Três poetas contemporâneos

Aqui reproduzo o excelente “Arapucas”, texto de Victor Heringer sobre três poetas contemporâneos: Alice Sant’Anna, Ismar Tirelli Neto e Mariano Marovatto:

Poesia não dá futuro a ninguém, apregoa-se por aí. Há nessa máxima um fundo de verdade monetária que nos obriga a dar certa razão ao senso comum. Mas o senso comum, como se sabe, é uma caixa chinesa com muitos fundos falsos, que, ainda que verdadeiros, escondem novos fundos falsos que, por sua vez, bem podem ser verdadeiros. Explico-me. Diante da precária situação dos livros de poesia no mercado editorial, e do mercado editorial no Mercado, há poucos argumentos a favor do futuro do poeta como ente social economicamente atuante. No entanto, há ainda outros argumentos a favor do não futuro do poeta, mesmo como ser pleno em seu ofício.

Poesia não dá futuro a ninguém, sequer ao poeta. Este só ganha certidão nos momentos em que não está sendo poeta. Para todos os demais efeitos, nasce, cresce, se reproduz e morre dentro da idade que escolheu para si e que só acontece no poema. Por esse motivo pode-se dizer, ainda que um tanto temerariamente, que um romancista esteve à frente de seu tempo, mas o mesmo suposto elogio desanca o poeta. É muito próprio, o tempo da poesia; estar à frente dele — ou em qualquer outro canto senão nele — é impossível. Faz antipoema. Que a poesia é feita de palavras cronologicamente palpáveis, mas ela própria passa ao largo da história, ao contrário do romance, rebento luminoso da consciência histórica.

Encontrar o tempo da poesia é tarefa custosa, por impossível. Pode-se apontar e fixá-lo, mas no mesmo instante, ele se torna outro. Há séculos inventamos arapucas interessantíssimas para prendê-lo — tratados e mais tratados — e, quando o vemos dentro da jaula, está do lado de fora nos dando adeus. O tempo da poesia é qualquer coisa de outra coisa, e nem sempre. Terreno muito instável, tanto para o leitor quanto para o poeta. Sem esse chão, porém, poeta e leitor calariam, num dos sentidos que deram os gregos ao verbo: afrouxaríamos demais a voz, e tudo, ou seja, nada, seria poético.[1] Novas arapucas são constantemente necessárias, portanto, e todas armadas com muito apuro para falhar.

Esta é uma das nossas armadilhas de pegar poesia. Trataremos de três poetas — Alice Sant’Anna, Ismar Tirelli Neto e Mariano Marovatto — sem certidão de nascimento a não ser dentro de seus poemas. Apesar de contemporâneos, não são “poetas jovens”; amadurecem nas estrofes que leremos, não em anos. De todo modo, a idade do poeta em nada tem a ver com a idade do poeta. A eles, a poesia não dá futuro. De fato, somente mantenho seus nomes porque não lhes posso dar outros, ofensa que seria à família de cada um. Isto, espero que esteja claro, não é um desdizer da autoria, da vontade que rege a feitura dos versos, mas sua comprovação. Costume de poesia é engolir seu poeta, e só quando fala por si mesma é poesia.

Os três poemas que leremos foram colhidos da internet e me vieram como sempre deveriam vir os poemas: sem que eu os espere. Pelo que sei, nenhum deles foi solidificado em volume impresso, ainda. Estão abertos, maleáveis, possíveis. O segundo (“Os Arquivos”, de Tirelli Neto), inclusive, sofreu pequenas modificações — que recebi por e-mail — enquanto escrevia este texto. Os três podem sofrer alterações drásticas, podem ser deformados, podem deixar de existir fora deste espaço. O toque do papel, esse górgone, ainda não os alcançou. O fato, por mais natural que pareça em tempos pixelados, ajuda a entender a maneira pela qual nos aproximaremos dos três. Tenho um já declarado carinho pela poesia em suporte virtual, por este ser pura potência,[2] por seu caráter ramiforme, acidentário, patrono de todas as desatenções. Frágil. E é justamente dessa fragilidade que falaremos.

