Prêmios da Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil
Palhaço, macaco, passarinho (Companhia das Letras), de Eucanaã Ferraz, com ilustrações de Jaguar, ganhou o prêmio máximo da Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil. Psiquê (Cosac & Naify), com texto e ilustrações de Angela-Lago, recebeu os prêmios de melhor ilustração e reconto hors-concours. Consulte a lista completa dos premiados no site da fundação (www.fnlij.org.br).
Alto estilo
No X Fórum Internacional de Encadernação Artística, na Bélgica, realizado entre os dias 26 e 29 de maio, foi exposta a encadernação que a brasileira Estela Vilela fez do livro Bug-Jargal, de Victor Hugo. O mesmo trabalho recebeu destaque na edição de junho da revista francesa Art & Métiers du Livre, conforme o site PublishNews.
O canto do Bem-te-Vi
A Bem-te-Vi dá continuidade ao projeto criado por Lélia Coelho Frota, crítica de artes plásticas e poeta, falecida em 2010, que comandou a editora desde sua criação. A coleção Canto do Bem-te-Vi recebe mais 5 novos livros, conforme suas edições anteriores: XX sonetos, de Maria Lúcia Alvim; Mateus, de Priscila Figueiredo; Entre árvores, de Sylvio Fraga Neto; De onde voltamos o rio desce, de Vera Pedrosa; e A viagem, de Walmir Ayala, livro inédito que só vem aos leitores após vinte anos do falecimento do poeta.
Coleção Prêmio Nobel
Em outubro, a editora Companhia das Letras completará seus 25 anos. Está previsto, entre as comemorações, o lançamento de uma coleção com 12 obras de autores que receberam o prêmio Nobel de Literatura. Com capa dura e revestido com tecido, no formato 14×21 cm, cada título vai ter tiragem de 3.000 exemplares, sem reimpressões.
Lançamentos
Cadernos de Literatura Brasileira – 26a edição. São Paulo: IMS, 140 p.
A nova edição é dedicada ao notável cronista Rubem Braga, com cronologia; depoimentos de Claudio Mello e Souza, Danuza Leão e Boris Schnaiderman; ensaios dos jornalistas Humberto Werneck, José Castello e Sergio Augusto; inéditos, entre outras seções.
Agenda brasileira – Temas de uma sociedade em mudança. São Paulo: Companhia das Letras, 584 p.
André Botelho e Lilia Moritz Schwarcz organizaram esta edição, que conta com 50 profissionais para debater algumas das principais questões relativas ao Brasil. O livro destaca-se sobretudo pela variedade de perfil dos colaboradores: o ex-jogador de futebol Tostão; o crítico de teatro J. Guinsburg e o poeta Eucanaã Ferraz são alguns dos seus ensaístas.
Dicionário da antiguidade africana, de Nei Lopes. Rio de Janeiro: Record, 350 p.
Estudioso dedicado à cultura africana, o autor desenvolveu um rigoroso trabalho de historiografia sobre as sociedades africanas surgidas a partir do século VII.
AUGUSTO E SEUS TIGRES DE PAPEL
Augusto Guimaraens Cavalcanti nasceu no Rio de Janeiro, em 1985. Lançou seu primeiro livro em 2006, Poemas para se ler ao meio-dia (Rio de Janeiro: 7Letras); veio a público em 2008 a obra coletiva Amoramérica (Rio de Janeiro: 7Letras), com textos do grupo Os Sete Novos, formado por Augusto, Domingos Guimaraens e Mariano Marovatto. Sua mais nova reunião de poemas, Os tigres cravaram as garras no horizonte (Rio de Janeiro: Editora Circuito), consolida um percurso singular desse autor, que tem explorado certas orientações criativas ainda de baixo aproveitamento na poesia brasileira.

É necessário destacar, nesse sentido, que desde João Cabral de Melo Neto se defende intensamente, na poesia brasileira, a concisão, a construção e a objetividade como princípios criativos indispensáveis. Esqueceu-se, no entanto, que toda poesia, como bem destacou Octavio Paz, carrega em si um ímpeto surrealizante, por tratar-se de uma linguagem formada a partir do choque e da subversão de normas instituídas pela gramática e pela lógica. Nos últimos trinta anos, a predominância no Brasil de uma orientação de via única, de um Cabral editado ao gosto contemporâneo, construtivista e racional, sem seus choques semânticos – o “cão sem plumas”, “uma faca só lâmina”, entre tantos outros casos –, enfraqueceu significativamente o panorama contemporâneo, mais formatado e homogênio do que se costuma pensar.
