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De Paulo para Thereza

Extraído do site do Instituto Moreira Salles:

Há exatos 50 anos a mocinha de 18 anos Thereza de Oliveira da Silva ganhava o primeiro lugar do concurso “Realize seu sonho”, promovido pela revista Claudia. Pedia uma festa de casamento com garçom e bufê, mas principalmente com a presença do cronista de sua predileção: Paulo Mendes Campos. Ao pé do altar e acompanhado da mulher, Joan Mendes Campos, ele apadrinhou o casal e, na festa de realização do sonho da noiva, leu a crônica “Para Thereza”, em substituição ao costumeiro discurso.

Ao longo da vida, a afilhada concretizou o desejo do cronista, que lhe escrevera: “Nenhum dinheiro do mundo pode comprar este generoso sentimento do milagre que é viver, sonhar”. Leia a crônica e veja o depoimento de Thereza hoje, viúva de José Francisco de Sousa Leite, com quem teve três filhos. Ela conserva o hábito de sonhar e viver com esperança, a despeito da dureza com que a vida tem lhe tratado.

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“O amor acaba”, de Paulo Mendes Campos

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

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“Cheira como inconformismo” – Tony Bellotto

Muito boa a estreia de Tony Bellotto no Segundo Caderno do jornal O Globo. A crônica foi publicada no dia 23 de junho de 2013:

Napalm

“Adoro o cheiro de napalm pela manhã”, diz o esquizofrênico coronel Kilgore, personagem interpretado por Robert Duvall em “Apocaypse now”, enquanto surfa nas marolas de um rio durante um bombardeio na Guerra do Vietnã. Ao final da frase – uma das mais famosas do cinema -, o patético Kilgore conclui, inspirado pelas emanações do líquido incandescente e devastador: “Cheira como& vitória”.

Avenida Paulista

Em São Paulo depois de um ensaio com os Titãs, me deparo a caminho do hotel, na Avenida Paulista, com tropas de choque da polícia militar e caio por acaso numa das manifestações que têm ocorrido com frequência em cidades brasileiras nos últimos dias. Testemunho uma batalha campal, com a polícia descendo descaradamente o sarrafo nos manifestantes. Flashes de meus tempos de estudante assaltam-me a memória e me reúno àqueles jovens que – há quanto tempo eu não via isso! – protestam contra alguma coisa.

Gás lacrimogênio

Ao sentir olhos, narinas e garganta arderem ao contato do gás lacrimogêneo, automaticamente me entrincheiro com os manifestantes contra a ação exageradamente violenta da polícia. Entre uma tomada de ar e uma esfregada nos olhos parafraseio o detestável coronel Kilgore – por motivos opostos aos seus, ressalte-se, já que sou um flanador ingenuamente anarquista e defensor radical dos direitos individuais e da democracia: “Adoro o cheiro de gás lacrimogêneo ao cair da tarde. Cheira como& inconformismo.”

Polícia para quem precisa

Sou de uma geração que cresceu durante a ditadura militar e atingiu a maioridade quando o país se redemocratizava. Participei de manifestações contra a ditadura e a favor das eleições diretas e da anistia. Integro uma banda que se notabilizou pelo discurso contestador e insubmisso. Não estivessem meus olhos lacrimejando por conta do nefando gás, eu poderia creditar a uma constrangedora onda de sentimentalismo as lágrimas que me escorrem pelas faces ao ouvir os manifestantes entoando a música “Polícia” – que compus há exatos 28 anos – como um hino de resistência à truculência policial na Avenida Paulista. “Polícia para quem precisa, polícia para quem precisa de polícia”& snif, snif.

Cavalo de Troia

Há tempos me intrigava a apatia dos jovens em relação à política. Uma estratégia que incluía a cooptação de estudantes pelo poder estabelecido, com o ardil eficiente de creditar qualquer insatisfação com um governo popular a uma manifestação “burguesa”, ou elitista – no melhor estilo com que se acusavam os contrarrevolucionários no stalinismo -, somada a um sentimento generalizado e ufanista, docemente iludido, de que o Brasil deu certo, aparentemente funcionou muito bem até aqui. Na eclosão do escândalo do mensalão nos idos de 2005 estranhei que tão poucos artistas se manifestassem contra a esbórnia institucional que aqueles eventos sugeriam. Os Titãs foram dos poucos – pouquíssimos – a compor uma canção que comentava a situação, e “Vossa Excelência” é um hit que não podemos – e não queremos – deixar de fora de nossos shows até hoje. Talvez o gás lacrimogêneo tenha limpado meus olhos como um colírio ardente e me permitido ver que a suposta apatia dessa juventude, como num ditado zen, era apenas um cavalo de Troia recheado de revolta.