Os três poetas são meus contemporâneos: estão vivos, andam por aí, escrevem na minha mesma época. Ao mesmo tempo, cada um deles é contemporâneo à sua maneira; cada um extrai de seu tempo o tempo da poesia e se torna outro: nas palavras de Giorgio Agamben, cada um é a “fratura que impede o tempo de compor-se e, ao mesmo tempo, o sangue que deve suturar a ruptura”.[3] O que, de fato, é este nosso tempo constitui um problema caudaloso demais para este espaço e para minha capacidade, ambos a serviço do prazer do texto, e só. Alguns fragmentos d’água chegarão até nós, pois são matéria dos três poemas, mas, como dito anteriormente, esta arapuca foi projetada para falhar.

 

Alice en el país de lo ya visto


porta-joias

nessa noite, digo, em quase todas
tenho um sonho horrível
como se acordasse
fosse até a pia do banheiro
lavasse o rosto
e ao enfrentar-me ali
de cabelos revoltos
os dentes cairiam um por um
dominós em série
tentaria em vão segurar as pequenas
peças com as mãos
malabaristas, desastradas
que não conseguiriam deter
a porcelana
sugada com força total pelo ralo
meus dentes pelo ralo, os brincos
de marfim que vovó
separou pra mim

 

O verso que usei como título é de Alejandra Pizarnik e protagoniza uma breve anedota. Lembrar-me dele foi a primeira reação que tive quando li Dobradura (2008), de Alice Sant’Anna. As releituras desses e de outros poemas só reforçou a coincidência, e me fez alterar involuntariamente o verso da poeta argentina: passei a grafar o nome na forma portuguesa, fato de que só me dei conta enquanto escrevia este texto. Naturalmente, responsabilizo os poemas da brasileira pelo pequenino ultraje que cometi ao idioma dos nossos vizinhos. A poesia de Alice tem o poder de familiarizar palavras já familiares. Faz maravilha com o já visto e dá a impressão de já termos visto o maravilhoso, como anuncia o dobrável verso de Pizarnik.

Há títulos felizes neste mundo, e Dobradura me parece ser um deles. O que dei a esta leitura, nem tanto, pois pode dar a entender, num primeiro momento, que se deslocou completamente o prodigioso para os lados do conhecido e do previsível. Esse é o resultado do que se dobra: esconde-se um dos lados. Porém, seria infantil supor que o que não se mostra não está lá, como a criança que cobre os olhos com as mãos e acredita que ninguém a vê. As dobraduras da poesia de Alice podem tomar forma de pássaro, flor ou meninas chamadas alberta, mas não se apagam, da mesma maneira que o papel dobrado, se desdobrado, permanece com as marcas que lhe fizeram.[4]

O delicado mecanismo baseia-se num ato simples de articulação, dobrar, que se desdobra: articular como unir (familiarizar) e como dizer. Dizer sem familiarizar não é operação dificultosa; familiarizar dizendo, sim. E implica risco ao leitor: se desatentos, não vemos as dobras de que os poemas são feitos, pelo encantamento que produzem. Encantamento, aqui, é palavra de duplo espanto, note-se. Diz tanto de fruição estética, fruto de artesanato poético, quanto de feitiço, a inspiratio dos nossos antigos. Nem sempre se faz feitiçaria a ritmo de tambores, com idioma em transe: pode-se murmurar ou, como na maioria dos poemas de Alice, dizer. A naturalidade cativa, enreda e só nos mostra do que é feita quando já é tarde demais para se desencantar.

O caso de “porta-joias” é exemplar. O relato de um sonho é iniciado quase com as mesmas palavras de todos os que acordam e contam seus pesadelos a ouvidos à espera do inusitado,[5] e flui, coeso, até o fim. Os ouvidos somente à espera do inusitado, satisfeitos, deixam de ouvir e terminam de tomar o café, talvez exprimindo seu contentamento com um “Hm, que interessante” ou similar. Todos os demais, ao atingirem o último verso, descobrem que estão presos.

