Diário da guerra do porco, de Adolfo Bioy Casares

Kelvin Falcão Klein, doutorando em teoria da literatura da Universidade Federal de Santa Catarina, fez a resenha do livro Diário da guerra do porco, de Bioy Casares, lançado no ano passado pela editora paulista Cosac & Naify. A resenha foi publicada no caderno Prosa & Verso do jornal O Globo:

“Diário da guerra do porco”, de Adolfo Bioy Casares, que sai agora em nova tradução (de José Geraldo Couto) pela editora Cosac Naify (208 páginas, R$ 55) traz uma história tensa, feita de violência gratuita e de desconforto. Sem nunca perder a dinâmica narrativa, Bioy Casares apresenta também uma reflexão sobre os fantasmas da intolerância e do preconceito, sempre dispostos a voltar com força total.

Do dia para a noite, surge em Buenos Aires uma série de movimentos juvenis que pregam a violência contra os velhos. A “guerra do porco” é o eufemismo que a imprensa encontra para noticiar os ataques. Isidoro Vidal, o protagonista, que é acompanhado em seus passeios pelas ruas por um narrador na terceira pessoa, encontra olhares cada vez mais hostis, e comentários do tipo: “mas tem gente que provoca, viu”, ou “melhor voltar para casa antes que aconteça algum acidente”. Sem qualquer explicação plausível (como se alguma fosse possível), os jovens formam patrulhas e passam a culpar os anciãos por todos os males sociais.

Um agitador, chamado Arturo Farrell, em seu programa na rádio, instaura a existência de um “limbo”, um espaço imaginário onde ficariam aqueles que visivelmente não são mais jovens, mas que, por outro lado, também não podem ser considerados velhos. Instala-se, a partir daí, um sentimento de paranoia típico dos regimes totalitários e dos estados de exceção: nunca se sabe quando as categorias de extermínio passarão a incluir aqueles que antes estavam de fora; nunca se sabe de onde pode partir uma denúncia, uma represália.

Vidal e seus amigos são obrigados a parar com o jogo de cartas costumeiro, porque já não podem mais sair à noite. Toda movimentação é vista como provocação. A população virou “manada”, diz o narrador, e só responde com ira e pensamento de rebanho. Os velhos que restam, Vidal e seus amigos entre eles, resistem com a memória, reivindicando a cidade sitiada. Um deles afirma que havia uma lagoa na Calle Malabia, outro diz que havia uma lagoa também em frente à capela de Guadalupe. A cidade que sempre teve a fidelidade dos idosos guarda, agora, novos perigos a cada esquina. Eles temem cada sombra, cada tronco de árvore na escuridão.

Talvez o momento mais impressionante do livro seja aquele em que o grupo, de luto, levando o caixão de um dos amigos para o cemitério da Chacarita, é recebido com uma chuva de pedras. “Caímos na ratoeira”, diz um deles, ainda dentro do carro. Vidal só consegue ver um bando de pessoas que dançam e dão risadas, enquanto arremessam as pedras. Ele foge por entre os túmulos, sem saber por aonde ir. Depois de vagar a esmo pelas ruas e de ser expulso de um restaurante, ele encontra um taxista, velho como ele, que o leva para casa. O motorista lhe diz que, “por esporte”, “eles assaltam os velhos e depois os jogam por aí”. O texto de Bioy Casares, nessa passagem, é preciso, fazendo com que o leitor só adquira consciência do que acontece enquanto o fato acontece. Consegue transmitir, a partir de descontinuidades e cortes abruptos, a insegurança e o risco extremo que sofre Vidal em sua fuga.

Ainda que seja possível localizar a ação de Diário da guerra do porco em algum ponto da década de 1940 – Bioy Casares somente especifica que se tratam dos últimos dias do mês de junho -, sua ambiência percorre tanto o passado quanto o futuro. A linda edição que agora temos disponível abre e fecha a história com duas fotos de Horacio Coppola, imagens de Buenos Aires da década de 1930. As fotos de Coppola são testemunhas de um passado que segue passando, imagens dessas forças históricas que formam o subtexto de Diário. Forças históricas não resolvidas, traumáticas, e que certamente permanecerão abertas, indo e voltando na história. Uma sociedade que rechaça sua memória e que valoriza só o que é imediato e aparentemente novo: esse é o ponto no qual toca Bioy e que segue nos tocando.

Como no Sobre heróis e tumbas de Ernesto Sabato, o livro de Bioy Casares também transita pelos subterrâneos da cidade, mostrando os cortiços, os bares e os armazéns de bairro, testemunhando a metamorfose de seus espaços. E percorre também, assim como Sabato, Borges ou Leopoldo Marechal, as teorias conspiratórias que a história teima em negligenciar e a ficção teima em alimentar. Há também a tensão política de George Orwell (principalmente na voz radiofônica que paira sobre os conflitos da cidade) e os dilemas da decadência do corpo e do desejo que encontraremos em autores contemporâneos, como Philip Roth, Paul Auster ou J. M. Coetzee. Vidal, ainda que perseguido como idoso, movimenta a história também a partir da afeição que nutre por Nélida, uma moça que vive no mesmo cortiço que ele. Essa ambivalência entre morte e vida, fim e recomeço, surge já no fim do livro, e encaminha a resolução da vertigem daqueles dias de fim de junho.

Alguns poderiam questionar a validade de um texto que traga a intolerância e o espancamento gratuito como temas, uma vez que temos tudo isso disponível no noticiário. Talvez a ficção surja, aqui, mais como um fórceps do que como um espelho da realidade, deixando o leitor com os olhos mais abertos, mesmo que seja por conta do assombro diante do que vemos.

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