Navegar é preciso

Os jovens manifestantes criticam os aumentos das tarifas dos ônibus e do custo de vida, a má qualidade de transportes, educação e saúde, e questionam a realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas no Brasil. Ou seja, fazem o que jovens sempre fizeram, ou deveriam fazer: criticam, contestam e questionam tudo que acham errado. Os jovens falam por todos nós, ninguém aguenta mais tanta bandalheira e descaso. O movimento se expande e começa a receber adesões de toda a sociedade. O ponto mais interessante é que não aceitam a tutela de partidos nem de ideologias, pelo contrário, os abominam, o que demonstra que são mais inteligentes e articulados do que muitos gostariam. Ah, e se comunicam pelas redes sociais da internet, como fazem seus companheiros da praça Tahrir, da praça Taksim e de muitas outras praças libertárias espalhadas pelo mundo. E tem gente que ainda vê a internet como um poço de alienação. Navegar é preciso, dizia o poeta.

Caos

Pegos de surpresa, imprensa e políticos – e boa parte da população atônita – tiveram a princípio a percepção de que as manifestações expressavam uma ação desarticulada de vândalos incendiários e desocupados ressentidos. Mas estavam errados e já reformulam às pressas seus discursos e teorias. Concordo que qualquer patrimônio – histórico, público ou privado – não deve ser depredado, assim como o direito de protesto tem de ser respeitado até o momento em que ameace a segurança pública. Mas é muito difícil encontrar esse equilíbrio e algum caos terá de ser assimilado. É preciso ter um caos dentro de si para poder dar à luz uma estrela bailarina, dizia o filósofo.

Pai e filho

Me ocorre uma canção composta por Cat Stevens antes de se tornar um fanático religioso e sectário, “Father and son”. Nela Cat expressa duas visões de mundo na forma de um diálogo entre um pai e um filho. Diz o pai em tom grave: “Não é tempo de mudar, apenas sente-se e vá devagar, você continua jovem, esse é o seu problema, há muita coisa que você tem que enfrentar.” E o filho rebate em tom agudo, quase gritando: “Como eu posso tentar explicar, quando faço ele ignora, é sempre a mesma coisa, a mesma velha história. Quando pude falar, fui obrigado a ouvir. Agora há um caminho e eu sei que tenho de ir embora, eu sei que tenho de ir.”

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“Odeio o Brasil” – Francisco Bosco

Excelente a crônica de Francisco Bosco publicada no jornal O Globo, a 13 de junho de 2013:

Nunca pensei que fosse escrever isso. Fui formado principalmente por uma tradição de intérpretes do Brasil que enxergava na singularidade de nossa formação um vasto tesouro e um enorme potencial. A cultura popular em Mário de Andrade, a criatividade antropofágica em Oswald, a glória e a tragédia da miscigenação em Freyre, até chegar em intérpretes contemporâneos, como Risério, Caetano, Wisnik, Antonio Cicero, entre outros que, sem baratear nossos impasses e mazelas, permaneceram afirmativos da nossa singularidade e capazes até mesmo, como no caso de Caetano, de vislumbrar uma civilização brasileira com lições a oferecer ao mundo. Infelizmente, sinto-me cada vez mais afastado de um pensamento amoroso e afirmativo de nossa história, de nosso presente e, consequentemente, de nosso futuro.

