Autores e Livros

A voz do Brasil – coluna de julho

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Avante!

Luiz Ruffato lançou O mundo inimigo pela editora Métailié, em Paris; colaborou para o jornal Le Monde; em seguida, deslocou-se para Lion, onde participou de um congresso sobre o romance. Já publicado na França, Itália e Portugal, o autor de Eles eram muitos cavalos vai conquistando leitores na Europa e consolidando, no exterior, a sua notável ficção.

Sem fraternidade

Ladrão de cadáveres é o novo romance de Patrícia Mello. Trata-se do seu primeiro inédito lançado pela editora Rocco, após muitos anos de parceria da autora com a Companhia das Letras. O narrador de Ladrão de cadáveres, angustiado e oprimido, sai de São Paulo para Corumbá. “Ele é íntimo, solícito, até gosta de você. No entanto, nada disso o impede de destruir a nossa vida”, afirmou a autora para Ubiratan Brasil, do jornal O Estado de S. Paulo.

O lugar do deslocamento

Paloma Vidal nasceu em Buenos Aires em 1975. Aos dois anos, mudou-se com a sua família para o Brasil, residindo então na cidade do Rio de Janeiro. É professora de Teoria da Literatura da Universidade Federal de São Paulo, a Unifesp, cuja Faculdade de Letras foi recém-criada. Autora dos livros de contos A duas mãos (7Letras) e Mais ao sul (Língua Geral).

Paloma agora se lançou ao romance, Algum lugar (7Letras), que está na lista dos 54 finalistas da edição de 2010 do prêmio Portugal Telecom de Literatura. A epígrafe de Silvina Ocampo com que abre o seu novo livro (“Se llega a un lugar sin haber partido de otro, sin llegar”) anuncia com precisão as indefinições que perpassam esta narrativa densa e vibrante. Uma narrativa que trata da experiência de deslocamento e parece deslocar também a estabilidade do próprio romance como gênero. Há nessa obra uma mistura de ensaismo e ficção, mas o seu ensaismo resulta de um aprofundamento psicológico que a personagem-narrador faz em relação a si mesma e a seu companheiro, ambos estranhos estrangeiros numa Los Angeles árida e asséptica.

Uma das vias de compreensão do romance encontra-se em suas primeiras páginas, quando a personagem dá partida na leitura de Rua de mão única, de Walter Benjamin, com introdução de Susan Sontag. A frase “He was what the French called un triste” desse livro traz uma promessa de um texto em que “subjetividade e crítica são uma coisa só porque se entende que a vida e o trabalho são uma coisa só”. A partir daí, busca-se uma “escrita capaz de condensar a experiência”.


Algum lugar é um romance da vida passada a limpo, contudo o processo de escritura revela uma série de obstáculos em função de toda a incerteza do momento: o casal está isolado, perdido, e a narradora muito mais que seu parceiro. Pois se ele foi estudar em Los Angeles, ela foi acompanhá-lo. Todo o seu compromisso se estabelece, portanto, no campo da afetividade, que também é questionado por causa de sua primazia e protagonismo. E o fato de estar presa unicamente ao afeto, um afeto com o isolamento que o país estranho sempre eclode, leva a narradora a assumir uma posição de flâneur ante a cidade e a própria vida.

Dividido em três partes, Algum lugar simula, em sua estrutura, a sobreposição de geografias que se põe aos personagens desse livro: “Los Angeles”, “Rio de Janeiro”, “Los Angeles”. Na segunda parte, “Rio de Janeiro”, a narradora se sente tentada a sobrepor uma geografia sobre a outra para medir o seu “grau de deslocamento” ou “forçar uma adaptação necessária”. E a sobreposição de geografias vai se manifestando cada vez mais como alegoria da própria sobreposição de desejos. É sobre a análise do deslocamento do desejo que o romance parece se ater, por meio de uma linguagem clara, elegante e sofisticada.

O novo prêmio Camões

Ferreira Gullar nasceu em São Luís do Maranhão, a 10 de setembro de 1930, “numa porta-e-janela da Rua dos Prazeres / ao lado de uma padaria / sob o signo de Virgo / sob as balas da 24.o BC / na revolução de 30”. Desde então seu corpo “segue pulsando como um relógio”.

