Coluna da revista Ler

Reproduzo minha coluna da revista Ler, mês de junho:

Catálogo-constelação

Pedro Nava é autor de seis obras memorialísticas notáveis, escritas de 1972 a 1983. Destacam-se, nesse conjunto de livros, Baú de ossos, Beira-Mar e Galo-das-Trevas, um dos títulos mais belos da literatura brasileira. A editora Companhia das Letras, após contratação de toda poesia de Carlos Drummond de Andrade, acaba de negociar a reedição dos livros de Nava. Os dois, que eram amigos fiéis desde a adolescência, em Belo Horizonte, estarão novamente lado a lado. E assim, aos poucos, a Companhia das Letras está reunindo em seu catálogo o melhor da literatura brasileira do século XX.

Parceria luso-brasileira

A editora Leya tornou-se sócia majoritária da Casa da Palavra, de Ana Cecília Martins, Marta Ribas e Thaís Marques. No mercado brasileiro há 15 anos, a Casa da Palavra manterá sua linha editorial, que inclui ficção contemporânea, clássicos, ensaísmo e obras sobre artes plásticas. A Leya vai atuar na área de comercialização e distribuição dos livros, conforme seu editor, Pascoal Soto.

Premiação inédita

A Cosac & Naify foi a primeira editora brasileira a ganhar dois prêmios numa mesma edição da Feira Internacional do Livro Infantil de Bolonha. Na categoria Novos Horizontes, foram premiados Mil-folhas – História ilustrada do doce, de Lucrecia Zappi, e A janela de esquina do meu primo, de E.T.A. Hoffmann, com ilustrações de Daniel Bueno.

Acadêmico das HQ

Mauricio de Sousa, caso raro na literatura, é conhecido por 1000 a cada 1000 brasileiros nascidos ao menos a partir dos anos 1950. No ano de 2008, o Instituto Pró-Livro realizou pesquisa para descobrir quais são os escritores brasileiros mais admirados de todos os tempos. O autor da Turma da Mônica ficou na décima posição. Seus livros já invadiram países como a China e conquistam, a cada dia, mais traduções. Acaba de ser eleito para a Academia Paulista de Letras: “Agora eu posso até escorregar na casca da banana que ficarei incólume”, afirmou ao jornal O Estado de S. Paulo. Par ficar ainda mais incólume, poderia tornar-se membro da Academia Brasileira de Letras. Seria, como poucos, motivo de orgulho.

OS CRÍTICOS E AS “TIAS”

O Instituto Moreira Salles promoveu um debate entre os críticos da literatura Alcir Pécora e Beatriz Resende em torno da produção ficcional contemporânea. Disponível no blog do IMS, a conversa gravada em vídeo provocou reações negativas em diversos escritores.

Os críticos combateram fundamentalmente a tendência de os autores contemporâneos atenderem aos apelos de seus guetos. “O espaço da literatura virou o lugar das tias”, afirmou Pécora, que identifica também uma baixa formação técnica de criação, problema igualmente grave entre os leitores tão mal formados pelo ensino brasileiro. O nível de exigência cultural do país foi identificado como um fator determinante para a mediocridade da recente produção ficcional do Brasil. Enquanto Pécora se lançava mais agressivamente contra sobretudo a geração 90 – de Marçal Aquino, Marcelino Freire e Nelson de Oliveira –, Beatriz Resende buscava relativizar a responsabilidade dos escritores, transferindo parte dessa “crise” da criação ao mercado.

Para Marcelino Freire, “tias tomam chá e bufam como eles bufavam lá”. Rebatendo a formação dos guetos de escritores, ele argumenta: “Nós vamos à luta, promovendo encontros, discussões, antologias, revelando gente nova e boa. Ave nossa! Que preguiça! Turma de amigos há em tudo que é lugar. Mas não venham para cima da gente, insinuando armações, máfias. Caralho! Enfim. Digo: estou sem saco”, falou a Miguel Conde, do caderno Prosa & Verso do jornal O Globo. Já o jornalista Sergio Rodrigues avaliou positivamente a produção contemporânea e julgou que os críticos fugiram ao desqualificar os escritores com base no marketing. Em posição semelhante, rebateu Joca Terron: “E o papel de tais representantes da crítica como curadores ou jurados dos grandes prêmios literários brasileiros, não faz parte desse desejo de participação contraditório com o papel de quem se arroga tanta isenção?”, embora sobretudo Beatriz Resende não tenha se isentado disso, ao afirmar que a universidade não se interessa pela polêmica nem pelo contemporâneo, sendo incapaz de se defrontar com o outro.

Por fim, chega-se a conclusão de que tudo está fora dos eixos: escritores, leitores, críticos e mercado. A tão aclamada crise mais parece a única maneira que todos encontram de encarar os fatos.

LANCAMENTOS

O livro de Praga, de Sérgio Sant’Anna. Companhia das Letras, 144 p.

