Em função da publicação pela Companhia das Letras de Meus prêmios, de Thomas Bernhard, Marcelino Freire foi convidado para escrever sobre os prêmios de literatura no caderno Prosa & Verso do jornal O Globo:
Um pobre escritor
Tem um amigo meu que não escreve romances. É poeta. Mas ele me disse que vai preparar um épico até o final deste ano: só para inscrever o calhamaço no Prêmio São Paulo de Literatura. Quem sabe, Marcelino, com os duzentos mil reais eu salde as minhas dívidas, enfim, compre um buraco de apartamento?
Já tem um outro amigo meu que é romancista. Aliás, ele não é mais romancista. Aliás, ele morreu. Tragicamente assassinado no ano passado. Falo do Wilson Bueno, lembram? Ele desapareceu no mesmo dia da minha mãe, em 30 de maio de 2010.
Também em 2010 perdemos Roberto Piva. E perdemos Alberto Guzik. E perdemos José Mindlin. E perdemos o cartunista Glauco (brutalmente assassinado idem), etc. E o meio literário, na verdade, estava àquela época discutindo outras perdas e ganhos. A questão mais relevante era: quem ganhou e quem perdeu o Prêmio Jabuti — Chico Buarque ou Edney Silvestre?
Minha Santa Periquita!
Fui ficando cansado. Deu-me uma preguiça. Uma desesperança. Sei que não é de hoje que a corrida é mesmo esta. Importantíssima para a editora. Para o prestígio nacional e internacional dos autores. Mas me diga: a coisa não está ficando histérica demais ou é impressão minha?
Não sei.
Sei lá…
Ah! Mas não foi você, Marcelino, quem ganhou em 2006 um Jabuti, meu bem? Por que está agora cagando na cabeça do cágado, hein?
Ora, não tenho do que reclamar.
Não pedi prêmio para ninguém.
Fiz dois belos livros pela Record, amém. E agradecerei aos queridos amigos da editora sempiternamente por isto.
Mas minha questão aqui é outra. Estou tentando entender essa caça ao tesouro. Esse alvoroço que atinge as grandes e médias e pequenas editoras. Atinge os grandes e médios e pequenos autores.
Ave!
Há quem coloque uma estatueta na mão e se sinta o dono da palavra. Meu livro em outras línguas, publicado. Não viu? Assim: a literatura do laureado pode até não falar ao Brasil, não ter leitor, não circular pelas periferias, pô, mas é colocado na estante mais alta do mercado. Na gôndola de Frankfurt. Eta danado!
Por favor. Não me acusem de mal agradecido. Não me interpretem mal. Repito: é só um cansaço que me deu. A angústia de ter enfrentado no ano passado verdadeiras perdas na minha vida. De minha saudosa heroína materna a alguns heróis literários.
Gente que, de fato, revolucionou o meu lar e o meu juízo. Quando eu era ainda um adolescente, vivendo no Recife, querendo ser escritor. Almejando escrever meus contos, apostando no sangue dos meus parágrafos.
Não.
Não posso esquecer. Não posso perder este meu lado apaixonado e amador. Sempre ligado que estou no exemplo do Piva. Quantos prêmios ganhou o Piva em vida? Deram algum tostão para ele pelo conjunto da obra?
Foi por essas e outras que o meu último livro de contos, o “Amar é crime”, saiu pelo coletivo Edith (<visiteedith.com>), do qual faço parte. Fiz isto porque quis respirar outros ares, confesso. Quis partir da estaca zero. Ficar um pouco longe do circuito do vinho branco, do patê de fígado. Distante do lero-lero.
Pobre, mas feliz, podem apostar.
Aí se a coisa por acaso piorar, ora essa, aconselha o meu amigo poeta: é só tirar aquele seu romance da gaveta.
Não vale nada.
Mas quem sabe valerá?
MARCELINO FREIRE é autor de “Angu de sangue” (Ateliê Editorial) e do recém-lançado “Amar é crime” (Edith), entre outros. Ganhou o Prêmio Jabuti na categoria Contos e Crônicas em 2006 por “Contos negreiros” (Record). Mantém o blog <marcelinofreire.wordpress.com>.
