolf, e fez a negociação lá mesmo. Foi à cata da tradução de Clarice Lispector para a peça “As pequenas raposas”, de Lillian Hellman, que procurou incansavelmente até descobrir que ela tinha sido rebatizada de “Os corruptos”. E publicou o texto.

A José Olympio busca olhar os autores sob novos ângulos. Na coleção Sabor Literário, por exemplo, editou o conto “O banqueiro e o anarquista”, um dos sete do poeta Fernando Pessoa — só encontrados em sua obra completa —, e a novela “Feia de rosto”, de Arthur Miller, mais conhecido pela dramaturgia.

— Queremos renovar mantendo a tradição — sintetiza Machado.


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