Um dos traços mais positivos de nossa formação é o fato de que aqui o concreto prevaleceu sobre o abstrato. É claro que o reverso da moeda, como soube ver de modo seminal Sérgio Buarque de Holanda, é a incapacidade de regularmos as relações sociais pelos princípios abstratos e impessoais da lei. Mas o privilégio do concreto sempre foi um antídoto poderoso, um desmentido da realidade contra as ideologias totalitárias, da eugenia racista aos monoteísmos perseguidores. Continuo considerando, por causa disso, o Brasil um país especialmente apto a erradicar o legado da escravidão, mas para isso precisamos de uma massa de ações afirmativas, o que por sua vez esbarra no reacionarismo de classe e no negacionismo interessado (talvez seja a mesma coisa). Continuamos sendo, por um lado, uma cultura livre dos terrorismos étnicos e religiosos que assolam boa parte do mundo, mas, por outro lado, o crescimento do poder dos monoteísmos ameaça essa que é uma de nossas poucas virtudes civilizatórias. Os evangélicos paranoicos, os cristãos obscurantistas e a direita monossexual à Bolsonaro vão ganhando terreno cada vez mais perigosamente. A PEC 99/11, que possibilita a entidades religiosas questionarem decisões judiciais, elevando os valores da fé a argumentos jurídicos, pode, se passar, ser um marco terrível da reação.

E tudo isso acontece, pasmem, num governo supostamente de esquerda, que muitas vezes facilita essas manobras e se esquiva o quanto pode de se pronunciar com clareza sobre temas civis fundamentais. À presidente Dilma parecem interessar apenas as questões relativas à economia; os posicionamentos do governo quanto a temas como casamento entre homossexuais e descriminalização das drogas são omissos ou conservadores.

Mas o mais grave ainda está por vir. Num momento em que a Humanidade precisa modificar sua intervenção no ecossistema, sob pena de não haver mais espécie humana, o Brasil aprova um Código Florestal catastrófico, os ruralistas mandam e desmandam no legislativo, a esquerda desenvolvimentista do PT insiste em construir Belo Monte — e os índios vão sendo assasinados, torturados ou relegados à mendicância (ou emparedados até o suicídio). Em uma manifestação contra o fim da Aldeia Maracanã, o poeta Ramon Mello carregava um cartaz onde se lia a precisa pergunta: “O que se teme no índio?” Não é difícil responder. O índio é para a nossa sociedade o objeto que impossibilita o recalque de uma verdade dura demais: a verdade de que o “progresso” humano está nos conduzindo dialeticamente à morte, à morte de tudo e todos. Os desenvolvimentistas querem acabar com o índio pela mesma razão que nós enterramos um cadáver: porque ele nos lembra da nossa própria morte. É isso o que se teme no índio. Não encarar agora a verdade simbólica do índio implicará em ter que encarar a verdade real que o seu extermínio anuncia.

E enquanto essas grandes questões vão regredindo em nome do progresso, a vida ao rés-do-chão não apresenta sinal de melhoras. Sim, o país cresceu; milhões de pessoas saíram da linha da miséria (embora uma matéria recente da “Folha” tenha mostrado que os números são controversos). E isso não é pouco. É de condições básicas que estamos tratando, de justiça social mínima. Viva o bolsa família. Viva o emprego. Viva a PEC das domésticas. Mas é incrível como permanece a incapacidade da sociedade brasileira de se pensar como um organismo interdependente, onde as ações de cada sujeito devem seguir critérios de justiça para o bom funcionamento do todo. Aqui é cada um por si e todos contra todos. Isso degrada a confiança no respeito às leis, sem a qual os cidadãos não conseguem deixar de reproduzir o comportamento de violação dos pincípios públicos, e produz um desgaste insuportável na vida cotidiana.

Feito o desabafo, resta seguir lutando.

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Espalhe Drummond

Extraído do perfil da Companhia das Letras (Facebook):

(Verso do poema “O sobrevivente”, de Carlos Drummond de Andrade)

A Companhia das Letras passa a editar em 2012 a obra de Carlos Drummond de Andrade. Serão mais de 40 títulos ao longo dos próximos anos que terão textos estabelecidos por especialistas, indicações de leitura e ensaios inéditos, além de um projeto gráfico moderno e elegante.

