Reproduzo aqui a coluna A voz do Brasil de feveiro de 2010, que tem como principais assuntos o novo romance de Luiz Alfredo Garcia-Roza, Céu de origamis, e o discurso das periferias:
Twitter dos imortais
Marcos Vilaça, presidente reeleito da Academia Brasileira de Letras, manifestou-se recentemente a favor da web. Logo após a sua posse, em dezembro do ano passado, Vilaça lançou o twitter da ABL, inaugurado com esta mensagem: “Se eu tuíto, tu tuítas e eles tuítam, a academia também tuíta.” Entrevistado acerca dessa iniciativa, o chefe dos imortais argumentou: “Há quem diga que é uma ferramenta […] que atrofia. Mas eu não vejo assim. Olhe, se uma pessoa consegue passar toda uma ideia em 140 caracteres, ela é atrofiada ou possui um bom poder de síntese?”
Assim, puf

Luiz Alfredo Garcia-Roza nasceu em 1936, no Rio de Janeiro, que também é o cenário de seus romances. Formado em filosofia e psicologia, Garcia-Roza era professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, mas trocou a vida acadêmica para dedicar-se integralmente à ficção policial. Com O silêncio da chuva, seu livro de estreia, recebeu os prêmios Nestlé de Literatura (1996) e Jabuti de Melhor Romance (1997). Desde então o delegado Espinosa, personagem recorrente de seus livros, vem ganhando cada vez mais prestígio entre críticos e leitores. No final do ano de 2009 a editora Companhia das Letras publicou Céu de origamis, seu nono romance.
Nessa obra recém-lançada, o personagem Marcus Rosalbo, dentista, desaparece sem deixar pistas. Ao concluir um dia de trabalho, ele fecha o escritório, em Copacabana, e vai de carrro para casa, a poucas quadras dali, no Leme, onde a mulher o aguarda para jantar com amigos. No entanto, Marcus não chega ao apartamento, apesar de o carro ter sido estacionado na garagem.
Adriana Rosalbo, sua mulher, procura então o delegado Espinosa, que, de licença médica, recupera-se de uma cirurgia. Sedutora, Adriana consegue convencê-lo a acompanhar, extraoficialmente, o caso. É desse modo que o delegado, conhecido pela sua compreensão e sensibilidade – um caso especial entre os detetives, dizem pelo bairro de Copacabana, onde se encontra o departamento policial onde trabalha –, começa ao mesmo tempo a retomar gradativamente as suas atividades e a se lançar a um caso misterioso.
A secretária de Marcus Rosalbo, Cecília, que também está cursando Letras, afirma que o desaparecimento do dentista não era surpreendente: “Natural. Como se ele tivesse evaporado. Assim, puf”, o que leva Espinosa a uma análise da personalidade evanescente do dentista. Nesse sentido que vai se destacando uma das principais características dos romances de Garcia-Roza: o incorruptível delegado sabe explorar, durante as investigações, a interioridade das pessoas. Em Céu de origamis, destaca-se sobretudo a personalidade de um desaparecido discreto, enigmático e metódico, o que a princípio não ajuda muito para se chegar à solução do caso. Espinosa, porém, continua a investigar a personalidade não apenas de Rosalbo, mas também as de sua mulher, de seu advogado e de sua secretária. O detetive estaria então muito próximo de um psicanalista? Garcia-Roza, de modo muito arguto, já havia tratado dessa questão em uma entrevista: “o detetive investiga sem a cooperação do investigado, ao passo em que a análise se dá necessariamente na presença e com a cooperação do analisado”.
Ainda assim, é possível associar a psicanálise ao detetivesco e o detetivesco à psicanálise, pois tanto em uma ficção policial quanto em uma análise estão em jogo as pistas que devem ser seguidas e quais são as estratégias discursivas dos investigados/analisados. Mas, por outro lado, pensando-se assim, todo romance se torna uma obra policial.
Os arquivos do IMS
O Instituto Moreira Salles comprou, no fim do ano passado, dois incríveis arquivos pessoais: os de Erico Verissimo e Mário Quintana. Logo após, buscou compor uma equipe para organizar e dar visibilidade a todo o seu acervo arquivístico, que conta ainda com os notáveis Clarice Lispector, João Alexandre Barbosa, Otto Lara Resende e Rachel de Queiroz, entre outros. A experiente pesquisadora Élvia Bezerra foi convidada para assumir a coordenação do arquivo; para fazer a curadoria do acervo, Eucanaã Ferraz, poeta e professor incansável da UFRJ.
