A carta e o e-mail, por Fred Coelho

Texto de Fred Coelho sobre cartas e e-mails, tempo-espaço, lirismo e antilirismo:
I
Não é a poeira que repousa nas coisas. São as coisas que se agarram à poeira.
II

 A prova esmagadora da compressão do tempo dentre os homens é a correspondência. A carta era parte de um ritual temporal. Escrever solitário, enviar, esperar paciente, receber, abrir um envelope, pegar a carta nas mãos e, com tempo, ler. Hoje, com os emails e as mensagens sms, tudo tornou-se instantâneo, invasivo, exigente, resumido. Nada contra os emails, pois resolveram a comunicação profissional e incrementou a insanidade das comunicações afetivas. A reflexão é sobre tempo-espaço, já que a carta expandia o ser pelo mundo e o email nos comprime. A carta é literatura, o email é jornalismo. Uma fabula, o outro informa. Claro, há emails escritos como cartas – aliás, o email tornou-se, como já dizem os especialistas em comunicação e tecnologia, o espaço escritural da longa mensagem. Redes sociais, sms e talks da vida já suprem o compromisso de “apenas” se comunicar pontualmente. Escrever emails está no limite do tempo que tínhamos de ter para escrever cartas. Porque esprememos nossa capacidade reflexiva de escrita em uma necessidade utilitária de nos comunicarmos em tempo real. Um excesso de comunicação que, como tudo, gera um alto nível de redundância do que se fala. Dizemos demais hoje em dia, porém cada vez mais brevemente. Tomara que isso abra portas para uma vontade de ser extenso através da escrita, transformando pessoas em prosadores, ficcionistas de si mesmo, em epopéias do efêmero.

III
As cartas eram uma forma de vivermos para além do tempo e do espaço. Pois sabíamos que nossos sentimentos, ideias e planos, culpas, desculpas e enganos estavam em trânsito, pelo mundo (tempo), e que algum dia indeterminado chegariam ao destino (espaço). O email é duro e anti-poético, pois ele aparece do “outro lado da vida” automaticamente. Exige-se velocidade no entendimento da mensagem, ao contrário das cartas, que demandavam depuração, leitura repetida e inspiração para a volta. A carta não recorta um pedaço da vida. A carta era o balanço momentâneo da vida, onde quando e porquê dos dias entre uma correspondência e outra. O email é uma foto do que lhe interessa naquele momento, naquele assunto, naquele tormento. Aliás, cartas e emails são em imensa parte sem comparação além do fato de escrevermos informações em ambos. E por que a carta perdeu  para a mensagem eletrônica? Porque ficamos felizes em apenas nos comunicar. A vida não é literatura. Literatura é um espaço cavado no oco da vida, no avesso do tempo e espaço, na folga dos constrangimentos da nossa linguagem utilitária. A internet (há de chegar o tempo em que vamos desnaturalizar esse meio tão “natural”) inventou um novo homem, fora da literatura, fora da contemplação. Um homem ativo, criativo, propostivo, comunicativo, massivo e genial. Um gênio digital que, porém, não troca mais cartas.
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