Reproduzo aqui a coluna A voz do Brasil de setembro, publicada na revista portuguesa Ler:
HQ PARA TODAS AS IDADES
Antes, no Brasil, os quadrinhos ficavam limitados a cadernos de cultura de grandes jornais do país, a pequenas editoras – ligadas ao cenário urdenground de cidades mais cosmopolitas, como Porto Alegre e São Paulo –, e a revistas de humor ou infanto-juvenis. Destacavam-se então A Folha de S. Paulo com os já clássicos Angeli e Laerte; a Devir Livraria, que tem em seu catálogo uma série de livros de Lourenço Mutarelli; o genial trabalho de Henfil n’O Pasquim e as revistinhas de banca de Mauricio de Sousa, com a sua Turma da Mônica a marcar muitas gerações de crianças e a formar, consequentemente, novos leitores.
Agora os quadrinhos vêm conquistando espaço no mercado editorial brasileiro e na internet. Encontram-se disponíveis ao público tanto O Cabeleira, de Allan Alex, inspirado no livro homônimo de Franklin Távora, um precursor do realismo do século XIX, quanto o trabalho ácido, violentíssimo de André Dahmer, cotidianamente atualizado em seu site. Dezenas de livros estão sendo lançados mensalmente, por pequenas e grandes editoras.
Um dado significativo nesse processo de valorização dos quadrinhos é a sua adoção no ensino fundamental e médio. O próprio Ministério da Educação tem comprado e distribuído para bibliotecas e escolas públicas não apenas adaptações de clássicos da literatura, mas também obras originais em quadrinhos. A aguardada participação de Robert Crumb na Festa Literária Internacional de Paraty e o protagonismo dessa figura irreverente durante os cinco dias do evento são outras marcas do interesse crescente em torno dos quadrinhos.
Porém, como índice de aceitação e ao mesmo tempo de legitimidade desse gênero, poucas iniciativas foram tão representantivas quanto o lançamento de Cachalote, de Daniel Galera e Rafael Coutinho, parceria eficiente entre um escritor e um quadrinista. O marketing da Companhia das Letras investiu pesado em sua divulgação, com matérias em diversos órgãos da imprensa e promoção do livro em várias cidades do país. Paulo Ramos, professor de língua portuguesa da Unifesp, autor de A leitura dos quadrinhos e Quadrinhos na educação, esclarece em seu Blog dos quadrinhos do site Uol a grande inovação desse livro: “O que é revolucionário, isso sim, é a proposta da RT Features, empresa que bancou a parceria entre Galera e Coutinho. A proposta é dar a prioridade do projeto à Companhia das Letras. Se aceito, a editora publica e a RT fica com os direitos de adaptação para outras mídias. A empresa já patrocina outras parcerias de escritores e quadrinhistas […]. A se pautar por Cachalote, o resultado tende a dialogar com um público não leitor de quadrinhos e ajuda a construir um novo mercado para a produção nacional. É algo novo, que pode render bons resultados.”
Em Cachalote, Galera e Coutinho criaram cinco histórias: um acidente envolvendo um astro decadente do cinema chinês; um escultor bruto como a matéria de sua arte; um playboy que é expulso de casa; um vendedor de uma loja de serragens e a sua relação com uma jovem linda e frágil, além do relato da ligação entre um escritor deprimido e a sua ex-mulher. Todo em preto-e-branco (menos a capa), com ilustrações bem-realizadas, esse livro dispensa maiores diálogos e parece se guiar pelas imagens. Em função da características das ilustrações, muito bem-resolvidas e com um caráter narrativo em si mesmas, a leitura ganha um ritmo ágil e agradável. As cinco histórias funcionam independentemente, porém estão em contato pelo cenário decadente que compartilham, bem como pela mistura do tom realista e fantástico nelas presente. A contar por Cachalote, de fato, a literatura de quadrinhos vai ganhar novos leitores e abrir caminhos para a publicação de outras obras dessa natureza.
VINICIUS, EMBAIXADOR
No dia 12 de agosto, em Brasília, Vinicius de Moraes foi postumamente promovido a embaixador. A homenagem foi liderada pelo presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, que afirmou: “O que estamos fazendo aqui é quase um processo de reparação. Vinicius era um ser superior que, expulso, continuou crescendo”, referindo-se então à expulsão de Vinicius do corpo diplomático brasileiro por ordem da ditadura, em 1969. “Muitas vezes no Brasil deixamos de exaltar vítimas do período do autoritarismo, e ficamos preocupados com quem reprimiu, quem matou e com isso nos esquecemos de dar valor a nossos heróis.”
