Autores e Livros

Coluna A voz do Brasil – Revista Ler – Maio de 2011

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Quando as cabras não têm vez

A editora Objetiva publicou Ilustrações para fotografias de Dandara. O livro reúne inéditos de João Cabral de Melo Neto escritos durante sua temporada à frente da embaixada do Senegal. Ao receber fotografias de sua neta mais velha, Dandara, João Cabral escrevia alguns versos inspirados nas imagens. Para quem está acostumado com a sua poesia antissentimental e objetiva, ficará surpreso. O volume ainda conta com ilustrações de Mariana Newlands.

Na beira da praia

A Festa Literária de Paraty conta com Mauro Munhoz para reformular o seu espaço. Com a ideia de desafogar o centro histórico de Paraty, a tenda com telão, geralmente ocupada por jornalistas, vai ficar em frente à praia do Pontal. Mais distante da área histórica da cidade, a paisagem natural servirá de consolo aos frequentadores dessa tenda.

Blog da Boitempo

A editora Boitempo vai publicar em seu blog textos de autores como Emir Sader, Maria Rita Kehl e Slavoj Zizek. O pensamento de esquerda vai ganhar algum espaço para discussões cotidianas no endereço http://boitempoeditorial.wordpress.com/.

CDA de casa nova

Carlos Drummond de Andrade vai ser publicado pela Companhia das Letras a partir de 2012, quando completam-se 25 anos da morte do poeta. A reedição de suas obras vai ser acompanhada de novo projeto gráfico e lançamentos simultâneos para e-book e no formato tradicional. A editora ainda organizou uma comissão para cuidar dessa conquista, formada por Antonio Carlos Secchin, Davi Arrigucci Jr., Eucanaã Ferraz e Samuel Titan.

POESIA DE BAIXO VALOR

Ao receber R$ 1,3 milhão (por volta de € 600 mil) via Lei Federal de Incentivo Fiscal, a cantora Maria Bethânia provocou grande celeuma na imprensa. Este montante destina-se à produção de um vídeo para cada dia do ano, com Bethânia a ler poemas para o blog O mundo precisa de poesia. O trabalho será dirigido por Andrucha Waddington. O fato de isso provocar revolta nacional é muito sintomático do baixo valor da poesia no Brasil e, ao mesmo tempo, revela o oportunismo de alguma imprensa brasileira e parte da sociedade civil. É a partir desses pontos de vista que gostaria de analisar a questão.

Fora o seu notável papel no cenário da música popular, é sobretudo Maria Bethânia a responsável pelo interesse dos brasileiros em relação à obra de Fernando Pessoa, divulgada em álbuns e shows da cantora. Lembremos que Fernando Pessoa é o poeta mais lido por aqui, superando em vendas autores do quilate de Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira e até mesmo Vinicius de Moraes. Se por um lado tal interesse se justifica pela qualidade inquestionável dos versos pessoanos, por outro é necessário considerar o bom-gosto com que os poemas são lidos por Bethânia e a rara oportunidade que seu trabalho representa para que o leitor comum tenha acesso, no Brasil, à poesia.

O ataque contra Maria Bethânia também parece ser uma manipulação indireta de parte da imprensa e da sociedade civil contra as primeiras ações da Ministra da Cultura, Ana de Hollanda, que freou a aprovação da nova Lei dos Direitos Autorais desenvolvida durante o governo Lula. Esta nova lei flexibilizaria sobretudo o uso de obras no ambiente digital. Além desses, muitos autores, até mesmo os “militantes” da poesia, se manifestaram contrariamente à aprovação do projeto de Bethânia, o que não passa de ressentimento de uma classe carente de atenção.

Faltou, contudo, uma crítica inteiramente entregue ao problema mais importante: a poesia, no Brasil, vale o quanto pesa. É o que muitos parecem ter dito, mesmo não se dando conta disso.

Maria Bethânia criará um blog para disseminar poesia de boa qualidade? Ótimo! O blog custará pouco mais de R$ 1.350 mil para se manter durante um ano? Problema dela! Bethânia embolsará R$ 50 mil mensais para declamar um poema por dia? Sortuda! O dinheiro será arrecadado junto a empresas que depois o abaterão do seu Imposto de Renda? Êpa!

Ricardo Noblat, jornalista

Procure por Fernando Pessoa ou Guimarães Rosa no YouTube. Na lista de resultados mais assistidos, há sempre um ou vários vídeos de Maria Bethânia. […] Foi pensando nisso, e querendo que a poesia e a prosa da nossa língua tenham melhor presença no ciberespaço, que tomei coragem de propor para Maria Bethânia uma ideia que pensava ser de utilidade pública.

Hermano Vianna, escritor, pesquisador e produtor cultural

Lançamentos

A menina do sobrado, de Cyro dos Anjos. Porto Alegre: Globo. 608 p.