Decidir se dentro do ralo, dentro do tempo, dentro de quê, ainda não nos interessa. Estamos presos no “porta-joias”. Fomos sugados pela “força total” das sutis dobraduras do poema. E dobram-se as perdas: os dentes são perdidos duas vezes (da boca para a pia, da pia para o ralo); dobra-se a percepção: acordar dormindo; dobram-se as imagens, duas vezes: a mulher no espelho, a imagem no espelho dentro da imagem do sonho; e, por fim, dobra-se o relato: o contar do sonho não é o sonho (“como se[…]”), mas, por obra de estranha bruxaria, faz com que ele aconteça (“como se[…]”).

A impressão de fluidez, produzida imediatamente pelo tom quase prosaico dos quatro primeiros versos, é reforçada no sétimo, com a sugestão rítmica da rima “rosto” / “revoltos”, que, do verso seguinte (“os dentes cairiam um por um”) em diante, é artificiosamente quebrada. Daí o quebranto: segue o poema, apontando ecos internos, mas fazendo despencar todas as possibilidades de constância rítmica, até os dois últimos versos se resolverem numa aproximação dupla: imagem mental e fônica de parecença, que, ao mesmo tempo, é distinção máxima — um outro familiar em meio de tantos outros estranhos de si: fluidez e fragmentação: os próprios dentes escorrendo pelo ralo. Desdobrando os versos — com cuidado, para não desfazer a pequena caixa montada pela poeta –, chega-se ao outro lado da dobradura, que, aberta, não é mais o dentro da caixa, mas qualquer coisa de outra coisa.

Não sou intérprete de sonhos. Como a poesia, sonhos não querem dizer nada; dizem o que são. Às vezes não conseguem conter o trânsito entre acordar, ver-se, e um a um ir perdendo os dentes. Às vezes são temporais. Às vezes nos prendem numa caixinha de memória familiar (na dobrada acepção do termo — “en el país de lo ya visto”) e ficamos lá, incapazes de sair, maravilhados em perceber que dobrar é aumentar e, ao mesmo tempo, diminuir, como bem diz o dicionário. Nesse pequeno espetáculo, não percebemos que a arapuca falhou, e nem vemos o tempo indo embora.

 

Futuro do pretérito


Os Arquivos

A solidão havia uns monitores em torno.
No-break
. O quadro a largas patadas. Feeria

duma Repartição Pública às 11 da manhã. Agora
os papéis. Não vim aqui para matá-los. Antes
pelo contrário, dar-lhes seguimento. Sou um homem
detrás de seu tempo. Me ultrapassa o que vim
fazer aqui. Uma conjugação imprevista de eventos põe
-me no centro dum acalorado debate sobre o futuro
da Arquivologia. O futuro da Arquivologia está a perigo.
O futuro de nossos papéis. O futuro, coisa sumamente.
Sou um corpo que conjuga eclipses ou algo muito mais
pudorado. Sentia (pregos) a proximidade de um jardim, ou
um terraço, tardava a hora do almoço porque tenho
o estômago fraco para os homens. Que há tanto faltam
nomes. Nenhuma nova. O futuro de nossos papéis está a perigo.
Que sei eu do ludo da língua? O dono da pastelaria berrava
com sua filha em cantonês. Eu sou a filha.
Sorrio quando ele sobe o degrau da calçada ainda
mais estreita de sol, espantando os pombos, voo coxo.
Sou a filha e é preciso não sê-la. Sou involuntária e muda.
Meus pais têm uma pastelaria na Rua São Clemente.
Jamais dominarei o português, mas não tenho faculdades
de saudade, nostalgia, como queira. Tenho a ternura
ingoverna dos que nasceram entre cais. Chamo-me (como
queira). O futuro de nossos Arquivos está a perigo.

(setembro, 2010)

 

Aludindo a um autor que lhe é caro,[6] Ismar Tirelli Neto não é pintor, é poeta. Não pinta com palavras — o que seria um indicativo de que talvez estivesse no ofício errado –; escreve com elas. Nada mais natural e nada mais raro. Entretanto, compartilha a certeza de certos bons pintores de que o melhor pincel é o dedo. Ainda que se utilize dos demais, é ao primeiro e último que retorna, à ternura, substantivo concreto, que se pode tocar.

