Origem da denominação de 85 mil lugares de Minas

Excelente a matéria de Gustavo Werneck para o jornal Estado de Minas [via Paulinho Assunção]:

À primeira vista, a palavra pode sugerir névoa, neblina, um véu de água se espalhando pela paisagem. Mas, à medida que os pesquisadores se debruçam sobre documentos como cartas de sesmarias, livros antigos e escutam a tradição oral, mais descobrem sobre o verdadeiro significado do nome das cidades, povoados e acidentes geográficos de Minas. Quer dois exemplos? Os distritos coloniais de Brumal, em Santa Bárbara, e Cachoeira do Brumado, em Mariana, na Região Central, ganharam essa denominação não pela “bruma” à qual remetem, e sim a “broma”, que em castelhano quer dizer enrolar, passar para trás. Nascidas no século 18 e criadas na efervescência da mineração, as localidades teriam sido palco de perdas e enganos na disputa pelo ouro, pois as lavras não eram tão ricas como supunham os colonizadores. Bem a propósito, Cachoeira do Brumado em seus primórdios, quando o território nem se chamava ainda Capitania de Minas, era conhecida como Bromado.

Os nomes das cidades apaixonam os pesquisadores e rendem profundos estudos acadêmicos. “Afinal, eles têm grande importância para os moradores, sua história, origem e identidade”, diz a professora da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Maria Cândida Trindade Costa de Seabra. Coordenadora do Grupo Mineiro de Estudos do Léxico, que trata a palavra no contexto sociocultural e pesquisa neologismos, topônimos (nome próprio de um lugar), antropônimos (de pessoas) e outros, Maria Cândida e sua equipe montaram três bancos de dados, um deles com 85 mil nomes de lugares, entre eles cidades, povoados, fazendas, rios, córregos e morros do estado listados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Do total pesquisado, a equipe verificou que há 8,4 mil topônimos de origem indígena, como Buriti e Pindaíba; 1,3 mil de origem africana, caso de Caxambu, no Sul de Minas; 2,8 mil híbridos ou mistura de português com indígena (Buriti Grande); indígena com africano (Capão do Cachimbo) e africano com português (Quilombo Baixo), além de 1,2 mil não classificados, como Manjonge. Os dados alimentam, desde 2005, o Projeto Atemig –Atlas Toponímico do Estado de Minas Gerais, desdobramento do Atlas Toponímico do Brasil desenvolvido na Universidade de São Paulo (USP). Os outros dois bancos de dados contêm informações e mapas antigos do Centro de Cartografia Histórica da UFMG e relatos orais colhidos em atividades de campo.

Estado de grande tradição religiosa, Minas tem três santos como responsáveis pelo batismo da maior parte dos nomes de cidades, povoados e cursos d’água: São José, Santo Antônio e Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Portugal. Os nomes de plantas também predominam nos quatro cantos de Minas, estando Palmital e Buritis entre os primeiros. Já a palavra Pinho é verificada só no Sul de Minas. “Os topônimos confirmam a tese de que a história das palavras caminha muito perto da vida do grupo que dela faz uso. Essa é razão pela qual a atribuição de um nome a um lugar envolve fatores linguísticos, étnicos, socioculturais, históricos e ideológicos. O topônimo é um patrimônio e deve ser preservado”, explica Maria Cândida. A professora defende que os nomes antigos não sejam mudados, já que carregam a identidade de um lugar. “Muitas vezes, fazem a troca numa situação meramente política”, afirma.

Faca-de-morcego

Nas andanças por Minas, a equipe chegou à localidade de Bonito, em Barra Longa, na Zona da Mata. Ao contrário do que possa parecer, o nome não está ligado às belezas naturais encontradas pelos primeiros habitantes. Bonito se refere, na verdade, a Francisco Lopes Bonito, sertanista que se estabeleceu nas Gerais por volta de 1700, “pouco abaixo do Ribeirão Miguel Garcia”, onde minerava.