Reunião de sete contos de um dos mais importantes autores brasileiros contemporâneos. Destaca experiências de ruptura do cotidiano, quando surgem situações desconsertantes.

Poéticas da imanência, de Annita Costa Malufe. 7Letras, 262 p.

Por meio de um instrumental delezeuano, o livro analisa a poesia de dois dos mais significativos poetas da recente literatura brasileira, Ana Cristina Cesar e Marcos Siscar.

Cantos do mundo, de Evando Nascimento. Record, 208 p.

Sinalizado por Silviano Santiago como um dos intelectuais da literatura mais eminentes do Brasil, o autor desse livro de contos experimenta com desenvoltura o deslocamento das coisas e do sujeito.

MALDITOS POR QUEM?

Em março, a editora Companhia das Letras lançou sua nova coleção, Má Companhia, que busca publicar autores “malditos”. Os três primeiros títulos são de Marçal Aquino (O invasor) e Reinaldo Moraes (Tanto faz e Abacaxi, num só volume). A seleção começa bem, embora seu conceito seja equivocado: Marçal, estimado pela crítica, já recebeu os prêmios V Bienal Nestlé de Literatura, em 1991, com As fomes de setembro, e o Jabuti de 2000, com O amor e outros objetos pontiagudos; já Pornopopeia, de Moraes, esteve entre os finalistas do Portugal Telecom 2010.

Além disso, O invasor foi adaptado para o cinema e tornou-se um dos filmes de maior sucesso do diretor Beto Brant, enquanto Tanto faz foi publicado pela Brasiliense e Azougue, respectivamente, e Abacaxi saiu sob a chancela da L&PM, casas editoriais conhecidas do público brasileiro.

Portanto, Marçal Aquino e Reinaldo Moraes conquistaram reconhecimento da crítica e aceitação do mercado editorial, além de suas reedições comprovarem que há um nicho de leitores interessados nesse tipo de ficção. Mais do que escritores “malditos”, o que se destaca pela reunião desses três títulos da Má Companhia é a presença inquestionável de personagens à margem do sistema e/ou perdidos num contexto cultural, econômico e/ou social.

Gostaria de analisar o romance Tanto faz, cuja primeira edição data de 1981. O livro foi lançado ainda sob o clima sombrio de um país reprimido pela ditatura militar. Embora a narrativa esteja centrada em Paris, para onde Ricardo, seu protagonista, vai estudar, o desencanto está presente, de forma marcante, em uma série de personagens. Compõe-se então um painel sobre questões como drogas, literatura, política, sexualidade, entre muitas outras, que são abordados, ao mesmo tempo, com humor, profundidade e tédio, bem como por um tom melodramático: “Fiz trinta anos e ando com medo de levar a breca na vida. Uma vez por semana, em média, me dá esse medo. Acho que às quinta-feiras. Medo de ficar sem grana, sem amigos, sem mulher. Um ratê baixo-astral, dos que sentam no meio-fio e vertem lágrimas grossas como pitangas. E se deixam lamber na cara por um vira-lata sarnento. Te esconjuro, Nelsão Rodrigues!” Trata-se de um panorama de grande fôlego e extensão, mas todo ele amarrado pelo sentimento de uma vida que podia ter sido e não foi.

O romance é marcado também por uma linguagem coloquial, muitas vezes grotesca, mas sem abandonar uma série de diálogos com filmes, letras de música, livros de filosofia, poemas e romances consagrados, como os de Alfred Hitchcock, Caetano Veloso, Chico Buarque, Platão, Ferlinghetti, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, James Joyce, Thomas Mann, entre muitos outros. O campo das conversas com outras obras é variado, que parece, a todo momento, ser tocado pela saudade que os personagens centrais sentem do Brasil.

O BLOG DO IMS

Há poucos meses o Instituto Moreira Salles criou o seu blog (http://blogdoims.uol.com.br/), que tem se destacado pela ininterrupta qualidade e relevância dos posts. Há variedade de assuntos e abordagens: arquitetura, artes plásticas, cinema, literatura, enfim, praticamente todas as manifestações artísticas são discutidas por nomes relevantes da academia, bem como da cultura nacional e internacional. Recorre-se, para isso, a diversos formatos, como diários, ensaios, fotografias e vídeos.

O destaque mair fica por conta da capacidade dos curadores do blog exporem com interesse o próprio acervo do IMS. Isto pode ser observado no vídeo da historiadora Lilia Schwarcz, da Universidade de São Paulo, comentando fotografias dos negros do século XIX, ou o ensaio do arquiteto Guilherme Wisnik sobre a belíssima casa do Instituto, no Rio de Janeiro. A seção “Desentendimento”, organizada por Paulo Roberto Pires, editor da revista Serrote, do IMS, tem promovido excelentes e polêmicos debates, como já vimos aqui.

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