O eu que permeia seus poemas é instrumento e fim, ainda que o leitor tenda a se perguntar se é, além disso, fonte fidedigna. Pergunta mortal para os poemas, que são feitos de palavras; não é preciso mais que “dar seguimento” a elas, deixar que façam contato, não matá-las. Que a poesia é coisa triangular[7]: no caso de Tirelli, é um tresdobre anatômico de mãos, aorta e olhos. Note-se que a única articulação possível entre os três é o pescoço: a relação entre o eu biográfico, o eu poético e o eu do leitor: o que nunca percebemos a não ser no espelho e o que nos mantêm irremediavelmente vivos. O poema é também o espelho.

A ironia e o wit, dispositivos também caros ao poeta, nada mais são do que um carinhoso golpe de cinzel nesse espelho. O mundo como vitral partido — título de um dos poemas de synchronoscopio (publicado em 2008) — é confissão compartilhável, um estilhaço para cada um e todos. O ato de confessar, que evoca fumos de pecado e é frequentemente confundido com a verborragia da culpa, abandonou há muito a dimensão estritamente pessoal, no caso de Tirelli. Tornou-se personal no momento em que deixou seus cacos apontados para o leitor e o convidou a tocar a superfície do poema, que é também máscara de si. Mas o poeta confessa igualmente pelo leitor, que só fala cantonês, e por meio dessa operação o outro se torna poroso, atingível; a simpatia constrói ponte verbal, do eu ao tu, com todos os perigos envolvidos na travessia. Ternura, substantivo concreto, que, se se pode tocar, também desnuda a pele para as armadilhas de suas arestas.

O jogo constante entre a atração do toque e a repulsão do estilhaço, entre o contato da pele e a ruptura da ferida, se dá nesse tabuleiro triangular, em que tudo é ao mesmo tempo sorte e revés. A pergunta que se impõe, portanto, é a seguinte: como ordenar “conjugações imprevistas de eventos”, como compreender (e empreender) uma arquivologia, se o “ludo da língua” é uma matrioshka cujas bonecas são feitas de cacos de palavras, de ritmo? Nesse entroncamento (que é também quebra, inclusive de ênclises da primeira pessoa), o futuro dos papéis, dos arquivos — “o futuro, coisa sumamente” — está a perigo.

“Os Arquivos” já em seu primeiro verso nos dá o passado de presente. O verbo haver, em sua antiga acepção de “ter, possuir” (e a possibilidade de não ser isso), é a primeira dessas arestas a sobressair num tempo (presente?) incrustado de pontas afiadas e pontos nunca finais. O eu está sozinho, “detrás de seu tempo”, detrás do tempo da poesia: está noutro lugar do sempre outro lugar. Esse intenso deslocamento linguístico-existencial, movimento de potente repulsão, deflagra a reação contrária: até o último verso, a necessidade de nomear para dar seguimento ao tempo, nomear como carícia a berros, será o atrator que o impede de se estilhaçar por completo. É necessário escolher bem as palavras e não emudecer diante da impossibilidade de dominá-las, pois o atrator é também o silêncio, polo oposto e fim involuntário de tudo que é poema. O poema sempre vence, numa arena a que o vencido sequer foi convidado — e, mesmo se fosse, não teria tempo de chegar até lá e assistir à própria derrota. Entretempo, “a ternura ingoverna dos que nasceram entre cais”. Todos os poetas são a filha.

O futuro, o futuro do pretérito, está sempre a perigo. As palavras, ainda que historicamente palpáveis, não são para os arquivos. Querem sair, fazer arestas, pregos. E fazem, sem nos dar respostas ao acalorado debate. Como governá-las, como não se ferir de morte ao manipular seus contornos cortantes? Como suportar a ternura, substantivo concreto? Quem escreveria por nós se todos falassem cantonês?