Uma curiosidade envolve o nome Andrequicé, que sugere o nome de alguém. Mas o caso é outro e em Diogo de Vasconcelos, na Região Central, surge como Indequessé. Os estudos mostram que a denominação Andrequicé é antiga, sendo mencionada em vários documentos do século 18 como um lugar que ficava no caminho de Goiás, “a poucas léguas do porto do Espírito Santo ou Passagem do Espírito Santo, no Rio São Francisco”. A palavra seria uma composição do tupi – andira, uma planta leguminosa – com quissé, que significa faca. Andyràquicê variou para Andrequicé e significa, portanto, “faca de morcego”, nome de uma gramínea cortante. Nas conversas, os moradores disseram que “indequessé” é mesmo um tipo de capim.

Bacalhau em Minas, estado que nem litorâneo é? Isso mesmo. Nos tempos coloniais, o peixe era também chicote de couro cru torcido para açoitar os escravos e essa prática acabou batizando muitos povoados, rios, córregos e outros. Mas Barra do Bacalhau, atual Guaraciaba, na Zona da Mata, ganhou este nome por causa do sertanista José Gonçalves Bacalhau, que morreu em 1781. Nos tempos áureos da mineração, foram cunhados nomes como Villa Rica, que virou Ouro Preto; Lavras Novas; Tijuco ou Tejuco, atual Diamantina; Catas Altas e outras. “Por ser abundante em ouro, o distrito de Santa Rita Durão, em Mariana, nasceu com o nome de Inficionado”, diz a professora.

Os significados

Caeté – Nome de origem tupi, quer dizer mato legítimo, verdadeiro;
Caxambu – De origem banto (africana), quer dizer atabaque, segunda a pesquiadora Ieda Pessoa de Castro;
Buriti – De origem tupi, é um tipo palmeira;
Piranga – De origem tupi, quer dizer vermelho;
Itabirito – Nome cunhado pelo barão Eschwege (1777-1855), em cima da língua tupi, para designar uma rocha;
Itabira – De origem tupi, quer dizer pedra alta;
Taquaraçu de Minas – De origem tupi, quer dizer taquara grande;
Pedro Leopoldo – Homenagem ao engenheiro Pedro Leopoldo da Silveira, chefe da Seção de Construção da Estrada de Ferro Central do Brasil;
Vespasiano – Homenagem ao Coronel Vespasiano Gonçalves de Albuquerque, também da Estrada de Ferro Central do Brasil;
Belo Vale – A exemplo de Belo Horizonte, trata-se de um nome que tem a ver com a paisagem que encantou os primeiros habitantes.

Saiba mais: marcas do período colonial

A pesquisa do Grupo Mineiro de Estudos do Léxico mostra que os nomes próprios (antropotopônimos) ocorrem com mais frequência nas regiões Central, Zona da Mata e Rio Doce; os de santos (hagiotopônimos) nas regiões do Alto Paranaíba, Centro-Oeste e Sul; os elementos hidrográficos (hidrotopônimos), nos vales do Jequitinhonha e Mucuri; os de vegetação (fitotopônimos) na Região Norte; os de vegetação e formas topográficas (fitotopônimos e geomorfotopônimos), na Região Noroeste; e as formas topográficas no Triâgulo. “Em regiões muito disputadas no período colonial, os topônimos motivados por nomes de pessoas se tornaram marcantes, pois eram os donos das terras. Já em lugares que interessavam menos economicamente, eram dados nomes de plantas etc.”, diz Maria Cândida. Ela destaca que a pesquisa está em andamento e há muito ainda para ser estudado: “O trabalho tem gerado muitas dissertações de mestrado e teses de doutorado”.

Linha do tempo

1703 –Fundação do povoado de Brumal, antigo Brumado, em Santa Bárbara
1712 –Fundação de Bromado, depois Brumado, Nossa Senhora da Cachoeira do Brumado e finalmente Cachoeira do Brumado, em Mariana
1720 – Criada a Capitania de Minas, depois de o território fazer parte da Capitania de Minas e São Paulo
1745 –Primeira cidade de Minas deixa de ser Vila Real de Nossa Senhora para se tornar Mariana
1823 – Vila Rica ganha o nome de Imperial Cidade de Ouro Preto e fica como capital de Minas até 1897
1831 – Arraial do Tijuco se torna vila e, sete anos mais tarde, cidade, com o nome Diamantina
1838 – Vila Real de Nossa Senhora da Conceição do Sabará se torna cidade com o nome de Sabará
1840 –Em 23 de março, Vila Nova da Rainha se emancipa de Sabará e se ganha o nome de Caeté

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