
Aos 73 anos, morre Moacyr Scliar, escritor gaúcho que vigorava entre os mais produtivos da literatura brasileira contemporânea. Sem qualquer dúvida, uma perda a lamentar. Scliar recebeu três vezes o prêmio Jabuti: com Manual da paixão solitária, em 2009; Sonhos tropicais, em 1993; e O olho enigmático, em 1988. Foram muitos outros prêmios que recebeu, como o Casa de las Américas e o José Lins do Rego da Academia Brasileira de Letras. Escrevey muitas dezenas de livros de ficção, crônicas e ensaios, e vinha sendo publicado pela Companhia das Letras.
Conheci a obra de Moacyr Scliar ainda no ensino fundamental, com a leitura de um conto seu que constava em uma antologia, ao lado de contos de Fernando Sabino e Oto Lara Resende. Foi uma das primeiras vezes em que senti o prazer da leitura.
A Academia Brasileira de Letras decretou três dias de luto após o falecimento de Moacyr Scliar por falência múltipla dos órgãos.
Michel Laub, na Folha de S. Paulo, escreveu sobre Scliar e sua obra:
Da estréia com “O Carnaval dos Animais (1968) até o elogiado “Eu Vos Abraço Milhões” (2010), foram algo como 70 livros entre romances, coletâneas de contos, crônicas, ensaios e infanto-juvenis. Um conjunto heterogêneo, naturalmente, tanto nos temas e na forma quanto no resultado –que, em seus melhores momentos, teve registros que iam do fantástico/mítico em “O Centauro no Jardim” (1980) ao realismo histórico de “A Majestade do Xingu” (1997).
Os manuais e enciclopédias do futuro devem creditar a ele, na esteira do pioneirismo de Samuel Rawet (1929-1984), a consolidação da temática judaica na literatura brasileira. Mais amplamente, das questões que envolvem imigrantes na sociedade moderna do país.
Nos anos 70, quando Scliar se firmou na geração que tinha João Antonio, Ignácio de Loyola Brandão, Ivan Angelo e outros tantos nomes menos ou mais engajados, os sentimentos característicos desse tipo de personagem –sua estranheza e ambiguidade diante de uma realidade muitas vezes hostil– de alguma forma ganharam ressonâncias políticas condizentes com o espírito da época.
Mas o traço que mais define o autor talvez seja o de contador de histórias. Influenciado por tradições ancestrais como a narrativa oral e a parábola bíblica, poucas vezes ele se colocou acima de seus enredos, tanto em termos de estilo quanto de uma suposta sofisticação psicológica.
Para muitos que o conheceram ou trabalharam com ele –amigos, colegas, as dezenas de jovens escritores para quem ele escreveu prefácios, os editores de jornais e revistas que ele salvou de inúmeras emergências em prazos exíguos–, era como se esse procedimento literário, que transpirava interesse pelos pequenos dramas e comédias humanos, fazendo com que isso chegasse ao leitor da maneira mais despojada e saborosa possível, reproduzisse um traço pessoal seu: a generosidade.

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