Gaveta de Papéis

Matéria de Sandra Gonçalves publicada no Diário Digital:

Em «Fotografias de Cidades» fala com São Francisco na primeira pessoa, recorda as tardes passadas no sofá, os chapéus-de-sol e as camisas de flores coloridas. Sobre Abidjan, refere-se às suas cicatrizes nas ancas, que lhe fazem impressão. «Feitas pela avó com um ferro em brasa, quando era criança.» Um poema em que brinca com a silhueta da cidade costa-marfinense, confessando-se apaixonado por ela. Madrid, não sabe que entendimento tem com ela, mas sabe que a ela regressará sempre. Escreve ainda sobre Helsínquia, Rio de Janeiro, Budapeste – cujas ruas são o mal que fez a uma rapariga de olhos grandes -, e do Porto, cuja voz delicada já não entende.

Ao virar da página leva-nos até à Cidade da Praia, com as suas bananas e bolos doces, o sol e a areia e as ondas, e depois para Estocolmo, cidade que sempre o ajudou quando precisou de pensar, e por fim Coimbra, com Peixoto a recordar os seus domingos à tarde, o seu ar e coração. Fala de todas estas cidades com uma delicadeza estonteante.

Na gaveta, além de fotografias, encontra «Documentos» (Carta de Condução, Cédula Pessoal, Passaporte e Certidão de Nascimento). Sobre o «Passaporte» diz:

«Morremos pelo nosso país, desportugueses,
e ressuscitamos demasiado. Amanhã, um dia,
quando esperarmos a devastação, teremos
apenas esperança e nada absolutamente mais.»

E em «Certidão de Nascimento»:

«O dia em que nasci é Portugal, um país completo,
mas Portugal é muito mais do que apenas um dia,
Portugal é o instante exacto em que nasci.»

Quase a meio, é-se surpreendido com três chaves impressas. O que abrem é uma incógnita, não vem com explicação, mas a curiosidade instala-se e pede uma pausa. Mas logo se recupera o ritmo ao entrar em «Recortes de Jornal» com o autor a discorrer sobre cruzes ao longo das estradas, pirómanos, e a brincar com os poetas em «Quarto»:

«Nunca dês demasiado a um poeta, arrepender-te-ás.
São sempre os últimos a encontrar estacionamento
para o carro, mas quando chove não se molham,

passam entre as gotas de chuva. Não por serem mágicos, ou serem magros, mas por serem parvos.
A falta de sentido prático dos poetas não tem graça.»

Segue-se «Postais», escritos em Lisboa, Coimbra, Rio de Janeiro e Helsínquia.

«Estudo para Desmantelamento de um Rio» é desconcertante e divertido. Escrito em quatro partes, Peixoto brinca não sei bem com o quê, mas resulta. Fala de um candeeiro partido, e depois de uma caneca azul também partida, para logo a seguir desconstruir a palavra «caixotes» e culminar com cutelaria a ser espetada no corpo, até adormecer.

E depois, inesperadamente, pegando numa «Lista de Tarefas» que encontrou, fala de «Limpar o Pó», «Varrer o Chão» e…
«Lavar a Loiça»:

«E destruir todas as provas de uma noite:
Dois copos, dois corpos, garfos espetados

nas costas, facas como palavras repetidas.
E acreditar que o mundo recomeça na água.»

«Gaveta de Papéis» termina com dois desenhos feitos pelos seus filhos. Um desfecho enternecedor.

Afinal, não teremos todos algo a dizer sobre o que guardamos nas nossas gavetas?

«Gaveta de Papéis» valeu a Peixoto o prémio Daniel Faria 2008. Ao leitor, pequenos instantes de um quotidiano alheio. Um escritor que nos concede o privilégio de sermos mirones com o seu consentimento, logo, sem culpa.

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