Os 5 primeiros volumes da coleção chegam às livrarias dia 10:
– “A rosa do povo” (poesia)
– “Claro enigma” (poesia)
– “Sentimento do mundo” (poesia)
– “Contos de aprendiz” (contos)
– “Fala, amendoeira” (crônicas)

Para comemorar a chegada das novas edições, a editora preparou uma série de eventos espalhados por São Paulo e no Rio de Janeiro e outras capitais. Confira a programação:

DRUMMOND E O MUNDO

A Companhia das Letras, em parceria com SESC-SP, convida para o lançamento das novas edições e homenagem ao escritor Carlos Drummond de Andrade. O evento terá direção e apresentação de José Miguel Wisnik, direção de arte de Daniela Thomas e a presença dos músicos Arrigo Barnabé, Arnaldo Antunes, Marcelo Jeneci e Emicida. Durante a apresentação, serão exibidos pequenos filmes feitos pelo Instituto Moreira Salles e por Carlos Nader, com participação especial de Luiz Tatit e Alice Ruiz.

Quarta-feira, 14 de março, às 20h
Sesc Vila Mariana
Rua Pelotas, 141
Tel: 5080-3000 / 0800-11-8220
São Paulo / SP
www.sescsp.org.br
Retirada gratuita de até dois ingressos por pessoa, pelo sistema INGRESSOSESC, a partir das 14h do dia 8 de março, enquanto houver disponibilidade de lugares.

HOMENAGEM A DRUMMOND

A Biblioteca Nacional, a Casa da Gávea e a editora Companhia das Letras convidam para homenagem a Carlos Drummond de Andrade, por ocasião do lançamento das novas edições de sua obra pela Companhia das Letras, com participação de Cristina Pereira, Vera Fajardo, Paulo Betti e Eucanaã Ferraz.

Segunda, 12 de março, às 18h
Fundação Biblioteca Nacional
Jardins da BN
Rua México, s/n (entrada pelo jardim)
Centro – Rio de Janeiro

SARAU ESPECIAL DRUMMOND

Sarau Leitores e Leituras — Especial Drummond, com a participação do editor da Companhia das Letras, Leandro Sarmatz.

Quarta-feira, 14 de março, das 17h30 às 19h30
Biblioteca Mário de Andrade – Sala de Convivência
Rua da Consolação, 94 – Centro
Telefone: (11) 3256-5270
São Paulo / SP

AULA SOBRE A POESIA DE DRUMMOND

“A trajetória poética de Drummond”, aula sobre a obra do autor Carlos Drummond de Andrade com o Professor Doutor da faculdade de Letras da Universidade de São Paulo, Murilo Marcondes de Moura.

Quinta-feira, 15 de março, às 19h
Biblioteca Alceu Amoroso Lima
Rua Henrique Schaumann, 777
Telefone: (11) 3082-5023
São Paulo / SP

SARAU DA COOPERIFA DEDICADO A DRUMMOND

Quarta-feira, 21 de março, às 20h45
Rua Bartolomeu dos Santos, 797, Jd. Guarujá – Zona Sul
São Paulo / SP
cooperifa@gmail.com

ESPALHE DRUMMOND

Sábado, 10 de março
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) é um dos mais importantes poetas brasileiros e um dos maiores nomes da poesia do século XX.
Para comemorar a publicação de sua obra pela Companhia das Letras, com novas e modernas edições, a Companhia das Letras promoverá um dia de leitura de poesia de Drummond.
Confira abaixo as cidades e locais participantes.
Mais informações no site http://www.companhiadasletras.com.br/eventos.php

– Belo Horizonte:
Leitura Leitura Pátio Savassi
Leitura BH Shopping
Quixote Livraria
Livraria Mineiriana

– Brasília:
Livraria Cultura – Shopping Iguatemi Brasília

– Recife:
Livraria Cultura – Paço Alfândega

– Curitiba:
Livraria Cultura – Shopping Curitiba

– Rio de Janeiro:
Livraria Argumento – Leblon
Livraria Cultura – Fashion Mall
Livraria da Travessa – Ipanema
Livraria da Travessa – Leblon
Livraria da Travessa – Barra
Livraria da Travessa – CCBB
Estátua de Carlos Drummond de Andrade – Calçadão da Praia de Copacabana

– Porto Alegre:
Palavraria Livros & Cafés
Livraria Cultura – Shopping Bourbon Country