 

A máquina do mundo bem azeitada

 

Bootleg

Um martelo de parati.
Isto é uma homenagem.
Ele faleceu num acidente de carro.
Ele era burro, porque tudo o que não é notícia é poema.

Revistas velhas exalando cheiro.
O sol no Parque das Catacumbas
e as novas filmagens no metrô de Tóquio.

Um martelo de parati
em homenagem ao guarda-livros,
ao house hunter,
ao vinagre balsâmico
enchendo o Albert Hall de orgulho.

Mariano Marovatto é um auscultador. Esse é seu ofício. Todos os seus sentidos estão a serviço da ausculta, que é tanto o ato de escutar ruídos internos quanto ser a peça do aparelho que os transmite aos demais. Nós, devido ao multíssono caráter do poeta, podemos tanto escutar quanto ler, o que, neste caso específico, são coisas muito similares. Aqui, ouviremos a sonoridade legível (a legibilidade sonora pode ser contemplada acolá).

Já em seu Primeiro vôo (publicado em 2006), Marovatto nos deu certeza de que era um auscultador. Falo, naturalmente, dos “Cadernos de Portugal”, em que nossa já palavra-chave permeia os versos, torna-se esférica e gravita em torno do branco de folha e olho:

………………………ausculta, ausculta

ausculta                       posto que                     ausculta
…………………………tua vida

……………………..ausculta, ausculta

Reproduzo, na medida do possível, a forma dos versos para que a máxima de Ortega y Gasset se compreenda de maneira sonoramente visual, além de fonética: “Há estilos de pensar que são estilos de dançar”. Mas conforme que música?

O pouco que conheço de música costuma ser sintetizado na fórmula de Walter Pater: “Toda arte aspira constantemente à condição de música”. Tempero esse pequeno desespero (não ser músico) com o fato de que, quando Santo Agostinho se propôs a escrever o seu De musica, escreveu muito sobre poesia. “Música é a ciência de modular bem.”, diz, a certa altura. É, portanto, coisa em que há modus, medida.

Há muito tempo o ocidente tira as medidas de seu universo com a fita métrica da música. Melodia, ritmo e, sobretudo, harmonia continuam sendo modelos para o movimento cosmológico, supostamente perfeito: a expressão “música das esferas”, por exemplo, é cria do pensamento medieval e está presente em diversos textos (inclusive em Antônio e Cleópatra: “his voice was propertied/ as all the turned spheres”). O que nos levaria, e leva, à conclusão de que há séculos somos obcecados pela harmonia, de que vivemos babando, através da vitrina, pelo manequim do cosmos.

No entanto, há um problema que se impõe ao poeta-músico. “As obras do passado”, diz Octavio Paz, num ensaio famoso, “eram réplicas do arquétipo cósmico […], uma visão do mundo e uma ponte entre o homem e tudo o que o rodeia”. Porém, o que antes era carregado de sentido, o que configurava uma imagem de mundo, se perdeu no “céu descoberto” da ausência de uma imagem de futuro. A questão, naturalmente, não cabe somente ao nosso auscultador (os dois poemas que lemos anteriormente tratam, à sua maneira, do mesmo problema), mas é dele que falamos neste momento.

“Bootleg” é uma infração. O anglicismo, antes relacionado ao contrabando de bebidas alcoólicas na América do Norte (dentre outras coisas), hoje significa a violação dos direitos de autor, geralmente de músicos. Nós todos somos bootleggers, de certa forma. Mariano Marovatto, músico-poeta, ao escolher esse título, assume-se também como infrator. Sua infração, porém, é de outra natureza, sequer criminosa.

Martelo de parati é dose de cachaça e, apesar de não ser proibida, uma expressão incomum. N’O cortiço, de Aluísio Azevedo, é recorrente, e não me recordo de outro livro em que ela figure. “Um martelo de parati” é também martelo sonoro, verso de marcação rítmica, ao mesmo tempo tambor — golpe de copo em madeira de balcão — e homenagem. Espetáculo no lendário Albert Hall: poema feito de retalhos tomados das nossas falecidas imagens de mundo. Livros, revistas velhas, filmagens, o parque das Catacumbas, ao mesmo tempo repositórios e metáforas, todos são escolhas a serviço da polifonia que é poesia e, sobretudo, música. A aparente aleatoriedade (nunca o é) se sinfoniza sob a regência melódica e métrica: os versos cortantes da primeira estrofe aos poucos cedem e crescem em direção ao último verso, ao sabor da entonação ascendente do enjambement, até a cheia final.