Mas não apenas o corpo pulsa: a linguagem desse Poema sujo e de toda a obra de Gullar pulsa há muito, com a força de quem soube tirar o metal da resistência a partir das “aulas de solidão / entre as coisas da natureza / e do homem”. E o oferecimento do prêmio Camões a Ferreira Gullar é mais um justo reconhecimento da dimensão de sua arte e de sua pessoa, pois trata-se de um caso em que o artista e o cidadão caminham lado a lado, sob os mesmos princípios éticos.

Glauber Rocha relatou que nos anos 1950 os poetas das “Províncias Nacionais” falavam de um retirante “moreno e magro como um filho de Antônio Conselheiro”. Um retirante combativo contra qualquer forma de reacionarismo, seja das artes, seja da política. Era Gullar, recém-chegado à cidade do Rio de Janeiro.

Quatro anos depois lançou A luta corporal, um livro interessado pelas coisas orgânicas, que aparecem submetidas ao influxo da morte. O autor explora a construção de imagens dramáticas, violentas e de alta plasticidade, ora em torno de seres animados, como no poema “Galo galo”, ora em naturezas-mortas, conforme os notáveis versos de “A pera”.

Em 1955 tornou-se um dos principais colaboradores da brilhante equipe do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, que provocou uma revolução (o termo não é um exagero) na imprensa. Desenvolveram um projeto gráfico inovador, “à Mondrian”, como afirmaram Gullar e Amilcar de Castro. O caderno apresentava uma diagramação fora do comum, que investigava criativamente a visualidade das palavras e a mancha gráfica do texto. Suas páginas abertas mais pareciam uma obra de artes plásticas e os textos nelas publicados só aumentavam a sua qualidade, como os de Clarice Lispector, José Guilherme Merquior e Mário Pedrosa.

Participou da I Exposição Nacional de Arte Concreta, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, em 1956, mas em seguida rompeu com o grupo concretista em função do artigo “Da psicologia da composição à matemática da composição”, publicado pelo grupo paulista. No fim do anos 1950 publicou dois textos fundamentais para os rumos das artes plásticas no Brasil, o “Manifesto neoconcreto” e a “Teoria do não-objeto”.

Nos anos 1960 começa a reavaliar a importância da experimentação. Ingressa no Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes e torna-se um artista mais engajado politicamente, o que vai trazer significativas mudanças a sua obra. Em 1964 filia-se ao Partido Comunista e publica o ensaio “Cultura posta em questão”, queimado pelos militares numa fase de grande autoritarismo do Estado. Contudo, sem arrefecer, cria o Grupo Opinião com Oduvaldo Viana Filho e outros companheiros. Escreve peças que revelam muito do clima a que a população civil se via submetida com a repressão.

Após a assinatura do Ato Institucional N.o 5, exila-se em diversos países durante os anos 1970. É lançado no Brasil, em 1975, Dentro da noite veloz, seu novo livro de poemas. Nesse mesmo ano, ao encontrar-se com Gullar em Buenos Aires, Vinicius de Moraes traz às escondidas para o Rio de Janeiro uma fita cassete com o Poema sujo. “A poesia solteira tinha deixado de me interessar diante da impotência dos poetas para fecundá-la, para manchá-la de sangue, suor e sêmen, para banhá-la de lágrimas de amor, para cobri-la da saliva grossa de beijos apaixonados. De maneira que para mim o reencontro dessa poesia simples, orgânica, crua, fecunda, emocionante, – e paralelamente dotada de um grande poder de síntese; essa poesia nascida no quintal das palavras e escrita por esse que eu considero o último grande poeta brasileiro, me tocou até as vísceras”, disse Vinicius de Moraes no artigo “Poema sujo de vida”, publicado em 1976 na revista Manchete. Gullar desenvolvia então um poema extenso, sem comparação na poesia brasileira do século XX, um misto de épico e drama, autobiográfico e politizado, intimista e ao mesmo tempo comprometido com as questões sociais. Não à toa sofre represálias da Polícia Política e Social em 1977, quando retorna do exílio.

Nos anos 1980 e 1990, lançou diversos livros, alguns dos quais podem ser lembrados com especial admiração, como Na vertigem do dia e Muitas vozes (poemas); Argumentação contra a morte da arte (crítica); Cidades inventadas (ficção); Rabo de foguete – Os anos de exílio (memórias). Completará 80 anos em setembro, quando a editora José Olympio vai publicar Em alguma parte alguma, com seus mais novos poemas. Sem qualquer dúvida, mais um motivo para o relógio pulsar.

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