– São Paulo:
Livraria Cultura – Shopping Villa Lobos
Livraria Cultura – Shopping Market Place
Livraria Cultura – Shopping Bourbon
Livraria Cultura – Conjunto Nacional
FNAC Pinheiros
FNAC Paulista
FNAC Morumbi
Livraria Martins Fontes – Paulista
Livraria da Vila – Fradique
Livraria da Vila – Cidade Jardim
Livraria da Vila – Lorena
Livraria da Vila – Itaim
Livraria da Vila – Moema
Livraria da Vila – Higienópolis

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“O DNA das palavras”, de Carlos Heitor Cony

Reproduzo coluna de Calros Heitor Cony publicada no jornal A Folha de S. Paulo de 4 de março de 2012:

A Justiça acolheu o pedido de um cidadão que deseja modificar um verbete do dicionário de Antônio Houaiss, publicado sob a responsabilidade do instituto criado pelo famoso filólogo.

O verbete em causa é “cigano” e seus derivados, como ciganear, ciganice e outros. Como é praxe nos dicionários, há a relação de todos os significados de determinada palavra, inclusive aqueles que podem ser considerados ou que são realmente pejorativos.

Dando seguimento à ação, a Justiça pediu o recolhimento do estoque existente do dicionário em questão e estabeleceu pesada quantia a ser paga ao querelante, devido à indenização moral a que teria direito.

No passado, um intelectual de origem judaica também questionou o verbete “judiação”, constante de muitos dicionários. Não me lembro no que deu a ação, mas a palavra continua constando do léxico, com o significado de maltrato a alguém. É a linguagem do povo, verdadeiro autor e usuário das palavras.
O que se exige de um dicionário é que traga o maior número de significados para cada vocábulo, inclusive para aqueles que podem ser pejorativos ou insultuosos a determinados indivíduos, comunidades ou instituições.

Qualquer palavra pode mudar de significado conforme as circunstâncias e o tom da pronúncia. É o caso de “cachorrada”, altamente pejorativa, derivada de cachorro e cão. “Você é um cão” pode ser elogioso, no sentido de fidelidade, apego a
um amigo. Mas pode ser pejorativo, com o sentido de canalha: “Você não passa de um cão”.

Há o caso de “barbeiragem” e “barbeiro”, palavras relativas a um ofício antigo e digno, mas que a gíria adotou para designar, inicialmente, um mau motorista, e, depois, qualquer um que cometa uma ação errada.

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“Nara Tropicália” – Caetano Veloso

Em sua coluna do último sábado, Caetano Veloso lembrou de Nara Leão, de sua coragem, liberdade e luminosidade [via Conteúdo Livre]:

É muito por causa de Nara que eu desejo dissuadir os dirigintes da Odebrecht de manter o nome Tropicália no projeto  de condomínio que eles estão construindo em Salvador. Dizem-me até que este seria nas bordas da floresta que fica entre a Orla e a Paralela, na altura do Parque de Pituaçu.

 Ao anunciá-lo, o site da empresa dizia tratar-se de uma homenagem “ao movimento encabeçado por Caetano Veloso e Tom Zé. Nomes de outras canções minhas estavam sugeridos para praças internas. Será que os compradores de apartamentos gostariam de viver num lugar que se vende como homenagem sabendo que o(s) homenageados(s) não quer(em) que suas obras nomeiem o empreendimento?

Homenagem é a que a Escola de Samba Águia de Ouro, de São Paulo, vai prestar ao movimento tropicalista. Para isso tomo um avião e vou a Sampa juntar-me a Rita Lee. Os organizadores, ao expor seu enredo, mostraram conhecimento do que significa a Tropicália.

Mas um condomínio fechado, como parte do modo desregulado como vem se dando o crescimento da Cidade do Salvador, não condiz com nosso trabalho: nem o meu, nem o de Tom Zé, nem o de Gil, nem o de Rita, nem o dos irmãos Baptista, nem o de Duprat – nem o de Nara.

É natural que quase todos pensem em Nara como a musa da bossa nova e a pioneira da música participante: ela foi principalmente isso. Mas quero falar da Nara tropicalista. Bem, se ela é sempre retratada como uma moça tímida, um tropicalista ressaltaria antes sua personalidade determinada, seu desassombro em perguntar pela verdade crua das coisas, sua pesquisa permanente sobre a liberdade.