Melodia e ritmo, duas competências musicais que são também poéticas. Harmonia, por sua vez: competência artística e imagem de mundo. Ainda que cheios de orgulho (de tudo e qualquer coisa), não recobraremos as mundivisões perdidas. Não por acaso há, em “Bootleg”, uma espécie muito peculiar de verso harmônico, transcriação de Mário de Andrade:[8] recobrada a sintaxe (linguística e, por que não, existencial), as imagens cortantes se tornam tanto unidade fônica e visual quanto arquivo dos estilhaços do velho mundo, roubados e reorganizados pelo poeta. O verso harmônico (no sentido estrito dado por Mário de Andrade) se autodestrói para projetar uma homenagem harmônica nas paredes do Albert Hall. A homenagem, porém, não é tanto ao inquieto futuro, ao passado ou às coisas mesmas, mas, sim, à infinita possibilidade de recriar todas as imagens das imagens perdidas, em altíssima resolução, ainda que isso seja uma infração aos arcaicos modelos. Em troca de um só telescópio para o futuro (ou coisa que o valha), ganhamos uma máquina do mundo capaz de projetar inúmeras ausências. E uma máquina muito bem azeitada — por não precisar de azeite, somente de um bom auscultador, que a faça funcionar.

 


[1] Terreno instável não necessariamente implica um estado de caos, vejam vocês. A pequena fórmula que usei na frase é de um dos “Aforismos” de Antonio Carlos Secchin, que aclara melhor do que eu a questão: “A poesia não pretende ser espelho do caos, hipótese em que tudo, isto é, nada, seria poético”.

[2] Note-se que era assim que significava o vocábulo virtual antes do advento da internet. De fato, desde o latim medieval, vejam vocês. Não nos esqueçamos dessa acepção.

[3] A citação é de O que é o contemporâneo?, em tradução  de Cláudio Oliveira.

[4] Evito analogias com a tradição nipônica do origami, apesar das possíveis semelhanças saltarem aos olhos. Como acusa o vocábulo tradição, o origami é um sistema de signos que tem existência própria, com profundas raízes culturais. O ato de dobrar para dar forma a algo, ainda que remeta a esse sistema, é obviamente independente dele.

[5] Note-se que é o costumeiro “Tive um sonho horrível nessa noite” e suas derivações (como “Nossa, tive um sonho horrível…” etc.).

[6] Trata-se de Frank O’Hara, “Why I am not a painter”.

[7] O triângulo é o único polígono em que todos os vértices se intercomunicam.

[8] Os versos harmônicos, segundo Mário de Andrade, em seu “Prefácio interessantíssimo”, alinham “palavras sem ligação imediata entre si: estas palavras, pelo fato mesmo de se não seguirem intelectual, gramaticalmente, se sobrepõem uma às outras, para a nossa sensação, formando, não mais melodias, mas harmonias”.

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2 Comentários

Arquivado em Artigo, Poesia

2 Respostas para “Três poetas contemporâneos

  1. Peter Zybgniew

    Pô, é preciso um pouco mais de rigor: escrever sobre a poesia dos “amigos” seria um gesto criticamente ético? Para mim, soa fronteiriço ao “jabá”… Isso é clientelismo… Ainda mais no caso de um nome tão enfadonho e inexpressivo como Tirelli Neto… Está precisando ler um pouquinho de Emmanuel Lévinas, hein, meu querido? Reputo repugnante quando acadêmicos repetem o “modus operandi” do mais decrépito e clientelista jornalismo cultural…

  2. onildo sitonio

    Quando leio esses caras, descubro que poesia real é o que escrevo.

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