“Não quero entrar para a Academia”
Após a morte do ficcionista Moacyr Scliar, que ocupou a cadeira 31 da Academia Brasileira de Letras, cogitou-se na candidatura do poeta Ferreira Gullar: “Fui consultado por alguns amigos meus da Academia, perguntando se eu aceitaria me candidatar, desde que um número muito grande de acadêmicos me enviasse um documento pedindo que me candidatasse. Diante disso, me senti constrangido de dizer não. Seria arrogante”, relatou o poeta ao site Terra Magazine. Gullar, que tanto recusara convites de candidatura à Casa de Machado de Assis, parecia finalmente ceder. No dia seguinte, porém, amanheceu angustiado: “Quando acordei, me senti muito mal porque aquilo não correspondia ao que sou. Não quero entrar para a Academia. Então, eu acordei: ‘Estou fazendo uma coisa contra o que eu sou.’ Liguei para os amigos e desfiz. Nunca pretendi entrar para a Academia.” A vaidade de Ferreira Gullar expirou em menos de 24 horas.
CULTURA MARGINAL
Frederico Coelho é um jovem ensaísta e pesquisador carioca, mestre em história pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro e doutor em literatura brasileira pela Pontifícia Universidade Católica, onde leciona; curador assistente de artes plásticas do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e DJ. Foram quatro os seus livros publicados em 2010: Eu, brasileiro, confesso minha culpa e meu pecado (Civilização Brasileira); DJs (Editora Sinergia), com Joca Vidal; Museu de Arte Moderna Rio de Janeiro – arquitetura e construção (Cobogó) e Livro ou livro-me (Eduerj). O repertório de Fred, como é conhecido no meio acadêmico e artístico, tem vasta mobilidade: caminha com desenvoltura pelas artes plásticas, cinema, literatura e música popular brasileira.

Gostaria aqui de destacar Eu, brasileiro, confesso minha culpa e meu pecado (336 p.), pois trata-se de sua obra que compreende a maior variedade de manifestações artísticas e pela qual melhor observamos a consistência de seu pensamento. Este livro destina-se à análise da formação da cultura marginal dos anos de 1960 e 1970, no Brasil, delimitando os seus espaços de atuação, bem como os seus principais atores. No entanto, Fred também desconstruirá a história canônica e estabelecerá novos diálogos entre obras da contracultura. É quando revela a existência de um movimento marginal na arte e na sociedade muito mais amplo do que se costuma pensar. Por meio de uma leitura ao mesmo tempo extensa e minuciosa, Frederico Coelho mostra então os “deslocamentos” de alguns personagens da contracultura brasileira, como Glauber Rocha, Hélio Oiticica, Jorge Ben e Torquato Neto.
Um ponto a destacar é a sua tentativa de comprovar “o surgimento de uma cultura marginal no bojo do tropicalismo musical”. Aqui se torna mais visível a habilidade de Fred Coelho como pesquisador, trabalhando com depoimentos de diversos artistas desse período, material de imprensa ou de arquivos, além das próprias obras marginais. Eu, brasileiro, confesso minha culpa e meu pecado serve aos interessados que buscam se iniciar nos estudos da contracultura brasileira dos anos 1960 e 1970, mas também aos já iniciados que pretendem conhecer uma pesquisa original e rigorosa, com um texto muito bem redigido, exemplar e esclarecedor.
Com a faca e o queijo na mão
Dirigida por Nuno Barros e Rui Gomes Araújo, a Babel Brasil já ganhou pontos antes mesmo de seu lançamento no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, a 14 de março: contratou o ficcionista Luiz Ruffato para o cargo de curador de catálogo. Um dos mais notáveis autores contemporâneos da lusofonia, Ruffato conhece como poucos tanto o mercado editorial brasileiro quanto a produção de jovens escritores. Com o montante de R$ 6 milhões para investir nessa nova editora, o grupo editorial português sob o comando de Paulo Teixeira Pinto tem meios de formar a longo prazo um dos melhores catálogos de autores brasileiros.
LANÇAMENTOS DO MÊS
Cláudio Manuel da Costa – o letrado dividido, de Laura de Mello e Souza. São Paulo: Companhia das Letras. 272 p.
Mediante uma pesquisa rigorosa em acervos brasileiros e portugueses, a professora de história da Universidade de São Paulo preenche uma série de lacunas da biografia do poeta Cláudio Manuel da Costa.
Mário de Andrade. Seus contos preferidos. Organização e apresentação de Luiz Ruffato. Rio de Janeiro: Tinta Negra. 312 p.
Reunião dos contos selecionados por Mário de Andrade em uma das enquetes da Revista Acadêmica, em 1938: “Quais os dez melhores contos brasileiros?” Esta antologia revela de maneira surpreendente alguns aspectos centrais da ficção marioandradiana.
Bibliographia brasiliana: livros raros sobre o Brasil publicados desde 1504 até 1900 e obras de autores brasileiros do período colonial, de Rubens Borba de Moraes. São Paulo: Edusp. 2 vol. 1232 p.
