A poesia de Ismar Tirelli Neto

Syncronoscopio

Ismar Tirelli Neto nasceu no Rio de Janeiro, em 1985. Poeta, lançou Synchronoscopio pela editora 7Letras. A novíssima poesia brasileira ganhou então, em 2008, um de seus autores mais inventivos e surpreendentes, cuja complexidade não me permite defini-lo, com mais vagar, de antemão. Por meio do título de seu livro e do poema de abertura, é possível entender que se trata de uma obra refratária a classificações imediatas. Aqui transcrevo o abre-alas de Synchronoscopio, de modo que vocês compreendam a minha dificuldade:


Carta de intenção

qualquer coisa de longe

qualquer coisa de quieto

qualquer coisa de bastante

árido; paisagem

num repente outra

incomple

ta atalhada

qualquer coisa que não se consegue

despeitando tanto

olhar

as escolhas dos outros

os detetives;

os contratados

Observem que Tirelli Neto propõe uma carta de intenção, ou seja, uma tipologia discursiva que serve à definição de interesses de um certo profissional. Mais do que isso, cartas dessa natureza têm como fim um lugar ao sol e depreende-se, a partir disso, que estão relacionadas com a busca pela estabilidade. E convencionalmente, a estabilidade é um valor social.

Contudo, absorvendo o poético, a carta torna-se instável, consequentemente. A intenção logo ganha outro valor: não mais a produtividade dos negócios, mas a improdutividade da criação literária, se pensada do ponto de vista econômico. Lembremos que segundo George Bataille erotismo e trabalho se contrapõem, enquanto erotismo e arte caminham juntos. E tal construção da improdutividade, ou seja, da poesia, nesse caso, traz resultados muito pouco rentáveis para os parâmetros de uma sociedade que vivencia seus negócios sempre sob a perspectiva do lucro. Desse modo, um poeta – no contexto econômico e social de agora – é um ser bastante marginal. E não à toa Ismar revela, através de “Carta de intenção”, o uso da ironia não propriamente como figura de linguagem, mas como elemento estrutural do livro. Através da ironia que ele vai se lançar contra os paradigmas, desconstruindo-os, para então construir a sua poesia.

Além disso, a expressão “qualquer coisa”, repetida quatro vezes no poema (versos 1, 2, 3 e 8), é um dos componentes para a construção do efeito de ironia. Através dela manifesta-se um interesse indefinido, que caminha novamente num sentido contrário ao esperado de uma carta de intenção. Em outras palavras – nada poéticas, desculpem –, o autor afirma: com este texto, pretendo mostrar que não tenho interesses claros e definidos. No entanto, não deixemos nos enganar: é um sofisticado jogo retórico, uma vez que se afirma, dessa maneira, o interesse por uma certa poética, avessa a modelos criativos de precisão (leiam, por exemplo, cabralinos). Ismar Tirelli Neto escolhe, com “Carta de intenção”, o espaço da instabilidade, pois esta parece ser a matéria de que é feito o seu tempo.


Logo depois da primeira ocorrência da expressão “qualquer coisa”, a incerteza buscada pelo poema se firma ainda mais com os complementos “de longe” e “de quieto” (versos 1 e 2), que suportam, a partir deles, a interpretação de muitos sentidos. Os complementos organizam-se, portanto, coerentemente com a busca pela instabilidade. É possível observar, por exemplo, duas sugestões a partir da expressão “de longe”: o intento do poeta está fora de alcance, mas a imagem, concomitantemente, também dá ao trabalho criativo uma medida de sublimação, intensificada pela expressão “de quieto”, a implicar paciência e reflexão.

O “quieto” logo depois se desdobra, num procedimento em que uma palavra puxa a outra, recurso aliás tipicamente drummondiano. É por meio de tal técnica que “quieto” dá origem ao enjambement “bastante/ árido” – e o movimento da aridez escorrega de uma margem à outra dos versos, de fora para dentro, como uma ampuleta a ser virada. Assim o poeta e o próprio poema (e também o leitor, por que não?) se veem num atoleiro e, de certo modo, encontram-se quase imobilizados pelo excesso de aridez da contemporaneidade, que exige a escolha incisiva e rígida de posições em um contexto cultural, econômico e social caracterizado, ao contrário, pela diversidade e volubilidade de estruturas. Não é uma areia qualquer, mas uma areia movediça.


