Publico aqui, atrasado, a minha coluna de abril da revista portuguesa Ler.
Experiências do deslocamento
O caderno Prosa & Verso do jornal O Globo convidou, no fim do ano passado, alguns dos mais atuantes e respeitados críticos da literatura brasileira para fazer um balanço da década, apresentando então uma lista dos dez melhores livros publicados nos anos 2000. Podiam entrar nessa escolha quaisquer títulos nacionais de ficção ou de poesia.
Entre os selecionados, Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato, vem ocupando destaque crescente na história da literatura contemporânea. Ter sido escolhido nessa enquete de especialistas é mais um sinal consistente de que ele está se tornando um clássico da nova prosa ficcional.
Questionado sobre a recepção desse romance, Ruffato comenta, em entrevista exclusiva para a Ler: “Quando entreguei esse livro à editora (na época, a Boitempo, de São Paulo) a recepção, embora calorosa, foi realista: ‘Esse livro é incompreensível… é anticomercial… é difícil…’ E eu também achava isso… No entanto, naquele ano ele ganhou os principais prêmios da crítica (da Associação Paulista de Críticos de Arte e da Fundação Biblioteca Nacional), recebeu destaque em todos os grandes jornais, em quatro meses já circulava com uma nova edição (está na 6.a e em breve sairá a 7.a), em edição de bolso, foi traduzido (para o francês, italiano e em breve para o espanhol, além de ter sido publicado em Portugal – uma edição pirata, diga-se de passagem, sem contrato e sem pagamento de direitos autorais), ganhou as universidades (tem diversas teses no Brasil e no exterior)…” Para o autor, o sucesso de Eles eram muitos cavalos é um “mistério”.
A princípio, em função das cacterísticas desse romance, onde se encontra um mosaico complexo da diversidade cultural, econômica e social do Brasil, numa tentativa de registro de personagens geralmente anônimos na grande cidade que é São Paulo, tal sucesso parece mesmo um mistério. Conforme depoimento do próprio autor, trata-se de um livro “difícil”, ou seja, suas estratégias narrativas não coadunam com as formas da prosa linear, tradicional, com enredo unívoco delineando uma trama clara e previsível. Ao contrário, Eles eram muitos cavalos buscam justamente os interstícios de São Paulo, traçando perfis fragmentados, comoventes, de quem sofre de invisibilidade social. Um romance formado de muitas vozes discursivas, que se posicionam de vários modos frente à realidade de quem precisa matar um leão por dia.
Nesse sentido, Luiz Ruffato revelou, antecipadamente, um aspecto que foi se tornando cada vez mais central nos anos 2000: as margens urbanas, seus personagens, tramas e traumas. Justamente aqui talvez seja possível evidenciar um dos motivos de seu sucesso: Eles eram muitos cavalos mostram, sem abandono da profundidade comum aos personagens do romance burguês, as dificuldades, problemas e sentimentos da classe trabalhadora no Brasil. Ruffato tira-os então do domínio dos estigmas e lhes dá a visibilidade de que precisam para humanizar-se. Em outras palavras, talvez seja pela capacidade de nos mostrar o que sempre ficou escondido que Luiz Ruffato tenha conseguido alcançar um lugar de destaque na ficção brasileira contemporânea.
Mas não apenas. É também muito significativo o seu intento laborioso para estabelecer um contato frontal com os projetos literários de José de Alencar e de Mário de Andrade, escritores fundamentais para compreender o Brasil através da ficção. No entanto, o diálogo que Ruffato estabelece com eles não é estilístico nem formal: ele busca reproduzir a capacidade que esses dois autores tiveram – e ainda têm, de certa maneira – de lançar reflexões sobre as estruturas culturais, econômicas, políticas e sociais do Brasil. Além disso, há, com finalidades distintas, um interesse comum entre eles no que diz respeito ao aproveitamento dos mitos norteadores do país. E no caso da ficção de Luiz Ruffato, o grande mito é a própria grande cidade, São Paulo, síntese de diversidades, foca de brutalidade, injustiça e violência típicas dos centros urbanos. Trata-se portanto do mito de quem se lançou – e ainda se lança – ao movimento migratório do campo para a cidade, tão característico do Brasil durante todo o século XX, com ele se pretendendo conquistar, dessa maneira, uma vida mais digna.