Obra de referência de bibliotecários e pesquisadores brasileiros, com verbetes e dados relevantes sobre os títulos selecionados.
CHUTES E PONTAPÉS
A bola já rolou na Copa de Literatura Brasileira 2011, que pode ser acompanhada pelo seu blog (http://copadeliteratura.com.br/) ou twitter (http://twitter.com/copaliteratura/). A regra é simples e clara: “Dezesseis livros, escolhidos de forma bem pouco científica entre os romances brasileiros lançados no período definido, disputam o prêmio em quatro rodadas”, explica Lucas Murtinho, organizador dos confrontos. Trata-se de uma iniciativa admirável, que fixou um canal para estimular anualmente debates sobre a literatura brasileira contemporânea.
Um dado interessante pode ser observado: nas edições anteriores, sobram farpas contra a crítica da literatura, talvez o alvo mais frequentemente combatido nos cinco anos da copa. No primeiro jogo das oitavas de final de 2011 – entre Como desaparecer completamente, de Andre de Leones (Rocco, 2010), e Olhos secos, de Bernardo Ajzenberg (Rocco, 2009) –, o jurado Marcos Vinícius Almeida também já lançou críticas à função da crítica da literatura. Ao ler seus argumentos, no entanto, sobressalta um exame frágil, conservador e sistemático, que parece acompanhar os sumários dos manuais de teoria da literatura e justificar o seu descontentamento.
Quando voltaremos a contar, na Copa de Literatura, com a argúcia de um André Sant’Anna (edição de 2008), que selecionou O dia Mastroianni, de João Paulo Cuenca, “para ficar bem com todo mundo”? Ali sim havia uma crítica severa ao apadrinhamento nas letras contemporâneas – e de modo atípico, distante dos instrumentos da própria crítica.
Espero jurados mais ousados!
O EMIR
No segundo turno das eleições presidenciais de 2010, a então candidata Dilma Roussef contou com o apoio de Chico Buarque de Hollanda num encontro com intelectuais cariocas. Há quem afirme tratar-se do ponto alto de sua campanha à presidência da República. Poucos meses depois, já empossada, a presidente Dilma nomeou Ana de Hollanda para o cargo de Ministra da Cultura. Sua nomeação foi relacionada ao apoio oferecido pelo irmão à Dilma Roussef e provocou de imediato algumas reações contrárias. Em seguida, a Ministra indicou o sociólogo Emir Sader para a presidência da Fundação Casa de Rui Barbosa, um dos principais órgãos da Cultura. Mal sabia quem estava nomeando.
Entrevistado a 5 de fevereiro pelo jornalista Miguel Conde do jornal O Globo, Sader, que ainda não contava com a sua nomeação publicada no Diário Oficial, manifestou plano de “incentivar a intelectualidade a produzir”, na Casa de Rui Barbosa, “uma reflexão mais contemporânea sobre o Brasil”. “Pretendemos fazer ciclos mensais de grandes conferências. O Slavoj Zizek vai fazer o lançamento do livro dele lá. O Istvan Meszaros. Vamos trazer o Eduardo Galeano, a Maria Rita Kehl, a Marilena Chauí, o José Luís Fiori, o Carlos Nelson Coutinho”, afirmou.
A lista do sociólogo Emir Sader e seu interesse em discutir o Brasil contemporâneo soaram como aparelhamento, com um pensamento de esquerda, de uma instituição de natureza liberal. A discussão a partir daí ganhou todo o país, o que foi intensificado com a segunda entrevista de Sader, agora para Paulo Werneck, jornalista d’A Folha de S. Paulo, publicada a 27 de fevereiro: “Tem o corte, o orçamento é menor, e tem dívidas. Desde março não se repassou nada aos Pontos de Cultura. Teve uma manifestação em Brasília. Está estourando na mão da [ministra] Ana [de Hollanda] porque ela fica quieta, é meio autista”, comentou ao tratar da situação orçamentária do Ministério da Cultura.
Emir Sader desmentiu seu comentário no dia seguinte, referindo-se então à manipulação de sua entrevista pela imprensa. Foi quando o jornalista Paulo Werneck divulgou a gravação da entrevista no site da Folha, em que era possível confirmar outra observação desagradável e indecente (“Quem diria que aquele nego baiano [Gilberto Gil, ex-Ministro da Cultura] tem muito mais articulação do que o Caetano?”), além de comentários de baixo calão não divulgados na matéria impressa.
No dia 2 de março, na coluna de Ancelmo Góis, podia se ler que Ana de Hollanda desistiu da nomeação do sociólogo Emir Sader para a presidência da Fundação Casa de Rui Barbosa, o que veio a ser confirmado em seguida no próprio site do Ministério. Se Ana de Hollanda foi nomeada por merecimento ou não, é um fato a se constatar; de antemão, porém, conseguiu fazer com que o Ministério da Cultura se tornasse o centro das atenções do país durante duas semanas.