Da primeira para a segunda e terceira estrofes, Ismar empreende um corte brusco no poema. É como se a parte inicial estivesse formada por uma substância avessa à composição da segunda e da terceira, que formam a outra parte de “Carta de intenção”. Muda-se a extensão da estrofe, muda-se o ritmo dos versos, muda-se o tom sublime do início do poema. Parece existir, entre as duas partes, uma certa cortina de ferro.

Eis que aparece uma certa exigência policialesca acerca da necessidade de o poeta e o homem revelarem os seus intentos ou posicionarem-se, rigorosamente, em busca de espaços de estabilidade. Aqui é a voz da convenção que fala mais alto do que a voz pessoal do discurso lírico. É preciso tomar rumo na vida, ressoa ao fundo do poema, que combate permanentemente essa ideia, ou vibra o trecho “‘você está ficando barrigudo devia fazer algo/ a respeito você é jovem demais’/ G. dixit”, de “Poema da tarde”. Vai se revelando assim, na poesia de Ismar Tirelli Neto, que os paradigmas se tornaram muito anacrônicos para o nosso tempo, embora resistam como uma instituição protegida a toda a força, repressão disfarçada que surge nas duas últimas estrofes de “Carta de intenção” com um tom de filme de suspense ou de romance noir.

Compreendam: é da tensão entre aquilo que se quer (individualmente) e aquilo que esperam que se seja (socialmente), que parece nascer a poesia e o cotidiano relatado por Tirelli Neto. O retrato às vezes é composto de modo irônico, em outros casos, de auto-irônia, respectivamente: “você está de dieta ou desistiu, afinal, de descortinar/ uma grande verdade interior?” (“Rufus”) e “Não entendo, e vão nisso anos e anos, nem todos meus” (“Instantâneo à beira-mar”). Explora-se ora o humor, ora a dramaticidade, mas por vezes ambos se encontram reunidos, o que ganha uma dimensão avassaladora.

Ao longo desse livro, a indefinição vai encontrando novas escolhas – imprecisas, é certo – e enfrenta-se o que podemos chamar de repressão institucionalizada dos parâmetros sociais: ser um bom filho, bom pai, com trabalho estável, heterossexual, magro, corpo atlético e daí por diante. Nesse sentido, os poemas de Synchronoscopio organizam-se narrativamente, dialogam entre si, formam de maneira comovente uma história de amor e de morte, de libertação e de perseguição, que se entrelaça sem ser resolvida, até mesmo porque a ironia está sempre desconstruindo os castelos de carta, bem como o que está para além disso, solidamente: “precisamos de um plano. Um projeto. Um projétil”, conforme a última estrofe do notável “Rufus”.

Um projétil para desconstruir uma concepção equivocada do tempo como fixidez, dos falsos e inúteis parâmetros sob um contexto diversificado; projétil como o tempo dos “pássaros/ com asas de foice” que rasam a cidade, num jogo de representação a moda de um filme de Alfred Hitchcock. Planos e projetos revelam-se estéreis diante da crise geral de comportamente em que nos encontramos. É necessário, portanto, criar novos instrumentos: ser, por que não?, instável, permitir-se à indecisão, à falta de controle estético ou ideológico, ser, por que não?, poeta. Eis uma escolha arriscadíssima, que Ismar assume em sua carta de intenção.

É de um novo tempo, o tempo da paciência e da criação –, um tempo do antinegócio, economicamente falando –, que vai surgir a possibilidade de reunião, por parentesco, de “a flor, o peixe/ e o terremoto, o furacão”, do poema “Urbano”. Em Synchronoscopio, a cidade abre-se aos poucos como um jornal, para usar a imagem de Oswald de Andrade, e abre-se de diversas maneiras: no espaço de casa, em que se vive só; da academia de ginástica, em que não se tem a privacidade de assumir o próprio corpo e sexualidade; ou da própria rua, quando tudo é mais cortante e socialmente violento, conforme o poema “Livro do dia”:

fico com medo

é do verão ficar com medo

é do Brasil ficar com medo

é do Rio ficar com medo

é Copacabana

(velha de guerra)

principalmente

Ismar Tirelli Neto diferencia-se de sua geração por um aspecto muito relevante: sua poesia impõe um distanciamento crítico inquestionável e avassalador em relação a uma série de aspectos determinantes da pós-modernidade ou hiper-modernidade. A perspectiva da inocência é absolutamente abandonada, dando lugar a leituras originais de nosso tempo, colaboração sintomática da força criativa da novíssima geração de poetas. Ismar é um autor a ser acompanhado atenciosamente e que, é bem provável, vai se tornar um dos grandes nomes da poesia brasileira.


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