Três cenas representam Nara para mim. A primeira (nunca entendida corretamente pelo objeto da discussão): Nara me pergunta se eu concordo com amigos seus que, ao ouvirem Jorge Mautner falar em bomba atômica, contestam que “esse assunto não tem nada a ver com a realidade brasileira”, o que explicaria que Mautner fosse tido por eles como alienado.

A pergunta era feita por Nara como um pedido de socorro de sua inteligência franca, trazia o desconforto com o modo de pensar vigente nos meios em que andávamos. Ela não aceitava o veredicto e estava pescando argumentos para se posicionar responsavelmente.

A segunda cena suponho que esteja em “Verdade tropical”. Caía a audiência do “Fino da bossa” e subia a da Jovem Guarda. Paulinho Machado de Carvalho, dono da TV Record, marca reunião com Elis, Vandré, Simonal, Gil e Nara para buscar uma solução.

Gil pede que eu o acompanhe. Paulinho admite, mas não tenho voz, só posso ouvir.
Ouço. Vandré se arrepia e enche os olhos de lágrimas na defesa da cultura nacional contra o pop americanizado.Os outros, com bem menor veemência, repetem o discurso. Nara cala.

Paulinho pergunta:” E você Nara, não vai dizer nada? ” Nara dirigi-se exclusivamente a ele: ” Paulinho, você é o dono da emissora, eu sou contratada, canto nos shows para que for escalada. Só peço que, se for possível, não me escale num programa em que esteja Elis Regina: ela disse numa revista que eu não sou cantora”.

A terceira ressurgiu em minha cabeça anteontem à noite, ao ouvir Criolo dizer a Marília Gabriela o quão grande é sua admiração por Ney Matogrosso: numa minifesta na casa de Guilherme Araújo, Nara se aproxima de mim e propõe que saiamos, ela, Ney e eu: ela nutria fascinada curiosidade a respeito dele e queria ter uma aproximação sincera.

Saímos. Conversamos e muita coisa se revelou para ela. Sem sombra de obscenidade ou cafajestice, Ney, Nara e eu aprendemos muito sobre nós mesmos e sobre as complexidades da vida. Ela não teve nenhuma hesitação ao nos convidar a sair daquela casa, nem um milímetro de preocupação pelo que os outros poderiam pensar.

Nara não era tímida. Com sua voz trêmula e pura, com seu violão aplicado, ela foi uma grande artista, uma grande investida brasileira na modernidade. O mesmo impulso que a levou a perguntar sobre o Brasil e a bomba, a desmascarar a farsa do dono da estação de TV, a sair de uma festa pequena com dois colegas esquisitos, a fez ter a ideia de encomendar uma canção sobre um quadro de Rubem Gerschaman.

Assombrada com a passeata contra as guitarras elétricas (o segundo ato da comédia da TV Record para resolver problemas de Ibope), ela viu ali uma marcha integralista, protofascista. E assim me disse. Num dia de 25 de dezembro, ela me contou que, na véspera, estando sozinha na cozinha de sua casa, sentiu-se invadida de súbita e intensíssima felicidade: “Será motivo para preocupação ou comemoração?”,ela perguntou.

“Bem, foi um feliz Natal”, concluiu com um sorriso preocupado. Pouco depois apresentou sintomas mais sérios. Ela tinha algo de poeta. Tudo o que há de corajoso, livre, luminoso no tropicalismo é como o espírito de Nara Leão. Não posso trair sua memória: tenho que pedir à Odebrecht que retire o nome que batizou algo em que ela esteve envolvida de um projeto que representa, no limite, a ameaça de encher a Ilha dos Frades de prédios altos.

Copacabana (onde Nara cresceu) livrou-se da sombra sobre a areia com um aterro feito nos anos 70; Recife sofre ainda desse mal; Salvador, que teria tudo para ser uma joia, deve ao menos poder manter suas praias ao sol.

Nara era uma praia ao sol. Franca, livre. Por causa dela, não posso fazer por menos. “Tropicália’ não deve se confundir com o seu oposto. A morte prematura de Nara lançou uma sobra em minha vida; sua lembrança mantém o sol no meio do céu.

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