Em seu romance recém-lançado, Estive em Lisboa e lembrei de você, da coleção Amores Expressos da editora Companhia das Letras, Luiz Ruffato driblou a proposta original: criar histórias de amor que se passam em alguma capital do mundo. A história do personagem Serginho em Lisboa é de desamor, desgraça e sobretudo deslocamento, confirmando assim o projeto literário de Ruffato, que reúne a ficção e o documental, a poesia e a prosa, para mostrar uma literatura que não é indiferente ao seu povo. Ao procurar o amor e a riqueza em outro país, Serginho é colocado numa situação radical de deslocamento (afetivo, emocional, linguístico, por exemplo), em que é possível vislumbrar uma outra forma de esse fantástico autor redimensionar a sua própria literatura.
Não gosto de plágio
Denise Bottmann faz parte do melhor time de tradutores brasileiros. Seu currículo conta, entre outras, com as traduções de Compreender, de Hannah Arendt; Freud – uma vida para o nosso tempo, de Peter Gay, e O amante, de Marguerite Duras. Trabalha para editoras de prestígio, com reconhecido cuidado na seleção do catálogo e na produção dos seus livros, como Cosac & Naify e Companhia das Letras. Se não bastasse, desde 2007 Bottmann se dedica a tornar públicos, no seu blog Não gosto de plágio, algumas cópias ilícitas de traduções.
No dia 6 de janeiro deste ano, denunciou a editora Landmark de ter plagiado a tradução de Persuasão, de Jane Austen, assinada por Fábio Cyrino, que também é diretor editorial dessa casa: “[…] a Persuasão do sr. Fábio Cyrino apresenta um grau de similaridade com a tradução de Isabel Sequeira, publicada pela Europa-América em 1996, que lhe dá credenciais suficientes ao título de plágio”, afirmou a tradutora. Até mesmo as gralhas e os erros de tradução se repetem de uma edição para outra.
Em outro post, de 15 de janeiro, Denise constatou o plágio da mesma Landmark, agora surrupiando a tradução que Vera Pedroso fez de O morro dos ventos uivantes, de Emile Brontë, da editora Bruguera. No ficha catalográfica do livro, diz ela, “a suposta tradução consta em nome de uma misteriosa ‘Ana Maria Oliveira Rosa’”.
O mais surpreendente, contudo, foi o desdobramento da denúncia: “Numa ação movida pela editora Landmark e pelo sr. Fábio Cyrino, estou sendo processada por pretensas calúnias contra os reclamantes, por ter publicado no nãogostodeplágio provas mostrando a prática de plágio […]”, afirmou Denise a 23 de fevereiro em seu blog. As consequências dessa ação trazem novos indícios da inteligência apurada do sr. Fábio Cyrino: o caso ganhou repercussão nacional e internacional.
Heloisa Jahn, Ivo Barroso, Ivone C. Benedetti e Jorio Dauster, respeitados tradutores brasileiros, lançaram o Manifesto de Apoio a Denise Bottmann, buscando “desmascarar” a prática do plágio, que: “1. fere a Lei de Direitos Autorais, que considera o tradutor como autor de obra derivada e salvaguarda seus direitos morais e patrimoniais; 2. configura concorrência desleal, pois as editoras de má-fé, não arcando com os custos dos direitos de tradução ou não pagando por uma retradução, põem em desvantagem as editoras que, pautando-se pela idoneidade, assumem tais custos; 3. atenta contra nosso patrimônio cultural, ao disseminar a cópia fraudulenta de obras muitas vezes assinadas originalmente por nomes reconhecidos e estimados de nossa literatura.” Apoio ao manifesto: http://www.petitiononline.com/Bottmann/petition.html!
Saraiva no varejo
A editora Saraiva anunciou sua entrada no mercado de edição de livros de ficção e não-ficção. Uma das maiores livrarias do Brasil, com venda de 22 milhões de exemplares em 2009, a Saraiva lançará 65 livros até o fim deste ano.
A cara nova da Gryphus
A editora Gryphus mudou-se para a Gávea, no Rio de Janeiro e apresentou novos sócios. Agora Gisela Zincone divide os negócios com Alfredo Gonçalves (um dos fundadores da Objetiva) e Augusto Manso. Entre os livros planejados para 2010, A traça feiticeira, de Senna Fernandes.
Finalmente, um tempo para leitura
O caderno Cultura, do jornal Estado de S. Paulo, foi substituído pelo Sabático – Um tempo para leitura. O novo caderno vai se dedicar exclusivamente à literatura e ao mercado editorial, com ilustrações, notas, perfis e resenhas.