Originalmente publicado em 1979, este livro recebeu o prêmio Jabuti e faz parte do projeto de edição da obra completa desse autor mineiro consagrado pelo romance O amanuense Belmiro. Destaca-se por seus textos curtos, em que se misturam ficção e memória.

Laços de sangue, de José Sacchetta Ramos Mendes. São Paulo: Edusp. 384 p.

Análise da imigração portuguesa no Brasil durante os séculos XIX e XX sob perspectiva interdisciplinar. O livro recorre a dados históricos e jurídicos para traçar o cenário de privilégios e ataques que os portugueses receberam nesse período.

Move tudo!, de Marcelo Cipis. São Paulo: Companhia das Letras. 32 p.

Obra de um dos mais instigantes ilustradores brasileiros, com narrativas criadas a partir exclusivamente de imagens. Realiza-se nesse livro um diálogo com o cinema e a capacidade de seus expectadores interferirem nas histórias projetadas na tela.

A POLÍTICA DA MEMÓRIA

Michel Laub nasceu em Porto Alegre, em 1973. Autor de Música anterior (2001), Longe da água (2004), O segundo tempo (2006), O gato diz adeus (2009) e do recém-lançado Diário da queda, todos publicados pela Companhia das Letras. Recebeu o prêmio Erico Verissimo/Revelação da União Brasileira dos Escritores e já esteve entre os finalista dos prêmios Jabuti e Portugal Telecom.

Diário da queda narra a história de um personagem de família judia cujo avô havia sofrido com as atrocidades de Auschwitz e cujo pai lembrava-lhe disso frequentemente. Estudando numa escola judia, o narrador, aos 13 anos, participou de uma agressão a João, garoto pobre e não judeu, experiência que de certa maneira mudaria sua vida: “Para mim tudo começa aos treze anos, quando deixei João cair na festa de aniversário”. O caso é descrito com violência contundente, transformando a relação do protagonista com seu pai e consigo mesmo. A agressão a João vai irromper uma série de comparações com a violência da perseguição aos judeus e mostrar como o excluído – o judeu, no caso – pode tornar-se um agressor.

Está em questão, a todo momento, o movimento de narratividade: “Quando criança eu sonhava com […] as suásticas ou as tochas dos cossacos do lado de fora da janela, como se qualquer pessoa na rua estivesse pronta para me vestir um pijama com uma estrela e me enfiar num trem que ia ruma às chaminés, mas com os anos isso foi mudando. […] Alguma coisa muda quando você vê o seu pai repetindo a mesma coisa uma, duas ou quinhentas vezes, e de repente você não consegue mais acompanhá-lo, se sentir tão afetado por algo que aos poucos, à medida que você fica mais velho, aos treze anos, em Porto Alegre, morando numa casa com piscina e tendo sido capaz de deixar um colega cair de costas no aniversário, aos poucos você percebe que isso tudo tem muita pouca relação com a sua vida.”

A experiência do protagonista com a narratividade atravessa muitos discursos ao longo do romance: a fala do pai acerca da perseguição aos judeus; os 16 cadernos que formam os diários de seu avô, que em nenhuma de suas linhas trata do holocausto, silenciando a experiência traumática; os diários de seu pai, onde se observa a tentativa de manutenção da memória, que se esvai com o Alzheimer, e, por fim, a própria relação do personagem com a sua biografia. Há, portanto, biografias entrelaçadas e distintos modos de o narrador se posicionar e experimentar a memória. O narrador alcança, dessa maneira, uma compreensão da escrita como possibilidades de gestos políticos: o escamoteamento de um problema, a insistência em subscrevê-lo, a negação das origens, o conflito entre as diferenças.

O NOVO JABUTI

A Câmara Brasileira do Livro anunciou que a 53a edição do prêmio Jabuti vai sofrer mudanças. Ele será ampliado de 21 para 29 categorias, trazendo para a disputa gêneros que até então eram excluídos, como as HQ. Busca-se dessa maneira premiar novos segmentos que têm recebido grande atenção do mercado editorial brasileiro.

Além disso, em cada categoria haverá apenas um vencedor, ao contrário das edições anteriores, quando eram premiados os três melhores livros. Dos vencedores de cada categoria, vão ser escolhidos o melhor livro de ficção do ano e o melhor livro de não-ficção, cada qual recebendo R$ 30 mil (cerca de € 14 mil).

Trata-se das maiores mudanças sofridas desde a criação do Jabuti da CBL. Elas se explicam pela controversa premiação de Leite derramada, de Chico Buarque, como livro do ano de 2010. O romance havia conquistado, em sua categoria, a segunda colocação, o que se revelou uma grande contradição.

 

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