O novo livro de Francisco Bosco por Nuno Ramos

Este é um livro estranho, de classificação difícil e, no limite, quase místico. A ascese, no sentido da passagem e da transformação, é seu propósito, a solidão seu veículo e o sacrifício seu tema recorrente.

De que fala, afinal? Seria o seguinte: usando os conceitos de Ato e de Real, fortemente marcados pelo lacanismo, o livro forma constelações, ou conjuntos, de situações pessoais e/ou comentários de obras, examinando a irrupção até uma mudança, numa passagem ao descontínuo – valendo-se sempre do Ato (aquele capaz de cindir o sentido de uma vida) que abre caminho ao Real (o grande outro, o nunca imaginado).

Bem, isso é o que o livro quer ser, cumprindo com grande sucesso este percurso mais explícito. É notável aqui, em especial, a passagem entre o pessoal e o cultural, entre a alta e a baixa cultura, entre o fácil e o difícil, entre a observação efêmera e o conceito duradouro, num vai e vem esparramado pelos assuntos e pelas coisas. Há duas forças que parecem mover o livro neste nível: uma curiosidade por tudo e por todos e um à vontade, um acesso intelectual sem grandes grilos nem fantasmas (daí o número pequeno de citações).

Mas o que de fato lhe é próprio, a meu ver, é uma estranha imersão que o leitor logo percebe, como uma placenta que envolve o próprio querer do livro, anterior e maior do que ele. Essa placenta, espécie de subjetividade fixada, persistente, quer durar, como a refração de um cristal. De modo que lemos o livro sempre nos perguntando por ele, sem ter acesso verdadeiramente desimpedido a seus assuntos ou a seu aparato conceitual. Que livro é este que estou lendo, afinal? O que ele quer? A opacidade do livro é sua grande originalidade, e deve ser compreendida.

Acho que o livro pergunta essencialmente (e quase deseja) por uma crise. Inominável, disforme, completa, essa crise ronda como um eco de fundo cada frase e cada raciocínio, e é seu elemento verdadeiramente unificante, a um só tempo pessoal e cultural. Tudo aqui parece equilibrado sobre a água, formando constelações provisórias, como se o pensamento ecoasse pelas coisas à maneira do grito famoso de Munch: em ondas que se distorcem para tudo alcançar. O mundo descrito por Francisco Bosco quer quebrar-se, ou está prestes a. Espalhado em filmes, livros, canções, memória, o momento anterior ao estampido de uma bomba quer ser pensado. Como seria se ela explodisse? Como será?

Assim, no limite, é da salvação que este livro trata, como alguém que se oferece ao terremoto, à tempestade, às ondas de um tsunami. Pois em todo sacrifício, é preciso que o lado de lá (o Real?) aceite a oferenda. É o rumor desta resposta que o livro procura escutar.

Nuno Ramos

 

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