Para 2010, o Instituto Moreira Salles já prepara uma série de comemorações em torno do centário de Rachel de Queiroz e dos 80 anos de publicação de seu romance mais notável, O Quinze, que já se tornou um clássico da literatura brasileira. Haverá ainda cursos sobre Ana Cristina Cesar e uma série de palestras sobre correspondências de escritores brasileiros.
O discurso das periferias
As favelas, onde antes se ia para comprar samba, como disse Chico Buarque no excelente documentário Palavra (en)cantada, de Helena Solberg, com o narcotráfico tornou-se um espaço urbano dominado por bandidos, atormentado pelas drogas e embalado pela violência. Ficaram isoladas em si mesmas, como um organismo doente no centro das cidades, apesar de serem havitadas sobretudo por trabalhadores.
Mas nos anos 1990 as favelas do Rio de Janeiro começaram a retomar o seu prestígio e criar, por todo o Brasil, um movimento em que as periferias buscavam o seu lugar. Cidinho e Doca comporam então um hit nacional, o “Rap da felicidade”, cantado por todas as classes sociais, manifestando com força e irreverência o início de uma virada de jogo: “Eu só quero é ser feliz/ Andar tranquilamente na favela onde eu nasci, é/ E poder me orgulhar/ E ter a consciência que o pobre tem seu lugar, eu”. Tranquilidade, orgulho e consciência passaram a fazer parte do vocabulário corrente de quem vive nas periferias.
Projetos culturais como o AfroReggae, criado em 1993, são centros de irradiação dessa política em busca de igualdade e justiça por meio da arte. Buscando tirar crianças e jovens do crime, o AfroReggae assumiu até mesmo o papel de intermediar a saída de quem pretende afastar-se do tráfico. No lugar das armas e das drogras, oficinas de capoeira, dança, percussão e reciclagem, modificando a longo prazo o cenário das favelas.
Começaram a surgir também os autores das periferias, como Ferréz, Sacolinha (Ademiro Alves) e Sérgio Vaz. Influenciados pelos quadrinhos, funk, hip-hop e rap, esses autores começaram a retratar a vida nas favelas, as suas dificuldades, dramas e, ao mesmo tempo, a sua capacidade de renovação. Suas obras revelam uma linguagem urbana, com gírias, variações das normas, mistura de depoimento e ficção.

Escritores que no início eram mambembes, levavam seus livros pela cidade, liam trechos em bailes, bares e centros culturais das periferias, aos poucos chegaram também às grandes livrarias, como à Cultura e à Vila, ambas de São Paulo, e à Travessa, do Rio de Janeiro, onde fazem palestras, saraus, e vendem seus livros. Além disso, começaram a criar suas próprias editoras.
O discurso das periferias ganhou espaço, as classes C e D passaram a se autorretratar, com sua própria linguagem, compondo a história afetiva e social de seu povo. Agora, o que se tem no cenário da literatura brasileira (e da cultura num todo) é não apenas personagens atormentados por conflitos existenciais típicos da elite, mas também os anseios e os conflitos de trabalhadores braçais e intelectuais das favelas. Em função disso, a academia também precisou sofrer mudanças: antropólogos, críticos da literatura e sociólogos, por exemplo, não têm mais como estudar a produção das periferias e suas características sem contar com a participação dos seus próprios protagonistas e realizadores. Começa a haver um fluxo mais constante entre o saber científico e o conhecimento que nasce e se desenvolve das favelas.
Os artistas das periferias (DJs, MCs, rappers, poetas, contistas, romancistas, educadores sociais, entre outros) já têm o seu lugar e conseguem mostrar que as comunidades pobres não são fábricas de degenerados. É sempre muito bom saber que a arte ainda tem força para servir como antídoto da violência.
O quente de 2010
Alguns lançamentos que prometem neste ano: 2666, de Roberto Bolaño, e Invisível, de Paul Auster, pela Companhia das Letras; A estrada, de Cormac McCarthy, e A casa verde, de Mario Vargas Llosa, pela Alfaguara; Em alguma parte alguma, de Ferreira Gullar, pela José Olympio; Três vidas, de João Tordo, e Requiem para o navegador solitário, de Luís Cardoso, pela Língua Geral.
