Fragmentos do luto – por Arthur Dapieve

Extraído do blog do Instituto Moreira Salles [via Flávio Moura]:

Leia abaixo a primeira carta da correspondência entre o jornalista e escritor Arthur Dapieve e o compositor Aldir Blanc. Pelos próximos dois meses, ambos trocarão cartas semanais no blog do ims. 

 

Grande Guru,

 

Espero que esteja tudo calmo com a Tijuca Profunda e com todos os seus, incluindo naturalmente o Batuque. Nossos gatos vão bem, obrigado, embora o mais novo, mesmo castrado, goste de fornicar o cobertor peludão de vez em quando. Você aparta os dois, e ele dá um gritinho agudo de protesto porque é mudo, não mia.

Aqui nas Laranjeiras Médias as coisas estão… médias. Conosco, conosco mesmo, tudo em paz, mas da porta pra fora tem sido um ano difícil. Muitas más notícias, algumas mortes, uma muita próxima, você sabe, que nos tirou do prumo por mais que a vida tenha de seguir. Não, não pretendo transformar esta e-pístola numa terapia à distância com o afamado Dr. Blanc, mas é que tem sido duro ver qualquer propósito em escrever. Nosso papo, porém, sempre foi um alento.

Para dizer a verdade, tem sido difícil até ver qualquer propósito em ler (sem mencionar qualquer propósito, ponto), o que muito tem me atrasado nas leituras sobre a Segunda Guerra Mundial. Já não tenho nem absoluta certeza se os “alemão” perderam mesmo a parada… Quais são as novidades do front? Contudo, caiu-me entre as patas um livro daqueles tudo-a-ver. É o Diário de luto, do Roland Barthes, edição da Martins Fontes, naquela formidável barthesiana da Leyla Perrone-Moisés, que foi aluna dele.

Se nada faz sentido, nada como ler o homem que encontrava sentido até no telecatch, né? No dia seguinte à morte da dona Henriette aos 84 anos, em 25 de outubro de 1977, o deprimidíssimo Barthes (favor considerar a hipótese de ele ter se jogado na frente da caminhonete ainda por causa da perda, em 1980) começou a escrever sobre a sua dor. O livro é mais fichamento do que diário. Ele dividia folhas ofício em quatro, cortava e inscrevia sentimentos e insights nas fichas, quase todas datadas. Totalizou 330 até 15 de setembro de 1979, quando anotou: “Algumas manhãs são tão tristes…”

Só não digo que se lê de uma sentada, porque neguinho poderia maldar.

Porém, sempre disse que o Barthes é um dos meus heróis intelectuais. E ao ler este Diário de luto me toquei de que ele também é um dos meus heróis emocionais, desde que, ainda na faculdade, li Fragmentos de um discurso amoroso em honra da proverbial vagabunda que não me dava mole. Quer dizer, não dava, mas roçava no meu nariz. Ele de certa forma me ensinou a gramática daquele sofrimento safado. Não diminuiu picas, piorou pacas, mas ao mesmo tempo foi como se Barthes me dissesse, no pé do ouvido: mesmo só, você não está só no que sente, outros sentiram e sentem o mesmo. Parecia o que aquele professor esquisitão de O apanhador no campo de centeio fala pro Holden Caulfield. Como era mesmo o nome dele, Roubini, Tombini?

Não vou ficar adiantando o teor do livro pro caso de você se interessar em lê-lo, o que faço votos que aconteça. Mas o Roland B., nele tem duas sacações que parecem ter sido escritas para mim (ah, a egolatria do leitor, só suplantada pela egolatria do autor). A primeira: o luto não passa nem se ameniza com o tempo; ele apenas é descontínuo, interrompido pelos pequenos prazeres e pelas grandes aporrinhações do cotidiano; mas quando volta, volta com tudo, choro, vela e ranger de dentes. A segunda: o luto gera uma “desafeição à mundanidade”, ele nos prende à toca, diminui a vontade de sair de casa e, uma vez na rua, sabota toda e qualquer convivência social.

Somando a primeira à segunda, entendi melhor porque fico aqui enfurnado, escutando missas medievais e renascentistas. Todas devidamente cantadas em latim, claro. Não, não me converti a nada. Continuo, como diz meu amigo Jaumir sobre si próprio, ateu da linha National Geographic (“Está lá o gnuzinho, vem o crocodilão e… Nhac! Acabou”). Contudo, se a mera ideia de Deus inspirou Machaut, Ockeghem e Brumel, meus parceiros mais frequentes de fossa, a escrever aquelas peças tão belas, bem, mesmo ateus da linha National Geographic de certa forma devem ser gratos a Ele. Ou à Sua ideia, o que dá na mesma. Fico imaginando o sujeito analfabeto lá do século XIV ou XV, ou seja, sem radinho de pilha nem iPod, entrando numa catedral gótica e chapando com a polifonia, aquelas vozes pairando lá perto do teto, doideira. Invejo-o.

Ainda bem que nossos times estão bem às pampas no Brasileirão. Seu Vasco traçando todos. E o meu Botafogo tem me dado quase todas as raras alegrias de 2011. Mesmo isso guarda uma ironia sombria. Você sabe que nós, botafoguenses, somos pessimistas inabaláveis, tememos os efeitos revigorantes de gol de honra adversário em goleada nossa. Então, para o cara nas Laranjeiras Médias perceber que a sua felicidade possível está atrelada às boas atuações do Glorioso, só pode mesmo é estar lascado.

Desculpe-me, sei que escrevi demais, mas tenho falado pouco com os amigos.

Abração,

 

Arthur

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