ENFIM, REUNIDOS
Marlene de Castro Correia é professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Intelectual de grande competência, personalidade e rigor, Marlene é uma das maiores leitoras da lírica moderna no Brasil. Faz parte de uma geração de mestres pouco dados à publicação de livros, pois ela e seus contemporâneos dedicavam-se exaustivamente ao ensino, no cotidiano produtivo das salas de aula das faculdades de letras.
Contudo, para o deleite dos estudiosos de poesia brasileira, acaba de ser lançado, pela editora Azougue, o livro Poesia de dois Andrades (e outros temas). Nesse livro essa professora emérita analisa as referências díspares das “Ideias íntimas” de Álvares de Azevedo; da poesia de Drummond, extrai os seus topoi modernistas e faz uma leitura sensível de como o maior poeta brasileiro constrói o “Nosso tempo”; a partir de Pauliceia desvairada, conduz os leitores ao caráter precursor da poética de Mário de Andrade; também demonstra como alguns dos mais importantes cordelistas brasileiros tiram, do lugar-comum, o lugar-incomum de sua poesia; e apresenta um estudo do arrebatador teatro de Gonçalves Dias, dando-lhe o devido reconhecimento.
Uma reunião de ensaios em que não fica evidente apenas a técnica dessa experiente professora, mas também a paixão com que Marlene de Castro Correia se dedica a alguns seus autores mais queridos.
A(S) MEMÓRIA(S) DE ZÉLIA GATTAI
Há quem só conheça Zélia Gattai por ter sido casada com Jorge Amado por 51 anos. Contudo, trata-se de uma excelente narradora. A matéria de sua obra? A memória, uma preciosa e vasta memória, que agora está sendo reposta aos leitores sob a chancela da editora Companhia das Letras. Acaba de ser republicado o livro A casa do Rio Vermelho, que relata, entre outros fatos, a despedida de Pablo Neruda. É um livro comovente, divertido e cheio de causos.
O AMOR DE CUENCA
João Paulo Cuenca nasceu no Rio de Janeiro, em 1978. É autor dos romances Corpo presente (Planeta, 2003) e O dia Mastroianni (Agir, 2007). Tem sido considerado, por boa parte da imprensa, como um dos nomes mais expressivos da ficção brasileira contemporânea. Tomando pelos seus dois primeiros livros, tais declarações soavam para muitos com um certo exagero. Agora, com a publicação de O único final feliz para uma história de amor é um acidente, lançado pela Companhia das Letras na coleção Amores Expressos – da qual ele é um dos idealizadores –, a sua obra conquista, com mais solidez, uma posição de destaque entre os autores da sua geração.
O romance, que se passa no Japão, num futuro próximo, tem como protagonista Shunsuke Okuda, “burocrata corporativo enfurnado numa baia […], convivendo com um profundo e mal disfarçado desprezo” por seus colegas. No entanto, seu cotidiano enfadonho é perturbado ao conhecer a garçonete polonesa-romena Iulana Romiszowska, por quem ele se apaixona e a quem ele revela o nome próprio, contrariando o procedimento habitual de criar perfis fictícios ao tramar as suas conquistas. O conflito principal da narrativa não se firma nas diferenças entre os dois, mas, estranhamente, no pai de Shunsuke, o Sr. Atsuo Okuda, um mestre da perversão. Sim, trata-se de um voyer que, em um submarino, na sala do periscópio, observa a vida não apenas alheia, mas também a de seu filho, que sabe disso: “Descobri a Sala do Periscópio […]. Nela, organizadas por data e hora, estão gravações clandestinas dos meus primeiros encontros sexuais em motéis de Shibuya, e também de conversas, discussões e reatamentos em jantares, passeios e tardes da minha adolescência.” É nessa sala que seu pai lhe revela: “– Um dia você entenderá que o único final feliz possível para uma história de amor é um acidente sem sobreviventes. Sim, Shunsuke, meu estorvinho, meu pequeno fugu idiota: um acidente sem sobreviventes.”
Sem qualquer dúvida, trata-se do livro mais bem-composto de Cuenca, maduro e emocionante. Consegue, habilidosamente, fugir dos clichês mesmo contando uma história de amor. Este romance está repleto de marcas de acidez, num Japão que parece um inferno com todos os seus apelos cromáticos, a costurar o tom de toda a narrativa.
Espero que os portugueses tenham logo este novo livro de João Paulo Cuenca e possam conhecer uma das melhores realizações da coleção Amores Expressos.
PRÊMIO SÃO PAULO
Raimundo Carreiro, com A minha alma é irmã de Deus, e Edney Silvestre, com Se eu fechar os olhos agora, ambos da editora Record, conquistaram o prêmio São Paulo de Literatura 2010 na categoria melhor livro do ano e estreante, respectivamente.