A poesia de Augusto tem sido concebida numa outra via, de antinomias e contrastes, com um verso livre de cortes bruscos e muitas vezes sem encadeamento lógico aparente: “um cacto nasce do mármore límpido / das tuas escadas / rolantes // a poesia é um tigre / de papel”, em “mármore”, onde as palavras sugerem imagens em atrito. No lugar do apolíneo, põe-se ao lado do dionísiaco, dialogando com poetas como Walt Whitman, de menor aderência na lírica brasileira das últimas décadas, mais afeita a Mallarmé e Paul Valéry: “sempre desconfiei que a verdadeira profundidade / estivesse na superfície / das coisas / Walt Whitman bem nos ensinou que / seja de treva ou luz / todo momento é um milagre // […] o cinema explode / ao ar livre / seus aeroportos de linguagens / o filme detona / sua tela de raro oceano / seu mar cínico e adequado / mar tão transparente quanto real / mar sem / margem / desterrado mar”, em “gasolina”.
Por meio de sua criatividade e da busca de novos cânones para a literatura brasileira, a obra de Augusto Guimaraens Cavalcanti tem colaborado para a formação de uma via alternativa, com resultados muito satisfatórios e versos surpreendentes.
O PRÊMIO PORTUGAL TELECOM
Os 50 finalistas do prêmio Portugal Telecom 2011 estão definidos: mais uma vez com um número reduzido de autores portugueses (E.M. de Melo e Castro, Gonçalo M. Tavares, Inês Pedrosa e João Tordo) e apenas um angolano (José Eduardo Agualusa), sem qualquer outro representante do continente africano. O número reduzido de autores desses países é novamente resultado de uma recusa do mercado editorial brasileiro ao mundo lusófono.
O excelente Três vidas, de João Tordo, que ainda traz na bagagem o prêmio José Saramago, é o mais forte para ficar entre os 10 finalistas, e talvez Milagrário pessoal, de José Eduardo Agualusa, por ser o único representante da África. No meio acadêmico o livro de Gonçalo M. Tavares, autor de costume muito estimado, tem sofrido muitas restrições e há quem considere Uma viagem à Índia a sua pior obra. Entre os brasileiros, a poesia vem com força: Adélia Prado, Alberto Martins, Arnaldo Antunes, Donizete Galvão e José Almino podem estar com sobra na finalíssima. Na prosa, o romance de Nelson de Oliveira, Poeira: demônios e maldições, que já foi premiado com o Casa de las Américas, e João Anzanello Carrascoza, com Espinhos e alfinetes, também são fortes candidatos.
O júri deste ano é muito especial e pode apontar autores menos cotados, pois há notáveis conhecedores da literatura contemporânea, como Heloísa Buarque de Hollanda, Luiz Ruffato, Regina Dalcastagné e Regina Zilberman, todos da maior competência e seriedade.
UMA NARRATIVA DE AMOR E ARTE
O novo romance de Sérgio Sant’Anna, O livro de Praga: narrativas de amor e arte (São Paulo: Companhia das Letras), foi lançado na coleção Amores Expressos, projeto que serviu ao autor para construir o seu enredo. Ao visitar uma exposição de artes plásticas, o narrador ouve uma obra de Voradeck para piano e busca, na recepção, informações a respeito da programação musical. É quando sabe que as performances da “senhorita” Béatrice Kromnstadt “são para audiência personalizada e custam em torno de três mil euros”. No entanto, para ter acesso à audiência, não bastam os três mil euros: é necessário ser aprovado pela pianista e por seu diretor, Svoboda. O personagem então explica: “– Faço parte de um projeto privado que envia escritores brasileiros a várias cidades do mundo, como Pequim, Tóquio, Cairo, fora as de sempre, Berlim, Paris, Nova York, para escreverem histórias de amor ambientadas na cidade que coube a cada um. Para mim foi designada Praga e fiquei muito feliz com isso. Me interessa tudo na cidade, inclusive as manifestações artísticas, como esse concerto [de Béatrice Kromnstadt]. A música desperta fantasias sobre as quais se pode escrever, inclusive fantasias amorosas, ainda que um amor platônico, da alma.” É sobretudo a partir dessa ideia que Sant’Anna parece engendrar um dos pontos altos de seu romance: até que ponto as cenas de sexo de fato se passaram com o narrador ou foram produto de sua imaginação? Em que medida as cenas de sexo, muito particulares, não são fruto de um lugar misterioso despertado pela música do compositor Voradeck?
Não à toa há uma forte presença de um tom policial em O livro de Praga, talvez o mais adequado para que o leitor busque a elucidação desse enigma e de outros, como a tentativa de o narrador, Antônio Fernandes, compreender a natureza da arte contemporânea. As obras da exposição de Andy Warhol, Disaster Relics, com fotografias de acidentes, que absorve a atenção de Antônio na abertura do romance, serve como uma referência importante para a construção desse livro. Aos poucos, ficção e realidade, projetos e interferências do acaso vão se casando nessa narrativa de amor e de arte, com seus elementos grotescos permeados de um suspense muito bem elaborado, para que o leitor consiga chegar mais facilmente à complexidade da linguagem e dos recursos da arte contemporânea.
